Morreu nesta terça-feira, 28, o cirurgião Silvano Raia, que, além de realizar o primeiro transplante de fígado com doador cadáver da América Latina, foi o autor e executor do primeiro transplante de fígado com doador vivo do mundo. Ele tinha 95 anos e morreu em decorrência de problemas pulmonares.
A morte do médico Silvano Mário Attílio Raia foi assunto na imprensa de vários países, inclusive em sites dos maiores jornais do mundo e de revistas científicas, nesta terça-feira.
Além de cirurgião com trabalho respeitado por cientistas de todo o mundo, Raia foi professor e ex-diretor da Faculdade de Medicina (FM) da USP. No final de março deste ano, um projeto liderado por Raia, em conjunto com os professores Mayana Zatz e Jorge Kalil, ambos da USP, celebrou o nascimento do primeiro porco clonado no Brasil e na América Latina. O animal, gerado em Piracicaba, no estado de São Paulo, integra as pesquisas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante, apoiado pela Fapesp, que busca criar suínos geneticamente modificados para fornecer órgãos a humanos sem provocar rejeição imunológica.
Formado em medicina pela USP em 1956, com doutorado pela Universidade de Londres em 1966, Silvano Raia foi professor titular na FMUSP e exerceu o cargo de diretor entre 1982 e 1986. Com especializações no exterior e atuação em instituições de renome como a Universidade de Cambridge, ele dedicou sua vida ao avanço da cirurgia hepática.
Seu legado se estende também à gestão e ao ensino, enquanto responsável por formar a maioria dos cirurgiões transplantadores de fígado do Brasil. Como criador da Unidade de Fígado do Hospital das Clínicas da FMUSP, Secretário Municipal da Saúde de São Paulo e coordenador do Ministério da Saúde para a expansão da rede nacional de transplantes, o professor é parte da história da saúde pública brasileira.
Em 2024, aos 93 anos, o docente teve sua vida e carreira celebradas em uma entrevista para o programa Universidade 93,7, da Rádio USP. O episódio o homenageou como um dos profissionais mais importantes da medicina brasileira e mundial. No programa, Raia contou detalhes sobre sua formação na USP e sua predileção, já no terceiro ano da faculdade, pela vocação cirúrgica.
Além disso, em 2025, o médico lançou o livro O impossível é apenas o começo, pela editora Labrador. Na obra, ele relatou sua vida e trajetória profissional que, nos últimos anos, se voltou para o desenvolvimento dos xenotransplantes no Brasil. A prática consiste no transplante de órgãos, tecidos ou células entre espécies diferentes, sendo atualmente uma das áreas de pesquisa mais promissoras para solucionar as filas de espera e a escassez global de órgãos para transplante.
“O professor Silvano deixou um enorme legado. Além do pioneirismo internacional no transplante de fígado, ele foi o idealizador e coordenador do projeto brasileiro de xenotransplantes”, destaca a professora Mayana. “Quando ele nos procurou, no Centro do Genoma, há seis anos propondo esse projeto, isso parecia um sonho futurístico. Mas ele era um visionário e por sorte acreditamos nele. Hoje o xenotransplante já é uma realidade com pacientes recebendo, nos Estados Unidos, transplante de rim de suínos geneticamente modificados. E aqui ele pôde testemunhar o nascimento recente do primeiro porquinho clonado. Perdemos um grande cientista, um grande líder e um grande ser humano, mas o seu legado continua. Um homem é eterno quando sua obra continua”.
Silvano Raia e a formação de gerações
Ao longo de sua carreira, Raia publicou 106 trabalhos no Brasil e 47 no exterior, além de contribuir com capítulos em livros.
O professor, além disso, orientou 12 dissertações de mestrado, 13 teses de doutorado e três trabalhos de livre-docência.
“Sua atuação foi decisiva para a formação de gerações de médicos e para o avanço da ciência, sempre pautada pela inovação, pelo rigor acadêmico e pelo compromisso com a vida”, enfatiza a FMUSP.
(Com informações de Denis Pacheco do Jornal da USP)
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