A Comissão de Mulheres da Federação Nacioonal dos Jornalistas (Fenaj) recebe com profunda preocupação a sequência de crimes recentes que expõem, mais uma vez, a face brutal do machismo estrutural no Brasil. No Rio de Janeiro, João Antonio Miranda Tello Ramos Gonçalves entrou no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e assassinou duas servidoras porque não aceitava ser chefiado por mulheres. Em São Paulo, Douglas Alves da Silva atropelou e arrastou por cerca de um quilômetro uma mulher após receber um simples “não” e discutir em um bar. Dias antes, Thiago Schultz, vulgo Calvo do Campari, agrediu a namorada porque ela se recusou a fazer sexo (tentativa de estupro), ato que reflete o mesmo discurso de misoginia e hierarquia entre homens e mulheres que ele promove publicamente.
Esses casos não são episódios isolados, mas expressões de uma cultura que autoriza a violência e legitima a ideia de que homens têm poder sobre a vida e o corpo das mulheres. E, diante dessa realidade, preocupa-nos ainda mais a forma como parte da imprensa tem noticiado esses crimes: na voz passiva. “Mulheres são mortas”. “Mulher é arrastada”. “Mulher é agredida”. O foco recai sobre o que aconteceu às vítimas, não sobre quem cometeu as violências. Como apontam Niara Oliveira e Vanessa Rodrigues em Histórias de morte matada contadas feito morte morrida, a cobertura jornalística frequentemente apaga os agressores, como se os feminicídios acontecessem por inércia, como se fossem tragédias naturais.
Reforçamos que a imprensa tem papel fundamental na responsabilização social desses crimes. É necessário nomear os agressores, mostrar seus rostos, contextualizar suas ações e evidenciar as estruturas que permitem que homens se sintam autorizados a matar, dominar ou punir mulheres. A narrativa importa — e ela pode salvar vidas ao expor a violência pelo que ela realmente é: uma escolha dos agressores, sustentada por uma cultura que precisa ser desnaturalizada e transformada. A Comissão de Mulheres da Fenaj reafirma seu compromisso com uma cobertura ética, crítica e comprometida com os direitos das mulheres.
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