Os efeitos devastadores das apostas online vão do endividamento à destruição de famílias, depressão, desespero e suicídios; especialistas dizem que o problema está só no começo, vai piorar muito
Luiz de Carvalho
Com informações da Fundação Oswaldo Cruz / Radix
Quem quiser conhecer o tamanho do desespero de pessoas que não conseguem resistir às apostas, basta participar de uma reunião de Jogadores Anônimos (JA). Mas, pior ainda do que se ouve lá, é falado nos grupos de familiares dos jogadores, possivelmente porque a maneira descontrolada de alguns apostadores esteja prejudicando a família com dívidas e o risco de perda dos bens que são de todos.
Uma média de 30 milhões de pessoas passam a fazer apostas em plataformas eletrônicas a cada seis meses. Para se ter uma ideia dessa velocidade, o intervalo de tempo é menor do que o que o coronavírus levou para contagiar o mesmo número de pessoas no Brasil entre fevereiro de 2020 e o final de janeiro de 2021.
Embora não haja como computar quantos são os jogadores hoje, calcula-se que no Brasil perto de 100 milhões de pessoas jogam eventualmente, 48% desses são novos jogadores, ou seja, começaram neste ano, alguns deles fizeram uma ou outra aposta, mas alguns não conseguem parar de jogar e é aí que mora o perigo.
Os dados fazem parte de pesquisa de opinião do Instituto Locomotiva. O hábito de tentar a sorte nas plataformas eletrônicas atinge uma população no Brasil do mesmo tamanho do número de habitantes da Colômbia e superior à de países como Coreia do Sul, Espanha e Argentina.
Perfil dos apostadores
O levantamento traçou um perfil dos apostadores de bets.
⦁ 53% são homens
⦁ 47% são mulheres
⦁ 4 em cada 10 jogadores têm entre 18 e 29 anos
⦁ 41% estão na faixa etária de 30 a 49 anos
⦁ 19% têm 50 anos ou mais
⦁ 8 de cada 10 são pessoas das classes C, D e E
⦁ 2 de cada 10 são classe A ou B.
⦁ 60% dos que já ganharam a aposta usam ao menos parte do valor do prêmio para tentar nova jogada.
Para o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, a facilidade de fazer aposta nos celulares à mão, o apelo publicitário das bets patrocinando times e campeonatos brasileiros, e a dinâmica do jogo são atrativos das plataformas de jogos online.
Mas, o problema não está exatamente nas bets, mas naqueles jogos de cassino e outros que não são legalizados no Brasil. O Tigrinho tem sido razão para endividamentos, brigas em família e até tentativas de suicídio.
Nome sujo
O Instituto Locomotiva também verificou que 86% das pessoas que apostam têm dívida e que 64% estão negativados na Serasa. Do universo de pessoas endividadas e inadimplentes no Brasil, 31% jogam nas bets. “Quando uma pessoa endividada opta por apostar, muitas vezes na perspectiva de sair do endividamento, nós temos alguma coisa errada nisso”, pondera Renato Meirelles.

A situação econômica ajuda a entender por que “ganhar dinheiro” é a principal razão apontada para fazer apostas online (53%) – acima de “diversão/entretenimento/prazer” (22%); “emoção e adrenalina” (10%); “passar o tempo” (7%); “curiosidade” (6%); e “aliviar o estresse” (2%).
Meirelles considera o fenômeno das apostas eletrônicas “uma pandemia” com efeitos sobre a saúde mental. A pesquisa levantou informações e opiniões sobre o impacto psicológico das apostas. Sessenta e sete por cento dos entrevistados conhecem pessoas que “estão viciadas em apostas esportivas”.
Estado emocional
Os entrevistados do Instituto Locomotiva revelaram que acreditam que
⦁ o jogo aumente a ansiedade
⦁ cause mudanças repentinas de humor
⦁ possa gerar estresse
⦁ sentimento de culpa
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Sinais de alerta na saúde
⦁ Isolamento social
⦁ Irritabilidade, ansiedade ou apatia
⦁ Interferência nas relações afetivas e na rotina
⦁ Apostar mesmo após perdas significativas
⦁ Usar dinheiro essencial para jogar
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Não é falta de força de vontade, é doença
“Enganei toda minha família. Desviei dinheiro da empresa do meu pai, da qual eu era sócio há mais de 15 anos. Cheguei ao ponto de vender minha casa para jogar. Contraí dívidas com bancos e agiotas. Tive momentos em que pensei em tirar minha própria vida”.
O depoimento do empresário André Holanda Rodrigues Rolim, feito durante audiência pública da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Apostas Esportivas, revela a dimensão devastadora do problema vivido por milhões de brasileiros que caíram no vício das apostas online.

De aparência inofensiva, as apostas online, popularmente conhecidas como bets — do termo em inglês “bet”, que significa aposta — tornaram-se um fenômeno de massa no Brasil. Com a promessa de ganhos rápidos e acessíveis por meio de qualquer celular, as plataformas se espalharam com velocidade. Nas ruas, transportes públicos, locais de trabalho e até nas salas de aula, é cada vez mais comum ver apostadores conectados. A exigência de maioridade é facilmente burlada.
“As plataformas de aposta são desenhadas para gerar dependência. A facilidade de acesso, a ampla divulgação e a lógica de recompensa imediata contribuem para criar um ambiente propício ao vício. Isso está levando milhões de brasileiros a uma espiral de perdas financeiras, isolamento social e sofrimento psíquico”, afirma o pesquisador e psicólogo Altay de Souza, doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP).
“Estamos diante de uma nova emergência em saúde pública. O vício em apostas online já pode ser visto como uma epidemia no Brasil”
Altay de Souza, doutor em Psicologia Experimental pela USP
Doença incurável
Embora os jogos, tanto os de cassino, quanto as bets que ficaram populares nos últimos e mesmo as brincadeiras, como jogos de baralho e de tabuleiro, sejam para a diversão das pessoas – e para milhões de pessoas são mesmo para se divertir -, há apostadores diferenciados. São os compulsivos, aqueles que não conseguem parar, quanto mais jogam mais ‘precisam’ apostar.
Segundo psiquiatras, psicólogos e outros estudiosos, a compulsão de alguns jogadores é semelhante à do alcoólatra que bebe até morrer, do drogado, do mentiroso cumpulsivo.
A compulsão é uma doença, assim como o alcoolismo, a drogadição e as compradores, comilões…
Sim, as apostas compulsivas, também conhecidas como ludopatia ou transtorno do jogo, são oficialmente reconhecidas como uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A condição é classificada como um transtorno de comportamento no CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), sob o código 6C50 (anteriormente F63.0 no CID-10), e é tratada como uma adição ou dependência, de forma semelhante ao alcoolismo e à dependência de drogas.
Sintomas principais
⦁ Alguns dos principais sinais de alerta incluem:
⦁ Perda de controle: Dificuldade em controlar a frequência, duração ou valor das apostas.
⦁ Preocupação constante: Pensamentos obsessivos sobre jogos de azar.
⦁ Necessidade de aumentar as apostas: Aumentar progressivamente os valores para obter a mesma emoção.
⦁ Irritabilidade ou ansiedade: Sintomas de abstinência quando não pode jogar.
⦁ Consequências negativas: Continuar a jogar apesar de prejuízos financeiros, sociais ou legais.
⦁ Mentiras e segredos: Esconder o comportamento de jogo de amigos e familiares.
Seja corajoso e responda essas perguntas
1 – Você já perdeu horas de trabalho ou da escola devido ao jogo?
2 – Alguma vez o jogo já causou infelicidade na sua vida familiar?
3 – O jogo afetou a sua reputação?
4 – Você já sentiu remorso após jogar?
5 – Alguma vez você já jogou para obter dinheiro para pagar dívidas ou então resolver dificuldades financeiras?
6 – O jogo causou uma diminuição na sua ambição ou eficiência?
7 – Após ter perdido você sentiu como se necessitasse voltar o mais cedo possível a recuperar as suas perdas?
8 – Após um ganho você sentiu uma forte vontade de ganhar mais?
9 – Você geralmente jogava até que seu último centavo acabasse?
10 – Você relutava em usar o “dinheiro do jogo” para as despesas normais?
11 – Alguma vez você já vendeu alguma coisa para financiar seu jogo?
12 – Você já pediu dinheiro emprestado para financiar seu jogo?
13 – O jogo o tornou descuidado com seu bem-estar e o da sua família?
14 – Alguma vez você jogou por mais tempo do que planejava?
15 – Alguma vez você já jogou para fugir das preocupações ou problemas?
16 – Alguma vez você já cometeu, ou pensou em cometer um ato ilegal para financiar o jogo?
17 – O jogo fez com que você tivesse dificuldades para dormir?
18 – As discussões, desapontamentos ou frustrações fizeram com que você tivesse vontade de jogar?
19 – Alguma vez você já teve vontade de celebrar alguma boa sorte com algumas horas de jogo?
20 – Alguma vez você já pensou em se autodestruir como resultado do seu jogo?
Se respondeu “sim” para cinco perguntas ou mais, pense na possibilidade procurar ajuda
Onde procurar ajuda?
É fácil saber se está na hora de procurar ajuda. Basta refletir um pouco e verificar honestamente, corajosamente, se o jogo se tornou um problema em sua vida. Se você está jogando mesmo depois de ter prometido para si mesmo parar com as apostas, então é porque ele fugiu do seu controle, ou seja, você perdeu o controle sobre a própria vida.
Se achar que precisa de ajuda, ela existe, é de graça, não tem interferência de religiões e muito menos de políticos. São os grupos de Jogadores Anônimos (JA). Para os familiares – que também sofrem com um jogador descontrolado – também há ajuda, o Jogadores Anônimos para Familiares (Jog-Anon), que reúne pessoas afetadas pelo jogo compulsivo de um ente querido, como cônjuges, filhos, pais e amigos.
Em Maringá, o JA e o Jog-Anon têm reuniões regulares todas as quartas-feiras, às 20 horas, em salas da Paróquia Divino Espírito Santo, na Avenida Pedro Taques.
Anonimato garantido
Nos grupos de Jogadores Anônimos não há ninguém que não tenha o problema da compulsão pelo jogo. São pessoas iguais, que compartilham seus problemas, dificuldades para ficar sem jogar, os problemas causados pelo jogo. Não há remédio, não há conselhos, apenas compartilhamento. E só com isso, muitos conseguem ficar sem jogar e deixar de sentir vontade de jogar, quer dizer, deixam de sofrer com a doença.
São milhares de grupos de JA em todos os continentes e neles estão milhões de pessoas que estão conseguindo levar uma vida normal sem o jog. Normal para eles e para suas famílias.

E uma das vantagens de frequentar esses grupos é que o aninimato é um dos principais requisitos. As pessoas que lá comparecem não precisam se filiar, se inscrever ou se matricular, não precisam assinar nada e, se for de sua vontade, não precisa nem dizer o seu nome.
Os frequentadores não devem comentar fora da sala nada do que ouviu lá dentro. Não devem nem falar de quem estava presente e nem se a recuperação de fulano está indo bem ou mal.
Mas, por que todo esse segredo? Não é segredo, é apenas a necessidade de preservação do anonimato das pessoas. Isso acontece também nos Alcoólicos Anônimos, Devedores Anônimos, Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, …
Normalmente a pessoa que procura ajuda já se sente derrotada o suficiente para não querer que outras pessoas saibam que ela perdeu o controle sobre sua maneira de jogar, nem que ela está frequentando um grupo de ajuda mútua e muito menos que saibam o que ela contou lá aos outros que sofrem do mesmo problema.
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Grupos de Jogadores Anônimos
Em Maringá
Paróquia Divino Espírito Santo – Avenida Pedro Taques – Zona 7
Reuniões às quartas-feiras, 20 horas
Requisito: o único requisito é o desejo de vencer a compulsão pelo jogo
Em Londrina
Paróquia Sagrados Corações – Rua Mato Grosso, 1.167 – Centro
Reuniões às terças-feiras, 19 horas
Requisito: o único requisito é o desejo de vencer a compulsão pelo jogo
Em Guarapuava
Paróquia Bom Jesus – Sala 1
Rua das Violetas, 93, Trianon, Guarapuava – PR
Sexta-feira, às 19h
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Veja se há um grupo de Jogadores Anônimos por perto
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