Levar vacinas até comunidades indígenas em regiões remotas da Amazônia exige muito mais do que estrutura de saúde. Profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam desafios de deslocamento, armazenamento e diálogo cultural para garantir a imunização de milhares de indígenas em áreas de difícil acesso.
No Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, que atende territórios no Acre, Amazonas e Rondônia, equipes percorrem aldeias isoladas por rios, estradas precárias e até rotas aéreas para manter a vacinação em dia.
Região reúne 155 aldeias e milhares de indígenas
O DSEI Alto Rio Purus atende cerca de 11 mil indígenas de diferentes povos, entre eles Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá, Huni Kuin, Madiha, Kulina e Manchineri.
As 155 aldeias da região possuem populações pequenas, variando entre 30 e 300 moradores, além de diferenças linguísticas e culturais que exigem estratégias específicas de atendimento.
Dependendo das condições climáticas e da localização das comunidades, as equipes de saúde precisam utilizar caminhonetes, barcos, quadriciclos, botes ou até helicópteros para chegar aos territórios.
Respeito às tradições é essencial para o atendimento
Além dos desafios geográficos, os profissionais precisam compreender a organização social e cultural de cada povo indígena.
Segundo o coordenador do DSEI, Evangelista Apurinã, o diálogo com lideranças tradicionais é fundamental para que as ações de saúde sejam aceitas pelas comunidades.
Em algumas etnias, decisões coletivas dependem da aprovação de determinados clãs ou caciques. Já em outros povos, o tempo de permanência em reuniões e atendimentos é limitado por hábitos culturais próprios.
Para os profissionais, compreender essas particularidades é decisivo para garantir o sucesso das campanhas de vacinação.
Equipes passam até 40 dias em trabalho itinerante
Como não é possível manter unidades fixas de saúde em todas as aldeias, o atendimento ocorre por meio de polos-base espalhados pela região.
A partir desses pontos, equipes multidisciplinares percorrem as comunidades em missões itinerantes que podem durar até 40 dias.
Durante as expedições, os profissionais realizam vacinação, consultas, acompanhamento de crianças e monitoramento de doenças.
Conservação das vacinas é um dos maiores desafios
A logística de armazenamento das doses é considerada uma das etapas mais delicadas da operação.
As vacinas precisam permanecer em temperaturas entre 2°C e 8°C durante todo o transporte para manter a eficácia.
Para isso, são utilizados freezers em embarcações, caixas térmicas especiais e bobinas de gelo que ajudam a preservar os imunizantes mesmo em trajetos longos e sob temperaturas elevadas da região amazônica.
Planejamento detalhado garante aplicação correta das doses
A responsável técnica pela área de imunizações do DSEI Alto Rio Purus, enfermeira Kislane de Araújo Dias, explica que o planejamento é feito a partir de um censo vacinal atualizado das famílias indígenas.
Com base nesses dados, as equipes sabem exatamente quais vacinas serão necessárias em cada aldeia e quantas doses devem ser transportadas.
O atendimento costuma ocorrer em locais centrais das comunidades, mas os profissionais também realizam busca ativa nas residências para localizar pessoas que ainda não foram imunizadas.
Capacitação é fundamental para atuação em áreas remotas
A enfermeira Evelin Plácido, especialista em imunização em territórios indígenas, destaca que atuar nessas regiões exige preparo técnico e organização rigorosa.
Segundo ela, diferentemente das cidades, onde as pessoas se deslocam até os postos de saúde, nas aldeias é a vacinação que precisa chegar até a população.
Por isso, o planejamento das rotas, do tempo de deslocamento e das condições de armazenamento precisa ser extremamente preciso para evitar perdas de vacinas e garantir a segurança da imunização.
Vacinação fortalece proteção de comunidades vulneráveis
Mesmo diante das dificuldades, as campanhas de vacinação seguem sendo uma das principais ferramentas de prevenção de doenças entre populações indígenas.
O trabalho das equipes de saúde contribui para ampliar a proteção de comunidades que vivem em regiões isoladas e que, historicamente, enfrentam maior vulnerabilidade sanitária.

