O debate sobre IA na música não é uma briga contra tecnologia. É a luta pela escuta, pelo direito de sentir, pela preservação da nossa porosidade humana. Precisamos nos defender e, ainda mais, compreender as contradições. A dialética da tecnofobia reconhece que nem toda ferramenta é inimiga e nem toda crítica é atraso. Muitos temem a IA sem perceber que outros a usam como ferramenta de reparação cultural, o que perturba — felizmente — toda a narrativa.
Melhorar a escuta hoje é um ato político. A escuta é um músculo: se você para de usar, atrofia. O ambiente é desenhado para isso, oferecendo perfeição homogênea e silenciosa de conflito. Faça o oposto: busque imperfeições. Ouça menos coisas “perfeitas” e mais sons singulares. Troque playlist por álbum, shuffle por presença, recomendação automática por acaso. O ouvido só acorda diante do inesperado. A música só existe de verdade quando alguém se permite ser incomodado. Se tudo soa igual, o problema não é “a música contemporânea”. É você embalado por um algoritmo que não quer que acorde.
Resistir ao algoritmo é higiene mental. O algoritmo é preguiçoso: ele quer te entregar o que não dói e te manter previsível, te transformar em métrica. Então os pequenos gestos contam: desativar recomendações automáticas, parar de curtir tudo compulsivamente, interromper o piloto automático, variar idiomas, épocas, instrumentos, estéticas. Consumir arte que o algoritmo não consegue prever.
Sensibilidade é o seu sensor de realidade. E ele morre quando tudo vira estímulo rápido. Se tudo é feito para te prender em três segundos, você perde o vínculo com a profundidade. Então vale insistir no ritmo lento: ler devagar, escutar devagar, não pular de música sem motivo, deixar uma canção te irritar um pouco antes de decidir se gosta ou não. Sensibilidade é aceitar o novo, não fugir dele.
E se proteger também faz parte. Tendo redes sociais, você já está num tabuleiro que não pediu para jogar. A regra é simples: quanto mais previsível você é, mais alvo você vira. Reduzir plataformas, entregar menos dados, variar comportamentos digitais, não clicar no que brilha, não reagir ao que irrita — tudo isso ajuda. Algoritmo vive de previsibilidade; sua liberdade começa exatamente onde ele perde o controle.
Abrindo a visão, a discussão cresce: Países disputam hegemonia cultural e tecnológica enquanto fingimos que o único impacto da IA é a melodia que toca no fone. A batalha é invisível, mas molda o seu ouvido. A IA é o cabo de guerra do século, e seu repertório musical é só um fragmento decorativo de disputas geopolíticas muito maiores. Enquanto eles brigam, você tenta não virar estatística.
É preciso considerar também o custo energético de tudo isso — a parte invisível que ninguém quer encarar. IA não roda “na nuvem”: ela roda em água, eletricidade, mineração, trabalho sub-remunerado. Cada música gerada tem um rastro ecológico e social que não aparece na timeline. O problema não é só estético; é político.
A saída não é abandonar a tecnologia, mas entendê-la. Acessibilidade e pedagogia importam. Democratizar acesso não é pasteurizar a cultura. Educação precisa de criticidade, leitura lenta, contexto, escuta ativa. Sem isso, a pessoa vira um botão ambulante de like. E aí o algoritmo faz a festa.
E chegamos ao ponto que mais dói: epistemicídio. O assassinato de um modo de saber. Não mata só pessoas — mata tradições inteiras. Mata sotaques musicais, rituais, técnicas, repertórios que não cabem no molde branco, ocidentalizado, higienizado. Música local, étnica ou de cunho social — tudo o que não segue o padrão vai sendo empurrado para fora do mapa cultural.
Quando tocamos nesse ponto, há uma contradição emergente que surpreende.
Telisha Nikki Jones, poeta negra do Mississippi, cria a cantora de IA Xania Monet. E, pela primeira vez, uma artista negra alcança, por meio de uma personagem artificial, o espaço que sempre lhe foi negado como corpo humano. Ela escreve as letras, cria as intenções, dirige a narrativa, compõe usando IA — que vira prótese de expansão cultural, não ferramenta de apagamento.
A máquina que ameaça tantos artistas se torna, nas mãos de Telisha, um megafone de reparação histórica. Isso é ruptura. É uma mulher negra hackeando o sistema por dentro. Enquanto a indústria discute ética, Telisha faz o que artistas negros sempre fizeram: inventa caminhos onde não havia porta. A tecnologia, nesse caso, não oprime — amplia. Não substitui — revela. Não apaga — potencializa.
Xania Monet não é ameaça. É sintoma. É brecha. É fissura no muro. É prova viva de que a tecnologia pode ser tanto apagamento quanto emancipação — depende de quem segura o fio.
E é aí que a profecia ríspida (leia a coluna anterior para entender melhor) encontra seu ponto de descanso temporário. A IA é um espelho: mostra o pior da cultura dominante, mas também mostra caminhos inesperados de libertação. Ela expõe nossas fragilidades entre notas artificiais, mas também devolve possibilidades.
Como um bônus especial deixo aqui o texto acadêmico produzido juntamente ao Prof. Dr. Flávio Apro, que me colocou nesta discussão e pesquisa. Este trabalho foi apresentado no Congresso Internacional de Emissoras Públicas em 21/05/2025 na USP. A pesquisa foi realizada a partir da minha experiência na participação no projeto de extensão Violâo em Foco, do qual participo há 3 anos, e que recebeu a premiação no IV Prêmio Rubra Rádios Universitárias, em julho de 2025, vencendo em primeiro lugar na categoria podcast cultural. Premiação concedida pela UnBcast, UNB.
Ética e Inteligencia Artificial – A Dialética da Tecnofobia
Tecnologias são próteses humanas que estendem nossas capacidades, ambiguidades, ambivalências e contradições. Contêm aspectos exagerados, ignorados e consequências não intencionais (SANTAELLA, 2025).
O objetivo deste trabalho é situar a tecnologia como agente transformador da cultura, por meio de uma revisão de literatura que aborda os efeitos e avanços propiciados pela IA, bem como suas implicações éticas e impactos na sociedade, cultura e democracia.
A discussão é articulada com o projeto de extensão “Violão em Foco”, do curso de Música da Universidade Estadual de Maringá, desenvolvido no formato de minipodcasts radiofônicos produzidos por discentes que registram suas produções, interpretando e comentando peças icônicas do repertório instrumental. O projeto encontra-se na segunda temporada, com episódios transmitidos semanalmente desde novembro de 2023 por uma rede colaborativa de emissoras públicas e disponibilizados em plataformas digitais.
Há dois tipos de inteligência artificial:
A IA preditiva utiliza dados para antecipar interesses e direcionar conteúdos, podendo influenciar decisões e gerar bolhas informacionais.
A IA generativa, além desses impactos, apresenta forte apelo de uso pessoal e promessa de produtividade, mas também levanta questões sérias relacionadas a direitos autorais, propriedade intelectual, vieses algorítmicos e uso de dados pessoais.
Diante desses desafios, destaca-se a importância de políticas públicas para proteger e empoderar os indivíduos (SANTAELLA, 2025). O acesso desigual à tecnologia pode ampliar a desigualdade social, sendo essa assimetria mitigável apenas por meio de políticas que promovam o direito à informação, a justiça, a instrução da população e o acesso equitativo.
Diversos profissionais criativos perderam espaço com o advento da IA — editores de vídeo, roteiristas, animadores e desenhistas, entre outros. Uma alternativa proposta seria a legalização de um espaço digital especificamente humano para o compartilhamento de obras criadas organicamente (RÊGO, 2025).
Existe dificuldade na atribuição de responsabilidade moral relacionada ao uso da IA, devido às múltiplas camadas de agentes humanos e artificiais envolvidos no desenvolvimento, manutenção e operação dos sistemas.
O desenvolvimento de plataformas nacionais pode contrapor o poder paragovernamental exercido pelas big techs (RÊGO, 2025), cujo poder é descrito como “racista, misógino, repressivo e exclusivo” (SANTAELLA, 2025).
É necessário investir em capacitação, qualificação e educação para garantir que o país disponha de força de trabalho apta a se adaptar às demandas impulsionadas pela IA (RANGEL, 2025). Não é conveniente que os potenciais sociotécnicos da IA sejam obscurecidos pela tecnofobia. A modificação do modus educandi, a fim de formar uma perspectiva intercrítica da tecnologia, depende da ressignificação das experiências de ensino e aprendizagem.
Propõe-se, ainda, uma reflexão crítica sobre o status ontológico da IA, questionando se ela representa uma nova forma de vida ou permanece como ferramenta humana, ao mesmo tempo em que insere o usuário em um dilema ético-existencial.
A tecnologia contemporânea, em vez de apenas servir ao humano, molda-o e reconfigura-o, invertendo a lógica de controle e transformando o sujeito em instrumento de sistemas algorítmicos que se retroalimentam e influenciam comportamentos, especialmente nas redes sociais.
Nesse cenário, a aparente liberdade dos criadores é condicionada por lógicas impessoais de engajamento, fazendo do humano apenas mais uma peça em um jogo cujas regras desconhece. A fragmentação das narrativas e o colapso do senso comum criam terreno fértil para desinformação e crenças difusas, tornando qualquer fragmento de discurso uma “verdade” conveniente.
Resta questionar se a IA evolui com desejos próprios ou se apenas reflete inseguranças humanas projetadas, alertando para o risco de criarmos mundos que, em vez de libertar, aprisionam — tornando-nos reféns da simulação idealizada como refúgio. A questão permanece: “quem está realmente jogando e quem está sendo jogado?” (SANTOS, 2025).
É necessário estimular a capacidade dos alunos de localizar informações pertinentes, construindo um lastro de criticidade emancipatória (ADORNO, 1995).
A qualidade das respostas fornecidas pela IA generativa está diretamente relacionada ao detalhamento e à clareza do input. No caso específico do Violão em Foco, os participantes realizaram diferentes testes com prompts voltados à construção e edição de narrações radiofônicas, resultando em mais obstáculos que soluções.
Conclui-se que a tecnologia generativa não substitui uma pesquisa qualificada, sensível e contextualizada para o tipo de conteúdo adotado.
Referências
ADORNO, T. Educação e Emancipação. Trad. Wolfgang Leo Maar. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
RANGEL, M. S. Política e inteligência artificial: prováveis desafios ao contexto brasileiro. Revista Tópicos, v. 2, n. 11, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.12698094. Acesso em: 21 abr. 2025.
RÊGO, A. R. A ética nos usos de “inteligência” artificial: interações, mercado e sociedade. Organicom, São Paulo, v. 21, n. 44, p. 109–120, 2024. DOI: 10.11606/issn.2238-2593.organicom.2024.221333. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/organicom/article/view/221333. Acesso em: 21 abr. 2025.
SANTAELLA, L. A inteligência artificial sob a égide da ética. Revista Cronos, v. 26, n. 1, p. 7–19, 2025. DOI: 10.21680/1982-5560.2025v26n1ID39309. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/cronos/article/view/39309. Acesso em: 21 abr. 2025.
SANTOS, P. H. Black Mirror 7×04 – Brinquedo | Análise. Vídeo do YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hZgdCyBqFkE. Acesso em: 21 abr. 2025.
