A ideia de que a economia chinesa estaria produzindo além da capacidade de absorção dos mercados é contestada pelo professor de Economia Política Marcos Cordeiro Pires, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em artigo de opinião, o pesquisador argumenta que previsões recorrentes sobre uma iminente crise estrutural da China não se confirmaram e avalia que o atual debate sobre o chamado “excesso de capacidade” ignora mudanças importantes na produtividade e na estrutura industrial do país.
Segundo Pires, há décadas análises internacionais projetam diferentes tipos de crises para a economia chinesa. Entre os cenários citados estão problemas cambiais, dificuldades no sistema bancário, colapso do setor imobiliário e até uma possível ruptura política provocada por transformações sociais.
O professor afirma que previsões semelhantes também questionaram a capacidade da China de avançar em ciência, tecnologia e inovação em razão das características de seu modelo econômico. Na avaliação apresentada no artigo, porém, a evolução das últimas décadas não confirmou esses prognósticos.
Crise imobiliária não produziu colapso global
Pires menciona como exemplo a crise envolvendo a incorporadora Evergrande. Antes do agravamento da situação da empresa, havia avaliações de que seus problemas poderiam provocar consequências muito mais amplas para a economia chinesa e até para o sistema financeiro mundial.
Para o professor, o impacto acabou sendo diferente do cenário mais extremo projetado por parte das análises internacionais. Ele argumenta que o governo chinês possui instrumentos para administrar os ciclos econômicos e lidar com desequilíbrios de maneira diferente das economias que seguem uma abordagem mais próxima dos princípios neoliberais.
O autor também considera que crises são parte do funcionamento das economias de mercado e que sua dimensão depende, entre outros fatores, da capacidade de gestão e das políticas adotadas para enfrentá-las.
Excesso de capacidade é colocado em debate
O novo foco da discussão, segundo Pires, está na expansão da capacidade produtiva chinesa. Ele cita uma análise publicada pela revista Foreign Affairs que associa o crescimento industrial da China a uma possível saturação dos mercados doméstico e internacional.
A interpretação apresentada no artigo é que o aumento da produção chinesa em diferentes segmentos, incluindo setores de alta, média e baixa tecnologia, poderia gerar desequilíbrios com consequências para a economia mundial.
Pires discorda dessa leitura. Para ele, o conceito de excesso de capacidade não considera adequadamente os ganhos de produtividade obtidos pela indústria chinesa e tampouco leva em conta os efeitos das medidas protecionistas adotadas pelas maiores economias.
O professor também questiona o contraste entre as críticas atuais à indústria chinesa e a defesa histórica do livre comércio feita por veículos econômicos ocidentais. Na visão apresentada, a postura teria mudado justamente em um momento em que empresas chinesas passaram a conquistar maior competitividade internacional em áreas de tecnologia e manufatura.
Indústria chinesa amplia presença em setores tecnológicos
O artigo destaca a presença da China em segmentos como veículos, equipamentos para geração de energia, telecomunicações, construção naval, robótica, siderurgia e indústria química.
Na avaliação de Pires, parte da competitividade chinesa resulta da combinação de um amplo mercado interno, utilização intensiva de tecnologia e produção em grande escala. Esses fatores permitiriam às empresas reduzir custos e acelerar a incorporação de inovações.
O setor automobilístico é apresentado como exemplo dessa transformação. O autor cita dados segundo os quais a China produziu aproximadamente 34,53 milhões de veículos em 2025, mantendo uma ampla liderança mundial.
Uma parcela dessa produção foi destinada ao mercado externo, especialmente em segmentos relacionados aos veículos elétricos e híbridos. O avanço dos chamados veículos de novas energias é apontado como um dos sinais da mudança estrutural da indústria chinesa.
China ganha espaço no mercado automobilístico
Pires compara ainda a participação das exportações na produção automotiva chinesa com os números de Japão e Alemanha. Segundo os dados utilizados pelo professor, uma parcela proporcionalmente maior da produção japonesa e alemã é destinada ao exterior.
A comparação é utilizada para questionar por que o conceito de “excesso de capacidade” é aplicado com tanta intensidade à China, enquanto grandes exportadores tradicionais do setor automobilístico não recebem a mesma classificação.
O avanço das fabricantes chinesas também é observado no mercado latino-americano. Empresas como BYD, Chery, Geely, GAC, GWM, Omoda e Jaecoo ampliaram sua presença na região e passaram a disputar espaço com marcas tradicionais.
No Brasil, o processo também envolve investimentos produtivos. O professor destaca a instalação de fábricas e a integração de empresas brasileiras às cadeias de produção associadas à indústria chinesa.
Energia limpa é outro exemplo de expansão industrial
Outro ponto abordado no artigo é o papel da indústria chinesa na expansão das fontes renováveis de energia.
Segundo Pires, a grande capacidade de produção de equipamentos como painéis solares e componentes para geração eólica contribui para reduzir custos e tornar projetos de energia limpa mais viáveis em diferentes países.
Na sua avaliação, essa expansão também pode criar oportunidades econômicas locais, inclusive em áreas relacionadas à instalação, manutenção e desenvolvimento de novos projetos de infraestrutura energética.
O professor argumenta que, nesse contexto, classificar automaticamente a expansão da capacidade produtiva chinesa como um problema desconsideraria os benefícios decorrentes do aumento da escala e da redução dos custos tecnológicos.
Disputa comercial também envolve transição energética
Pires relaciona o debate sobre a indústria chinesa às mudanças provocadas pela transição energética. Para ele, a transformação das preferências dos consumidores e o avanço de novas tecnologias estão alterando mercados tradicionais.
O autor cita o setor automobilístico como exemplo e argumenta que a redução da demanda por determinados veículos não ocorre simplesmente por razões geopolíticas, mas também por mudanças nas necessidades e escolhas dos consumidores.
Na mesma linha, ele critica políticas que, em sua avaliação, podem reduzir a participação de determinados países na atual transformação tecnológica, especialmente no campo das energias renováveis e da mobilidade elétrica.
China e América Latina
O artigo também amplia a discussão para as relações entre China e América Latina. Pires considera que tentativas de restringir a aproximação entre os dois lados enfrentariam dificuldades diante dos interesses econômicos envolvidos.
Segundo ele, a relação comercial e financeira entre a China e os países latino-americanos estaria baseada em investimentos, comércio, infraestrutura e transferência de tecnologia.
O professor avalia que até governos latino-americanos alinhados politicamente aos Estados Unidos vêm mantendo ou ampliando seus vínculos econômicos com Pequim, ainda que adotem estratégias próprias.
Para Pires, essa dinâmica demonstra que interesses econômicos concretos tendem a pesar mais nas relações internacionais do que disputas ideológicas.
Professor prevê continuidade do crescimento chinês
Ao final de sua análise, Marcos Cordeiro Pires sustenta que novas previsões de uma crise inevitável da economia chinesa devem ser avaliadas com cautela.
Na visão do professor, o histórico das últimas décadas mostra uma diferença significativa entre os cenários mais pessimistas projetados por analistas e o comportamento efetivo da economia chinesa.
O autor conclui que o debate sobre a capacidade produtiva da China precisa considerar dados concretos sobre produtividade, inovação, comércio, demanda e transformação tecnológica, em vez de partir apenas de projeções negativas.
O artigo expressa a avaliação pessoal de Marcos Cordeiro Pires, professor de Economia Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e não representa necessariamente a posição da Agência de Notícias Xinhua.





