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Nepal reforça alerta para novos desastres e especialistas defendem monitoramento integrado

Por Agência Brasil
9 de setembro de 2026

A permanência das chuvas nas áreas montanhosas do Nepal mantém o alerta para a possibilidade de novos deslizamentos, inundações e avalanches após o desastre registrado em 26 de agosto. Especialistas defendem que geleiras, encostas e rios sejam acompanhados de maneira integrada para reduzir os riscos de novos eventos.

O Centro Internacional de Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD) aponta que as condições da região de Kiyrong-Rasuwa sofreram alterações significativas após o colapso de uma geleira no pico Langtang Lirung.

Colapso da geleira alterou a paisagem

O desastre provocou mudanças na criosfera, conjunto de áreas da Terra onde existe gelo. Entre as consequências estão a formação de lagos em regiões elevadas e possíveis alterações em outras geleiras próximas.

O deslocamento de grandes quantidades de rochas, gelo, lama e sedimentos também modificou o vale do rio Lhende Khola. Materiais que estavam em altitudes próximas de 5 mil metros foram transportados para áreas situadas por volta dos 2 mil metros.

O resultado foi a formação de uma extensa área coberta por lama e detritos, atingindo regiões próximas a comunidades e cursos d’água.

Especialistas alertam para novos riscos

O pesquisador Sher Muhammad, especialista em monitoramento do ICIMOD, afirma que imagens de satélite já permitiram reconstruir preliminarmente a origem e o percurso da avalanche.

Segundo ele, o cenário apresenta algumas características semelhantes às observadas no desastre de Chamoli, ocorrido em 2021 na região indiana do Himalaia. Naquele episódio, o colapso envolvendo gelo e rochas desencadeou uma grande inundação.

Apesar das semelhanças, Muhammad ressalta que os dados ainda precisam ser confirmados antes de uma comparação definitiva entre os dois acontecimentos. A hipótese mais aceita até o momento é de que tenha ocorrido um rompimento associado à conexão entre a geleira e a rocha.

Derretimento pode afetar a estabilidade das montanhas

O especialista Jefferson Simões, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT Criosfera) e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que condições climáticas adversas podem contribuir para a perda de estabilidade entre geleiras e as rochas que as sustentam.

Com a presença de água e mudanças na estrutura do gelo e das encostas, podem ocorrer rupturas capazes de mobilizar grandes volumes de material.

Eventos desse tipo são conhecidos em regiões montanhosas com encostas muito inclinadas. O risco aumenta quando áreas habitadas estão próximas dos vales de origem glacial.

Um exemplo histórico ocorreu em Yungay, no Peru, onde um desastre associado a uma avalanche provocou cerca de 20 mil mortes.

Lagos glaciais exigem atenção

Outro fator de preocupação é o acúmulo de água diante das geleiras.

O gelo transporta sedimentos que podem formar barreiras naturais e permitir o surgimento de lagos. Quando uma grande massa de gelo e rocha atinge esse reservatório, a barreira pode não suportar a pressão, provocando o escoamento repentino da água e dos sedimentos.

Na região de Rasuwa, autoridades nepalesas mantêm atualmente dois lagos glaciais sob monitoramento. Os reservatórios são recentes e chegaram a apresentar risco de extravasamento cerca de uma semana antes da avaliação.

Aquecimento global não explica sozinho o desastre

Embora o aquecimento global esteja modificando as condições das geleiras do Himalaia, os especialistas afirmam que ainda não existem elementos suficientes para apontar o fenômeno como causa direta e exclusiva do colapso ocorrido em Rasuwa.

Muhammad destaca que o aumento das temperaturas afeta o gelo em diferentes áreas do Himalaia e pode alterar a estabilidade das montanhas. A infiltração de água em fraturas de rochas e gelo também pode contribuir para mudanças estruturais.

No entanto, segundo o pesquisador, é necessário analisar outros fatores antes de estabelecer uma relação causal direta entre as mudanças climáticas e o desastre.

Monitoramento precisa integrar geleiras, encostas e rios

Para os especialistas, uma das principais lições do episódio é a necessidade de ampliar os sistemas de prevenção.

O acompanhamento por satélite pode identificar geleiras e encostas potencialmente instáveis. Nos pontos considerados críticos, o monitoramento pode ser reforçado com câmeras, sensores sísmicos, instrumentos de campo e equipamentos destinados a acompanhar o comportamento dos rios.

Esses dados devem estar conectados aos sistemas de alerta e às estratégias de evacuação das populações que vivem em áreas de risco.

A avaliação conjunta permite observar como uma alteração em uma geleira pode afetar encostas, rios, lagos e comunidades localizadas em áreas mais baixas.

A principal conclusão dos especialistas é que geleiras, encostas e rios não devem mais ser analisados como elementos isolados, mas como partes de um único sistema de risco, especialmente em regiões montanhosas sujeitas a mudanças rápidas nas condições ambientais.

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