Recém-disponível no streaming, a animação “Eu e meu avô nihonjin” (Brasil, 2025, 85 min.) é um espetáculo de cores e imagens sobre a história da imigração japonesa no Brasil. Mas não espere um filme institucional ou imbuído de didatismo, desses produtos ditos “oficiais” que costumam passar em canais educativos. Ao contrário, o longa-metragem dirigido por Célia Catunda é leve, divertido e muito bonito.
Baseada no premiado romance “Nihonjin”, do escritor maringaense Oscar Nakasato, a produção da Pinguim Content (com realização do Ministério da Cultura) põe em primeiro plano a família de imigrantes japoneses de Noboru, um menino brasileiro de 10 anos. Na São Paulo dos anos de 1980, o jovem precisa fazer um trabalho escolar sobre seus antecedentes familiares. Para essa tarefa, ele se vê obrigado a conversar com seu avô Hideo (o “ojichan” da cultura nipônica), que tem um temperamento mais fechado e fala pouco, a fim de saber mais sobre o passado.
Nesses encontros diários, Noboru descobre que o avô veio para o Brasil nos anos de 1920, após viajar durante dois meses em um navio que saiu do Porto de Kobe (Japão). Em terras brasileiras, o “ojichan” passou a trabalhar numa fazenda de café junto de sua então esposa. Era um regime pesado, em condições insalubres, cuja mão de obra era explorada pelos donos do local, pagando muito mal pelo trabalho no campo.
Depois, Hideo se casaria com aquela que se tornaria avó do Noboru. O então jovem casal teve três filhos no novo país, sendo que um deles seria a mãe do menino. Mas havia um tio (Haru) desconhecido nessa história toda. Era um personagem que, quando criança, contestou a rigidez nipônica de seu pai na preservação da cultura trazida do país do Sol Nascente. Em resumo, Haru queria ser brasileiro (havia nascido no Brasil) e não “nihonjin” (“japonês”) como Hideo pregava.
A narrativa não para nesses assuntos, pois haverá desdobramentos com mudanças territoriais para essa família de imigrantes. No entanto, contar mais do que isso é dar “spoilers” desnecessários.
O que importa saber é o interessante debate proposto pelo filme de Catunda a respeito de ancestralidade. Noboru conhece pouco da cultura nipônica de seus antepassados e, ao mesmo tempo, sofre preconceito na escola por ser descendente. Ele é chamado, por exemplo, de “japa” ou “japonês”. Isto o incomoda.
Há também um processo de estabelecimento de relação afetuosa com seu avô, que era muito fechado e ranzinza aos olhos do neto. O menino consegue quebrar o gelo com seu “ojichan” e tem curiosidade em saber mais da cultura japonesa.
Ao final da narrativa, neto e avô conseguem se entender e estabelecer um relacionamento mais próximo e aberto. Tanto um quanto outro crescem ao longo do filme.
Oscar Oiwa
Todo o longa-metragem de Célia Catunda (com roteiro de Rita Catunda) é contado por meio de cores vivas e metáforas visuais. É fruto do trabalho de cenários e direção de arte criado a partir da obra de Oscar Oiwa, que é um pintor, escultor, designer de móveis e joias.
Em um dos cenários, Noboru é mostrado em seu quarto, que é muito semelhante à pintura “The bed inside of bed” (2013), de Oiwa.
Além da direção de arte, a trilha sonora é assinada por André Abujamra e Marcio Nigro. Os protagonistas ganharam vida nas vozes de Ken Kaneko — renomado ator japonês naturalizado brasileiro — e do jovem talento, descendente de japoneses, Pietro Takeda.
Cinema
Em 2025, “Eu e meu avô nihonjin” chegou às salas de cinema em 16 de outubro, com direito a exibição em Maringá. Em uma das sessões, o escritor e professor universitário Oscar Nakasato foi visto prestigiando a adaptação de seu livro.
Antes de chegar ao circuito exibidor, essa animação teve estreia mundial no Festival de Annecy, o maior evento de animação do mundo, que acontece anualmente na França. Aliás, o filme conta com uma vasta carreira internacional, tendo participado de programas de mentoria como o Mifa Campus International (França, 2022) e o Mianima (Espanha, 2023), da sessão “Work in Progress” no festival de Cannes, dentro do Ventana Goes to Cannes, além de pitchings como Ventana Sur Pitching Sessions, Cinekid e Mianima.
A produtora também esteve presente no Marché du Film, grande encontro do mercado audiovisual que ocorreu durante o Festival de Cannes, onde foi apresentado para o mercado internacional.

Livro
Vencedor do Prêmio Jabuti em 2012, “Nihonjin”, de Oscar Nakasato, ganhou uma nova edição no ano passado pela Fósforo. Inclusive, ocorreu o lançamento do livro na Livrarias Curitiba do Shopping Maringá Park em 2025, com a presença do autor.
A narrativa trata de uma saga familiar contada a partir da vida de Hideo Inabata, um imigrante orgulhoso da própria nacionalidade que, como tantos conterrâneos, aporta no Brasil no início do século 20 para trabalhar nas lavouras de café do interior de São Paulo.
Quando foi publicado pela primeira vez, em 2011, o romance logo conquistou a crítica, angariando os prêmios Benvirá (2011), Nikkei — Bunkyo de São Paulo (2011) e Jabuti (2012) na categoria romance.
Nakasato nasceu em Maringá, em 1963. Doutor em literatura brasileira, é professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná e autor da tese “Imagens da integração e da dualidade: personagens nipo-brasileiros na ficção” (Blucher, 2010) e do romance “Ojiichan” (Fósforo, 2024). Foi colaborador do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, com resenhas críticas acerca da literatura japonesa.

Streaming
“Eu e meu avô nihonjin” está disponível nos serviços de streaming da Amazon Prime Video, Apple TV, Vivo Play, Google Play Filmes e Tv e Claro TV.
Ficha Técnica
Direção: Célia Catunda
Roteiro: Rita Catunda
Baseado no livro “Nihonjin”, de Oscar Nakasato
Produção Executiva: Kiko Mistrorigo e Ricardo Rozzino
Cenários Inspirados na obra de Oscar Oiwa
Storyboard: Genoviz Pagani, Vagner Farias
Direção de Animação: Vagner Farias
Música: André Abujamra e Marcio Nigro
Som: Pedro Lima
Vozes: Ken Kaneko, Pietro Takeda
Realização: Pinguim Content e Ministério da Cultura (MinC)








