Puxa uma cadeira e pede um café forte, porque a notícia de hoje é daquelas que fazem a gente questionar se a realidade não é, na verdade, uma performance de arte contemporânea de mau gosto.
Vocês viram essa? Uma obra da nossa gigante Tarsila do Amaral — sim, a mulher que basicamente inventou a ideia de que o Brasil podia ser chique e selvagem ao mesmo tempo — avaliada em módicos R$ 250 milhões, foi encontrada onde? Num museu climatizado? Numa parede de destaque com iluminação de LED?
Não. Ela estava no chão. Debaixo de uma cama. Na casa de um herdeiro.
É isso mesmo. Estamos falando de “Sol Poente”, uma daquelas telas que fazem qualquer curador suar frio de emoção, sendo tratada com a mesma dignidade que a gente dá para aquela caixa de pizza vazia que ficou esquecida depois da festa de sábado.
Isso é de uma poesia trágica fascinante. A gente passa a vida ouvindo críticos de monóculo falarem sobre a “aura da obra de arte”, sobre como a pintura modernista elevou o espírito nacional, blá, blá, blá. E aí vem a realidade e esfrega na nossa cara que, para uma certa elite financeira, arte não é cultura, nem transcendência. É ativo. É cheque ao portador. É, literalmente, algo para se esconder debaixo do colchão junto com a poeira e os segredos de família.
Eu fico imaginando a Tarsila, lá de onde ela estiver, olhando para essa cena. Ela, que pintou o “Abaporu” para engolir a cultura europeia, agora vê sua obra sendo engolida pela bagunça doméstica de quem tem mais zeros na conta bancária do que sensibilidade estética.
Se isso fosse uma instalação na Bienal, algum crítico diria que “simboliza o descaso da burguesia com o patrimônio imaterial”. Mas como é vida real, é só triste mesmo — e, vamos admitir, um pouco engraçado.
A lição de hoje, meus caros, é simples: não adianta ter um Tarsila de R$ 250 milhões se a sua atitude com a arte vale menos que um pôster de promoção de supermercado. No fim das contas, a obra sobreviveu ao chão. Já a reputação de quem a colocou lá… bom, essa aí precisa de um restauro urgente.


