Em 2025, a parceria agrícola entre China e Brasil entrou em uma nova fase de aprofundamento. A cooperação evoluiu além do comércio tradicional de commodities, passando a abranger uma pauta mais diversificada de produtos, maior compromisso com a sustentabilidade ao longo da cadeia produtiva e avanços relevantes na colaboração em tecnologia agrícola.
Consolidada como um dos pilares do comércio bilateral, especialmente com a China se mantendo como principal destino das exportações agrícolas brasileiras nos últimos cinco anos, a cadeia da carne bovina do Brasil avança agora de forma mais estruturada na agenda da sustentabilidade.
Em dezembro do ano passado, o governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, que estabelece a rastreabilidade total do rebanho por meio da identificação individual com brincos eletrônicos e a criação de um arquivo digital vitalício para cada animal.
Segundo Qian Jingfei, pesquisadora do Instituto de Economia e Desenvolvimento Agrícola da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, a iniciativa contribui diretamente para atender às exigências do mercado chinês. Em julho de 2024, os dois países chegaram a um consenso para alcançar visibilidade total da cadeia de abastecimento por meio de uma plataforma global padronizada de rastreabilidade da carne bovina.
Para Marina Guyot, gerente de Políticas Públicas do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola, a medida representa um passo inicial relevante. Segundo ela, a iniciativa sinaliza vontade política de promover a modernização da pecuária brasileira, com ganhos em desempenho sanitário e potencial socioambiental, além de ampliar o acesso a mercados exigentes.
Nos últimos anos, a abertura do mercado chinês a novos produtos brasileiros impulsionou a diversificação do comércio agrícola bilateral. Além da carne bovina, passaram a ganhar espaço produtos como subprodutos do etanol de milho, gergelim e insumos para bebidas, incluindo café e frutas.
Em maio de 2025, a China autorizou a importação de subprodutos do etanol de milho, conhecidos como DDG e DDGs, amplamente utilizados na alimentação animal. O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, destacou a relevância da decisão, classificando a abertura do mercado chinês para esses produtos como extremamente significativa para o setor agroindustrial brasileiro.
No segmento do gergelim, houve um crescimento expressivo da participação brasileira. Em agosto, o número de empresas do estado de Mato Grosso autorizadas a exportar o produto para a China aumentou de 8 para 20, um avanço de 150%, passando a representar quase um terço do total de empresas brasileiras habilitadas. Com isso, o número total de exportadoras de gergelim para o mercado chinês no Brasil quase dobrou, saltando de 31 para 61.
Na indústria do café, as importações chinesas de grãos brasileiros seguem em trajetória de crescimento. Em novembro de 2024, a rede chinesa Luckin Coffee firmou um memorando para adquirir 240 mil toneladas de café brasileiro ao longo de cinco anos, em um contrato avaliado em cerca de US$ 1,42 bilhão. A empresa avalia que o consumo de café na China ainda se encontra em uma fase de rápida expansão, com amplo potencial de crescimento nos próximos anos.
Em maio de 2025, o grupo chinês Mixue, atuante nos setores de sorvetes e bebidas à base de chá, assinou um memorando com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). O acordo prevê investimentos e aquisições no Brasil, entre três e cinco anos, envolvendo produtos como grãos de café e frutas, em um valor não inferior a US$ 569 milhões. A empresa também anunciou a abertura de sua primeira unidade em São Paulo e o início da construção de uma fábrica voltada à cadeia de suprimentos, com o objetivo de estabelecer um ciclo produtivo local integrado.
Além do crescimento comercial, a cooperação sino-brasileira avança no intercâmbio cultural. Em celebração ao Ano da Cultura China-Brasil, iniciativas conjuntas promoveram o Festival da Cultura do Café do Brasil 2.0 na China, com projetos como a criação de um Museu do Café Brasileiro, salões de degustação profissional com campeões mundiais e programas de intercâmbio focados na origem dos grãos. As ações buscam apresentar ao público chinês a história, as técnicas produtivas e os valores culturais do café brasileiro.
Paralelamente, a parceria agrícola se aprofunda na área de inovação tecnológica. Pesquisas lideradas pelo Instituto de Economia e Desenvolvimento Agrícola da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas identificaram a demanda de pequenos agricultores brasileiros por máquinas agrícolas de pequeno e médio porte, com bom custo-benefício e fácil operação, diante de desafios como baixa mecanização e escassez de mão de obra.
Para responder a essas necessidades, a Universidade Agrícola da China, em parceria com instituições brasileiras, criou em novembro de 2024 as Residências de Ciência e Tecnologia China-Brasil sobre Mecanização Agrícola Familiar. A iniciativa vem promovendo, ao longo do último ano, a aplicação prática de máquinas agrícolas e o intercâmbio tecnológico em regiões rurais do Brasil.
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar do Brasil, Paulo Teixeira, avaliou que o projeto traz novas perspectivas para agricultores familiares, ao facilitar o acesso à mecanização e ao conhecimento técnico adaptado às realidades locais.
No âmbito do programa, estudantes chineses têm sido enviados ao Brasil para ajustar parâmetros de equipamentos às variedades de cultivo e às condições regionais, além de capacitar produtores no uso de máquinas agrícolas. O projeto também inclui a implementação de um sistema de gerenciamento agrícola baseado em big data, que permite o monitoramento em tempo real do desenvolvimento das culturas, das condições climáticas e da umidade do solo.
Segundo Yang Minli, professora da Universidade Agrícola da China e especialista do projeto, a combinação entre mecanização e assistência técnica elevou a eficiência da produção de hortaliças em algumas regiões em até sete vezes, além de gerar um aumento significativo na renda das famílias agricultoras.
Para os próximos anos, especialistas avaliam que a cooperação sino-brasileira tem potencial para se consolidar como referência global. Durante eventos ligados à COP30, Adriana Lobo, diretora-geral de Presença Global e Ação Nacional do Instituto de Recursos Mundiais, destacou que China e Brasil compartilham a visão de desenvolver cadeias agrícolas resilientes às mudanças climáticas e de baixo carbono, com capacidade de se tornarem um modelo de cooperação Sul-Sul.


