Por Pedro Ernesto Macedo
Há quem fale alto, mas diga pouco. Há quem sussurre, e o mundo inteiro escuta. A diferença não está no volume, mas na frequência. A comunicação, antes de ser som, é vibração. E a voz — essa extensão visível da alma — só encontra seu poder quando descobre o tom exato em que o espírito habita.
Sempre acreditei que comunicar não é informar. É transformar. Nietzsche dizia que “não há fatos, apenas interpretações”. E talvez comunicar seja isso: interpretar o invisível, dar forma àquilo que vibra em silêncio dentro de nós. A palavra, quando vem alinhada à energia certa, deixa de ser discurso e se torna presença.
Descobri que há uma música oculta na fala humana. O olhar, o gesto, o silêncio entre as frases — tudo possui uma nota, uma vibração, uma harmonia. Quando essa sinfonia interna se desalinha, as palavras soam certas, mas chegam erradas. Jung chamaria isso de dissonância entre o Self e a Persona: a máscara fala, mas a alma não responde.
Heráclito já dizia que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio — e tampouco se comunica duas vezes da mesma forma. Cada encontro é uma frequência. Cada voz, uma onda. Cada expressão, uma tradução provisória do que somos naquele instante. Por isso, não existe comunicação verdadeira sem consciência.
A frequência da comunicação é o instante em que o ser e o dizer coincidem. É o momento raro em que a voz vibra no mesmo compasso do propósito. Quando o que se diz é o que se é — e o outro, ao ouvir, sente antes de entender. Porque sentir é a forma mais antiga de compreender.
Fernando Pessoa escreveu: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.” Talvez o mesmo se aplique à palavra. O valor do que se diz não está na quantidade, mas na intensidade de quem diz. Uma frase pode mudar o destino de alguém, se dita na frequência exata do encontro.
Há uma energia que antecede toda fala. É nela que habita o mistério da autoridade. Aristóteles falava de ethos, pathos e logos — caráter, emoção e razão. Eu acrescentaria um quarto elemento: a frequência. Porque a comunicação não é só técnica, é estado vibracional. É quando o pensamento encontra o sentimento, e ambos encontram o tom.
Quando uma pessoa fala em desalinho, a comunicação se fragmenta. A voz hesita, o olhar dispersa, a energia não sustenta o conteúdo. O mundo moderno está cheio de barulhos — mas carente de frequência. Muita informação, pouca vibração. Muita fala, pouca presença. A voz perdeu a alma e virou algoritmo.
Mas comunicar, para mim, é um ato sagrado. É traduzir a chave com respeito. É falar com a vibração de quem sabe que toda palavra é um espelho energético com estratégia. E é por isso que eu digo: antes de querer ser ouvido, aprenda a ouvir o próprio som. Descubra o que sua voz está revelando, mesmo quando você acredita estar apenas falando.
Ortega y Gasset dizia que “o homem é ele e suas circunstâncias”. Eu acredito que a comunicação é ela e sua frequência. O mesmo discurso pode iluminar ou apagar, dependendo da vibração de quem o emite. É nesse espaço invisível que mora o poder.
Eu dediquei meses observando isso — nas entrevistas, nos palcos, nas conversas com grandes mentes e corações humanos. E percebi que os comunicadores mais brilhantes não são os que falam mais, mas os que sintonizam melhor. Eles não buscam convencer. Eles ressoam.
Porque comunicar é ressoar. É tocar o outro sem encostar. É fazer da voz uma ponte entre consciências. É alinhar energia e expressão até que o invisível se torne audível. Quando a voz entra na frequência certa, ela não precisa ser alta para ser ouvida — ela simplesmente atravessa.
Só existe comunicação verdadeira quando há presença. E presença é frequência. É o instante em que o corpo, a voz e o espírito respiram juntos. Quando isso acontece, o mundo silencia — e escuta.
Talvez essa seja a verdadeira arte: encontrar o som da própria alma e sustentá-lo diante do ruído do mundo. Porque a comunicação, em sua essência mais pura, não é o que dizemos. É o que vibramos.
E quando essa vibração se alinha, não há resistência que impeça a mensagem de chegar.
Afinal, como diria Sócrates, “as palavras são apenas a sombra dos atos”.
Mas a frequência… ah, a frequência é a luz em um belo tabuleiro de xadrez


