A experiência da China em tecnologia aplicada à aquicultura, gestão pesqueira e preservação ambiental vem despertando interesse internacional diante dos desafios provocados pelo aumento da demanda por alimentos aquáticos e pela crescente limitação de recursos naturais.
Especialistas reunidos na 37ª Sessão do Comitê de Pesca da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), realizada em Roma, destacaram a importância da inovação tecnológica, de uma governança mais eficiente e da cooperação entre países para tornar a pesca e a aquicultura mais sustentáveis.
A aquicultura esteve entre os principais temas dos debates. Segundo Zhang Wenbo, professor associado da Universidade Oceânica de Shanghai, ferramentas como Internet das Coisas, big data e inteligência artificial estão ganhando espaço na produção e na fiscalização do setor na China.
A utilização dessas tecnologias permite melhorar a eficiência das atividades e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais, contribuindo para uma produção mais sustentável.
Ásia-Pacífico concentra grande parte da produção mundial
A região da Ásia-Pacífico responde por aproximadamente 90% da produção global de aquicultura, segundo Eduardo M. Leano, diretor-geral da Rede de Centros de Aquicultura da Ásia-Pacífico.
O especialista destacou, porém, que o crescimento do setor ocorre em um cenário de aumento das limitações relacionadas à disponibilidade de água e de terras.
Para Leano, o desafio não está apenas em ampliar a produção, mas em promover uma transformação estrutural na aquicultura.
Nesse contexto, experiências chinesas envolvendo inteligência artificial, sistemas de aquicultura inteligente e produção em águas profundas podem oferecer referências para outros países. A adoção dessas soluções, entretanto, precisa considerar as características de cada região e ser acompanhada de treinamento e capacitação.
Tecnologia também ajuda a combater a pesca ilegal
A digitalização foi outro ponto de destaque nos debates internacionais, especialmente no combate à pesca ilegal, não declarada e não regulamentada.
A China passou a integrar, em abril de 2025, o Acordo da FAO sobre Medidas do Estado do Porto (PSMA), tratado internacional vinculante criado especificamente para enfrentar esse tipo de atividade.
Matthew Camilleri, oficial sênior de Pesca da FAO e secretário do PSMA, explicou que ferramentas digitais podem ajudar os países a identificar riscos antes mesmo da entrada de embarcações nos portos.
Com informações mais precisas, as autoridades conseguem direcionar os recursos disponíveis para inspeções consideradas prioritárias, aumentando a eficiência da fiscalização.
Camilleri ressaltou, contudo, que a digitalização deve ser vista como uma ferramenta. Seu principal benefício está na produção de informações confiáveis, na melhoria da análise de riscos e no fortalecimento da cooperação internacional.
Conservação do rio Yangtze ganha destaque
As iniciativas chinesas de proteção ambiental também foram apresentadas como exemplos de gestão dos recursos pesqueiros.
Uma exposição dedicada à proibição de pesca no rio Yangtze mostrou os resultados e objetivos da medida implementada pela China. Desde 2021, a restrição vem sendo aplicada em áreas importantes da bacia hidrográfica com o objetivo de recuperar a biodiversidade aquática e proteger o ecossistema do rio.
A experiência é apontada como uma demonstração de que políticas de conservação de longo prazo podem fazer parte das estratégias de recuperação dos recursos pesqueiros e da proteção dos ambientes naturais.
Experiência chinesa pode apoiar países em desenvolvimento
Benjamin Bockarie, de Serra Leoa, que estuda gestão de pesca e aquicultura na Faculdade Universitária de Cork, na Irlanda, destacou o potencial de algumas soluções desenvolvidas na China para outras nações em desenvolvimento.
Entre os exemplos estão os sistemas de aquicultura de recirculação e as tecnologias de monitoramento baseadas em inteligência artificial.
Segundo o especialista, a cooperação internacional deve priorizar a capacitação dos países e a adaptação das tecnologias às condições de cada localidade.
A experiência apresentada durante os debates reforça a ideia de que o futuro da pesca e da aquicultura dependerá não apenas do avanço tecnológico, mas também da capacidade de combinar inovação, preservação ambiental, fiscalização eficiente e compartilhamento de conhecimento entre diferentes países.





