Na noite de 30 de dezembro de 2025, moradores e turistas se reuniram na Praia Vermelha, na Urca, zona sul do Rio de Janeiro, para participar do ritual em homenagem a Iemanjá, orixá das águas nas religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé. A cerimônia, chamada de “Presente de Iemanjá”, permitiu que os fiéis agradecessem conquistas do ano e pedissem bênçãos para 2026.
Entre os participantes estava Ana Beatriz de Oliveira, 23 anos, que trouxe rosas amarelas como oferenda à entidade. “Vim agradecer pelo ano, especialmente por ter conseguido me formar em arquitetura e conseguir emprego no último escritório onde estagiei”, contou. Já Washington Bueno, 58 anos, cabeleireiro e maquiador, levou palmas brancas para pedir trabalho, saúde, amor e mais respeito às mulheres, refletindo sobre a violência de gênero em 2025.
As oferendas, incluindo flores, cartas, perfumes e champanhe, eram colocadas em um barco azul e branco de cerca de dois metros de comprimento, decorado com a imagem de Iemanjá. O ritual, organizado pela Associação Umbanda e Cultos Afros (Auca), contou com apoio da Prefeitura do Rio, por meio da Coordenadoria da Diversidade Religiosa, que forneceu suporte logístico e segurança para a celebração.
Palco gospel e debate sobre representatividade
Apesar do incentivo municipal aos eventos de matriz africana, líderes da Umbanda questionaram a presença de um palco dedicado exclusivamente à música evangélica na Praia de Copacabana durante o réveillon de 31 de dezembro. Segundo o babalawô Ivanir dos Santos, pesquisador e doutor em História Comparada pela UFRJ, a ausência de um espaço semelhante para músicas de terreiros representa um “apagamento” das tradições religiosas afro-brasileiras e culturais que remontam à década de 1950, quando os festejos na praia já incluíam oferendas a Iemanjá.
“Não se trata de ser contra o palco gospel, mas de por que essa exclusividade? Católicos, muçulmanos, budistas e povos do Candomblé e da Umbanda também produzem música religiosa para seus ritos”, afirmou Santos, ressaltando que a imposição de uma cultura espiritual hegemônica pode diminuir a visibilidade de outras formas de crença.
Em resposta, o prefeito Eduardo Paes defendeu a iniciativa, afirmando que a cidade deve oferecer espaço a todos os públicos. “Há uma parcela significativa da população que gosta de música gospel e quer — e pode — ter seu espaço. Esse público vai conviver com pessoas fazendo oferendas a Iemanjá. Isso é o sincretismo religioso do Brasil e da nossa cidade”, declarou.
O evento evidencia, mais uma vez, a diversidade cultural e religiosa do Rio de Janeiro, onde rituais afro-brasileiros coexistem com manifestações de outros credos, celebrando a virada do ano de forma plural e sincrética.

