A ironia da liberdade
Esses dias, escutando uma música da cantora Lana Del Rey chamada “Brooklyn Baby”, percebi que ela canta como quem ironiza a própria liberdade. Em um verso, diz: “Meu namorado está em uma banda. Ele toca guitarra enquanto eu canto Lou Reed. Eu desço para poesia beat.” A voz dela soa como de alguém que vive entre dois tempos: o da contracultura e o do consumo de suas ruínas. É uma mulher do século XXI encarnando o espírito Beat dos anos 50, mas sob o peso da nostalgia e de uma certa dose de caricatura. Ela sabe que pertence a uma geração que não criou a rebeldia, mas que ajudou a torná-la mais estética. E justamente por se apresentar dessa maneira, há algo muito autêntico nesse gesto: ele é autoconsciente.
O desejo de viver a palavra
Por detrás do verniz vintage e da ironia pop existe, nessa música, o mesmo impulso que moveu os poetas Beats e, décadas depois, os poetas marginais brasileiros: o desejo de viver a palavra, não apenas escrevê-la no papel; o desejo de fazer da arte um modo de existir e não uma carreira. Digamos que eles vestiam a sua poesia.
A Beat Generation nasceu nos Estados Unidos, no pós-guerra. Poetas como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs e Gregory Corso possuíam uma curiosa conexão multipolar entre jazz, espiritualidade oriental, drogas e rebeldia, fluente através de uma torrente de palavras improvisadas. Da mesma maneira que um guitarrista improvisa um solo, buscavam um fluxo de vida e não mais o tipo de material exaltado pelo academicismo.
O Uivo (Howl), de Ginsberg, por exemplo, foi um grito alto contra o puritanismo e a hipocrisia americana. Poesia inflamada, um tom que não demoraria a aparecer nas músicas de artistas como Bob Dylan, Jim Morrison, David Bowie e muitos outros.
Poesia Marginal no Brasil
Enquanto isso, em terras tupiniquins, a repressão moral do regime militar e de uma certa carência cultural deram uma resposta parecida, embora com sotaque e ritmos próprios. A Poesia Marginal dos anos 70 surgiu com o mesmo espírito “faça você mesmo”. Os poetas utilizavam mimeógrafos ao invés de editoras e preferiam os bares às livrarias. Ana Cristina César, Chacal, Cacaso, Torquato Neto e Paulo Leminski escreviam da mesma forma que os Beats, de corpo inteiro, oscilando entre amor e deboche, entre o lirismo e o cotidiano. Os poetas Beats tinham o jazz, os nossos marginais inventaram a MPB como a conhecemos hoje.
Tropicalismo
Aí entra o elo fundamental: o Tropicalismo. O movimento, que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e Torquato Neto deflagraram no fim dos anos 60, foi uma tradução brasileira mais sofisticada do impulso Beat, nascida com o intuito de misturar o que é baixo e alto, o erudito e popular, o improviso e o conceito, a música e a vida de fato.
Quando os Mutantes cantam a música “Panis et Circensis”, sobre uma mesa farta onde ninguém nota o rapaz caído no chão, o que está em jogo é a denúncia do conformismo — a mesma crítica que Ginsberg fazia em Howl, com uma dose de sarcasmo colorido brasileiro. Os Beats fugiam de uma América cinzenta; os tropicalistas riam de um Brasil maquiado. Ambos utilizavam o humor como a maior arma de lucidez.
“Panis et Circensis” é o espelho invertido de “Brooklyn Baby”. Em Lana Del Rey, a canção fala sobre liberdade vendida como performance; nos Mutantes, existe a crítica à alienação mascarada de festa. Nas duas obras há um mesmo contexto: a vida como espetáculo, a dificuldade de ser livre em um mundo que se transforma o tempo todo, cujo nada foge da sua metamorfose — inclusive a rebeldia, que se torna mercadoria.
Torquato Neto, parceiro de Gil e um dos letristas de “Tropicália ou Panis et Circensis”, talvez seja o ponto mais direto de contato entre o espírito Beat e o marginal. Poeta, músico e agitador cultural, ele escreveu como quem não sabia onde termina o poema e começa o grito. Torquato morreu jovem, como muitos Beats, e deixou um rastro de intensidade. Sua frase “viva a bagaceira” sintetiza toda uma estética: o direito ao erro, ao improviso, à espontaneidade.
No fundo, tanto os Beats quanto os marginais buscavam o mesmo: um modo de viver em movimento, sem roteiro fixo, dançando conforme o ritmo da própria respiração. E aí Lana Del Rey faz mais sentido que nunca: sua “Brooklyn Baby” talvez não seja uma Beat autêntica, mas é uma lembrança de que o espírito Beat não morre; ele se recicla, se disfarça e se adapta às linguagens do tempo.
Beat, Marginal e Tropicalismo
A poesia Beat e a poesia Marginal são irmãs de sangue: nasceram da recusa à formatação, da rejeição ao tédio, da vontade de sentir tudo. O improviso é o ponto de contato mais íntimo entre elas e a música. Se há algo que une a poesia Beat e o Tropicalismo à vida de hoje, é a capacidade de dançar em meio ao caos. Os Mutantes mostram a sociedade entorpecida pela festa, Lana mostra o indivíduo entorpecido pela própria imagem. Mas entre um e outro, o gesto poético continua sendo resistência: criar, compor, escrever, cantar, dançar. Tudo isso é uma forma de afirmar: “Eu existo e não aceito silêncio como resposta”.
A vida como improviso
A música e a poesia, em suas formas mais vivas, nascem da fricção entre o desejo e a realidade, entre o que é e o que pode vir a ser. Por isso insisto: a arte não é apenas expressão; é uma forma de sobreviver, é uma maneira de continuar dançando no silêncio do concreto. Quando entendemos essa contrapartida, a vida se torna um eterno improviso, e nos tornamos especialistas em tratar dissonâncias entre notas aleatórias. Desistimos de buscar o compasso perfeito para ouvir o som que está acontecendo de verdade.
Ouça as músicas:


