A pedagogia dos afetos

Bagunça na mente do brasileiro; Imagem: Divulgação

Bagunça na mente do brasileiro; Imagem: Divulgação

Existe uma pergunta que quase nunca é feita quando falamos de música popular: a quem ela serve?
Não no sentido abstrato da arte, mas no sentido concreto de poder, dinheiro e organização social. Porque música não é só expressão — é infraestrutura emocional. Ela prepara o corpo para aceitar ideias que, ditas em discurso direto, seriam rejeitadas.
O que se vende como “gosto pessoal” muitas vezes é adestramento coletivo.

A prosperidade como método de obediência

A chamada ideologia prosperidade não opera subserviência apenas nos púlpitos. Ela ecoa nos palcos, nos refrões, nos clipes milionários e nos algoritmos. A mensagem é simples e eficiente: obediência gera recompensa; questionamento gera fracasso; sofrimento é prova; vitória é sinal de merecimento. Essa lógica casa perfeitamente com a autoridade política, inclusive com o agronegócio bilionário e com a indústria musical concentrada em poucos conglomerados. Não por conspiração, mas por afinidade estrutural.
O agro-artístico precisa de ordem, hierarquia e naturalização da desigualdade. A política autoritária precisa de medo, disciplina e identificação moral. A indústria musical precisa de repetição, previsibilidade e emoção fácil. A fé da prosperidade oferece tudo isso embalado como virtude.
A música faz o resto.

No sertanejo mainstream, o campo não é lugar de conflito social, mas de pureza simbólica. A família aparece idealizada, mas em ruínas. A bebida não é problema — é identidade. A posse não é violência — é amor. O ciúme não é alerta — é prova de sentimento. O crime passional não é tragédia — é excesso romântico. Tudo é cantado com melodia agradável, refrão chiclete e zero espaço para reflexão real.
Não se canta transformação. Canta-se conformismo.

Quando um sujeito canta que vai morrer, mas não para de beber, isso não é confissão corajosa. É renúncia pública à responsabilidade. Quando milhares cantam junto, isso deixa de ser individual e vira pedagogia: ninguém governa o próprio corpo, ninguém precisa tentar mudar, ninguém é responsável por nada. É a ideologia perfeita para um país que naturaliza violência doméstica, acidentes evitáveis, famílias destruídas e homens emocionalmente analfabetos.
A masculinidade ensinada por essas músicas não é forte. É frágil e autoritária. Ela não suporta frustração, não lida com limite e confunde desejo com posse. Ama como quem cerca território. Sofre como quem bebe. Reage como quem agride. E quando mata — simbólica ou literalmente — chama de paixão.
Isso não surge do nada. É treinado.

Fé, palanque e exclusão afetiva

Ao mesmo tempo, a música gospel pop troca o evangelho do desarme pelo evangelho do comando. O Cristo que lavava pés vira o Cristo que legitima palanque. A fé deixa de ser espaço de ética e vira ferramenta de identidade política. Não se canta a vulnerabilidade, não se canta a compaixão difícil, não se canta o amor ao diferente. Canta-se vitória, domínio, autoridade. O fiel aprende a se sentir cercado, ameaçado, especial. Pronto para obedecer e para excluir.
Nada disso viola o direito de culto. Mas tudo isso produz efeito social.

Inclusive o estilo musical gospel está cada vez mais proximo ao mesmo estilo de produção sonora do sertanejo, evidenciando mais ainda a fusão ideológica silenciosa.

Quando esses dois universos — gospel de guerra simbólica e sertanejo da resignação violenta — se encontram, o resultado é uma sociedade emocionalmente treinada para aceitar hierarquia, tolerar abuso e desconfiar da diferença. É nesse solo que o preconceito floresce sem precisar se justificar. É nesse ambiente que o Brasil se torna um dos países que mais mata pessoas LGBT sem achar isso incompatível com sua autoimagem “cristã” e “família”.
A música não diz “mate”.
Ela diz algo mais eficiente: não questione.

Corpos dissidentes raramente aparecem entre notas dessas canções. Quando aparecem, são caricaturas, piadas ou ameaças morais. O silêncio também educa. O que não se canta ensina tanto quanto o que se canta. Ao apagar existências, a música ajuda a retirá-las do campo da empatia. E quando um corpo não é reconhecido como legítimo, sua morte deixa de ser escândalo.
Isso não é exagero retórico. É consequência afetiva.

Playlist também é escolha política

O negócio bilionário da música não é neutro. Ele escolhe o que promove, o que repete e o que enterra. E escolhe, quase sempre, aquilo que não cria atrito com o poder econômico, político ou religioso dominante. A canção que desarma não vende tanto quanto a que anestesia. A dúvida não monetiza como a certeza. O conflito real não gera coro fácil.
Por isso a responsabilidade não é só de quem produz. É também de quem consome.

Escolher uma playlist não é um gesto inocente. É escolher quais afetos você treina diariamente. É decidir se você reforça a ideia de que amar é possuir, sofrer é destino, beber é identidade, excluir é proteger e obedecer é virtude. Ou se você aceita o desconforto de músicas que não te tratam como criança emocional.
Não se trata de pureza moral. Trata-se de honestidade intelectual.
Você pode gostar de uma música e ainda assim reconhecer o que ela ensina. Pode cantar junto e, ao mesmo tempo, não fingir que é só diversão. Fingir neutralidade é a forma mais elegante de servir ao que já domina.

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