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Crônica do futebol: No fim, vai dar karaokê

Por Redação O Maringá
29 de junho de 2026
No final vai dar karaokê - crônica do futebol de Eduardo Pandeló

Eduardo Pandeló é Chefe de Gabinete na Câmara Municipal de São José dos Campos Foto: Redes sociais

Eduardo Pandeló
antes de Brasil X Japão

 

Confesso uma coisa.
Nunca consigo torcer contra o Japão.

Torço pelo Brasil. Sempre.
Mas torcer contra o Japão parece quase uma falta de educação.

Talvez porque, há 118 anos, eles desembarcaram por aqui trazendo muito mais do que malas.
Trouxeram disciplina.
Respeito.
Trabalho.
Silêncio.
E uma capacidade quase sobrenatural de transformar pequenos gestos em grandes exemplos.

Em troca, nós lhes oferecemos aquilo que sabemos fazer melhor.
Abraços.
Feijoada.
Carnaval.
Futebol.
E, naturalmente, um bom churrasco que começa ao meio-dia e termina quando o último resolve cantar.

Karaokê vem do japonês: kara, vazio; oke, orquestra. E no Brasil virou sinônimo de família, amizade e desafinação feliz. 🎶
Os japoneses nos ensinaram o Judô.
Graças ao mestre Mitsuyo Maeda, o Brasil descobriu uma filosofia inteira escondida dentro de um tatame.
Não por acaso, o Judô tornou-se o esporte que mais medalhas olímpicas deu ao nosso país.

Nós, em compensação, ensinamos um pouco de futebol.
Ou melhor…
Tentamos ensinar.
Porque os alunos aprenderam rápido demais.

Basta olhar para esta Copa do Mundo.
A velocidade impressiona.
A disciplina assusta.
A organização parece saída de uma fábrica da Toyota.
E, para piorar nossa ansiedade, ainda existe aquele amistoso de 2025.

O Brasil abriu dois gols de vantagem.
O Japão virou.
Foi a primeira vitória japonesa sobre a Seleção Brasileira.
E nós descobrimos que nem toda tecnologia vem dentro de um automóvel.
Algumas vestem chuteiras.

Mas existe um brasileiro que talvez seja mais culpado do que todos nós por esse crescimento japonês.
Arthur Antunes Coimbra.
O mundo o conhece como Zico.
No Japão, porém, isso não basta.
Lá ele é quase uma entidade espiritual.
O Galinho de Quintino transformou-se num mestre.
Treinou a seleção japonesa.
Plantou ideias.
Inspirou gerações.
Há quem diga que o Japão aprendeu a jogar futebol com muitos professores.
Mas poucos tiveram a importância do velho camisa 10 da Gávea.
Aliás, desde criança convivemos com essa estranha e maravilhosa mistura entre Brasil e Japão.
Quem não se lembra daquele velho comercial da Semp Toshiba?

*”Nossos japoneses são mais criativos que os outros.”*

Era propaganda de televisão, mas acabou virando um retrato bem-humorado da amizade entre os dois países.
Afinal, os japoneses do Brasil nunca foram “os outros”.
Sempre foram os nossos.
Nossos vizinhos.
Nossos professores.
Nossos médicos.
Nossos agricultores.
Nossos empresários.
Nossos colegas de escola.
Nossos amigos.

E talvez por isso seja tão difícil enxergar este confronto apenas como um jogo de futebol.
É quase uma reunião de família.
E como se não bastasse, o futebol ainda resolveu cruzar meu caminho com outro japonês muito brasileiro.
Meu amigo Joe Hirata.

Foi trabalhar como dekassegui.
Passou anos numa linha de produção.
Entre um turno e outro escreveu uma música para sua mãe.
Demorou dez anos para conseguir gravá-la.
Hoje “Lembranças” emociona brasileiros e japoneses da mesma maneira.
Joe venceu o maior concurso amador da televisão japonesa.
Foi o primeiro estrangeiro campeão da história da NHK.
Mas a maior vitória talvez tenha sido outra.
Descobrir que podia ser japonês sem deixar de ser brasileiro.
Ou brasileiro sem deixar de honrar suas raízes japonesas.

Talvez seja exatamente isso que veremos em campo.
Dois povos separados por quase dezoito mil quilômetros.
Mas curiosamente próximos.
Há sobrenomes japoneses em nossas escolas.
Há jogadores brasileiros nos clubes japoneses.
Há restaurantes japoneses em praticamente todas as cidades brasileiras.
Há brasileiros morando no Japão.
Há japoneses que aprenderam português.
Há brasileiros que aprenderam japonês.

E como a minha família, (já que meu Tio Juca casou-se com Meire uma japonesa que me deu três primos misturando a mineirice aos traços orientais), há milhares de famílias como a nossa que já nem conseguem explicar onde termina uma cultura e começa a outra.

Na segunda-feira haverá noventa minutos de guerra.
Esportiva, evidentemente.
Os samurais tentarão cortar nossos sonhos.
Nós tentaremos driblar sua disciplina.
Eles confiarão na organização.
Nós continuaremos acreditando que um drible genial ainda pode derrotar um algoritmo.

Alguém vai vencer.
Alguém vai voltar para casa.
Assim é a Copa do Mundo.

Mas tenho absoluta certeza de uma coisa.

Quando o árbitro apitar o fim da partida…
…não importa quem avance.
Não importa quem chore.
Não importa quem comemore.
No final da noite alguém vai ligar um aparelho de karaokê.

Um japonês cantará Roberto Carlos.
Um brasileiro tentará cantar em japonês.
Alguém pedirá “Lembranças”, de Joe Hirata.
Outro responderá com “Evidências”.
E haverá quem, entre uma música e outra, recorde sorrindo aquele velho comercial da Semp Toshiba:

*”Nossos japoneses são mais criativos que os outros.”*

Talvez porque nunca tenha sido apenas propaganda.
Era uma declaração de carinho.

Porque, no fundo, Brasil e Japão descobriram há muito tempo que a melhor rivalidade é aquela que termina em aplausos.
No futebol existe vencedor e vencido.
No karaokê, não.
Ali todos desafinam juntos.

E talvez essa seja a maior vitória de todas.

*”domo arigato” (どうも ありがとう) — Eduardo Pandeló

Tags: crônica do futebolDestaqueEduardo PandelóNo fimvai dar karaokê

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