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A PROFECIA RÍSPIDA

Por André Drago
29 de novembro de 2025
Hydra da IA a profecia ríspida de Roberto Carlos

Hydra da IA a profecia ríspida de Roberto Carlos

Roberto Carlos, Gilberto Gil e a I.A.

Tecnologia nunca nasce neutra: cada prótese criada para “ajudar” o humano expõe também nossas fragilidades, exageros, medos e até a preguiça de assumir responsabilidade pelas nossas ações e omissões. Essa problemática se intensifica com a inteligência artificial, ao tentarmos compreender seu impacto na cultura, na escuta humana e na sensibilidade que nos define como espécie. Esse dilema ficou evidente para mim quando assisti ao trecho do filme do Roberto Carlos (“Em Ritmo de Aventura” – 1967), onde o “cérebro eletrônico” é apresentado como solução mágica para a arte: a promessa de uma máquina que “compõe melhor”, sabe mais, faz tudo por você e te transforma em alimento digital.

Na cabeça dos personagens do filme, a máquina seria capaz de sugar todo o ser do músico — influências, dores, histórias — e cuspir música em todas as línguas, pronta pra vender. Coisa linda: imagina eu sentado numa rede, tomando um suco, e o robô fazendo minhas canções “melhor do que eu”. Só que aí vem o Roberto dizendo: seu cérebro eletrônico esqueceu de dizer que eu gosto de fazer música. Ponto. Essa frase derruba o sonho higienizado da automação total porque expõe a verdade que a narrativa tenta apagar: arte não é produto de fábrica, é processo de risco, corpo, decisão, é angústia, é aquele incômodo que só quem vive sabe explicar. É nesse ponto que a música “Cérebro Eletrônico” do Gilberto Gil (1969) ressoa ao filme — “o cérebro eletrônico faz quase tudo… mas ele é mudo”. Porque ele é isso mesmo: um trator mudo que processa dados, mas não sente. Não chora, não hesita, não provoca arrepio. O que ele devolve é cálculo, não é vida.

Eu sou terrível (ou sensível)?

A máquina não cria melhor que o humano porque ela não é sensível. E não falo de sensibilidade romântica. Falo de sensibilidade fenomenológica: aquele pacto silencioso entre a emoção de quem compõe e a emoção de quem escuta. Uma música é uma ferida aberta que conversa com outra ferida. É o corpo do artista comunicando com o corpo do ouvinte. Se uma IA gera uma música “perfeita”, mas sem corpo, sem fratura, sem contradição, o que o ouvinte está escutando? Ele está sendo tocado por quê? Por quem? Ele está ouvindo só o padrão que confirma o padrão anterior que o algoritmo achou que ele queria ouvir.

E quando isso vira tendência, passa a ser normal e entramos num risco estrutural: Se a máquina começa a produzir o “estilo” de cada artista, capturando o DNA musical dele (leia a publicação “O ECO DA VIDA E DA MÚSICA“, disponível nesta coluna em formato online ), reaproveitando, remixando, “melhorando”, criamos uma hidra cultural que se alimenta da própria tradição para substituí-la. E os artistas, vendo essa ameaça, começaram a se mover: abaixo-assinados internacionais, exigências legais, propostas de restrição ao uso de datasets contendo obras autorais, debates éticos pesados. O medo não é só de perder emprego, não é só de perder mercado. É de perder a própria voz como fonte do imaginário cultural. Porque se eu posso gerar, em 10 segundos, “um álbum novo do artista X com a mesma estética, mas mais comercial”, eu estou basicamente matando o artista e mantendo o fantasma dele trabalhando eternamente. É necroprodução. É escravidão estética póstuma. É também epistemicídio sonoro. A verdade: tecnologia é gente, são escolhas de gente, são vieses de gente, são interesses de gente. A IA pode não ser “fascista”, contudo, é uma arma poderosa nas mãos da eugenia.

O que se escuta hoje?

Quando a IA filtra, ordena, suaviza, “purifica” os dados para caber em modelos, ela reproduz exatamente essa lógica de limpeza social que regimes autoritários adoraram no passado. Não porque queira (máquina não quer nada), mas porque os humanos que a treinaram querem eficiência, querem ordem, querem previsibilidade. Reproduzindo a estética dominante. E previsibilidade é irmã da eugenia cultural. Quando mata o inédito, transforma a arte em uma fábrica de redundâncias. E quando o humano começa a consumir redundâncias sem perceber, perde a capacidade de estranhar, que é a base da crítica. Uma sociedade incapaz de estranhar é uma sociedade pronta para obedecer.

E isso conecta com aquilo que mais me preocupa: a escuta humana. Se não tem artista sentindo e ouvinte estranhando, o que acontece com a experiência de escutar música? Música pra você é conforto acústico, perfume, som de fundo para disfarçar o silêncio? Então não tem mais encontro. A escuta fenomenológica depende de uma intencionalidade viva, de uma consciência que faz gesto — e o gesto humano é imperfeito, é torto, é vulnerável. Se essa vulnerabilidade é trocada por cálculo, o ouvinte perde o contato com a própria sensibilidade. Ele acha que está sentindo, mas está só reagindo a um estímulo otimizado para engajar. Acha que descobriu gosto próprio, mas está só surfando uma playlist feita para não incomodar. E, sendo sincero com você, arte que não incomoda não é arte: é anestesia vendida, embalada entre notas.

Ouça a música:

Tags: crítica musicalfenomenologia da escutafilosofia estéticaGilberto Gili.a.profeciaRoberto Carlos

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