Monja Coen e a Arte da Resposta

Monja Coen / Imagem: Pâmela Maria

O som que se vê

Naquele domingo em que Maringá recebeu o Encontro de Mulheres Nipo-Brasileiras, o clima era de reverência e escuta. Os taikôs da ACEMA vibravam como corações ancestrais despertando à manhã de sol que fazia. Os tambores japoneses, tocados com precisão e entrega características deste grupo tradicional de Maringá, criou espaço preparando a plateia para a palestra da Monja Coen.
Ela caminhou com a leveza de quem já entendeu que a pressa é uma ilusão e começou a falar sobre assuntos pertinentes ao tema do encontro sempre relacionando com sua prática espiritual.

Você pode conferir a cobertura e entrevista oficial na íntegra na edição passada deste veículo ou em nosso canal online.

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No fim da palestra, já sem as câmeras, ficamos alguns minutos conversando. E ali, longe da formalidade do evento, ela — contando uma história aparentemente aleatória — soltou uma daquelas frases que ficam ecoando dias inteiros na cabeça: o dono da marca Canon, contou ela, escolheu esse nome porque em japonês “Kannon” significa enxergar com profundidade os sons.

Reagir ou responder

Ali estava a síntese do que eu vinha pensando há semanas — sobre o papel do artista num mundo que parece estar sempre em colapso. Observar a profundidade dos sons que inclusive eu estou fazendo agora. Todo dia, no curso de composição, tento colocar sentimento dentro das estruturas que aprendi tecnicamente. O artista é convocado a reagir: à política, à violência, à pressa, à indiferença. Mas o caminho espiritual ensina o oposto: não reagir, observar, deixar passar. Como conciliar essas duas forças?

Essa pergunta me perseguia. E foi justamente a Monja, sem saber, quem me liberou. Ela disse: “Responder não é não fazer nada, é diferente. É outra coisa. Se eu te empurro, você não precisa me empurrar de volta.”
Naquele instante, entendi que a arte não é reação — é resposta.
E que existe um abismo entre as duas.

Reagir é imediato, instintivo, visceral. É quando o impulso fala mais alto que a consciência. Reação é choque, é ruído, é a nota que vem fora do tempo e quebra o compasso.
Responder, por outro lado, é o gesto que nasce do silêncio. É a pausa antes do acorde. É o intervalo em que o artista respira, sente, pensa — e só depois transforma o que recebeu em som, cor, palavra, movimento.

O silêncio compõe

Desde então, venho pensando na arte como uma forma refinada de resposta. Quando um artista escolhe criar, ele não está simplesmente reagindo ao mundo, mas elaborando o mundo. Está destilando o caos, filtrando o barulho, encontrando uma maneira de devolver o impacto que recebeu em outra frequência — uma frequência que ele mesmo constrói.
Fazer música é isso: pegar o grito e transformá-lo em harmonia.
Não negar a dor, mas afiná-la.

Quando o som é raso, ele cansa; quando é profundo, ele cura. E talvez o mesmo valha para o olhar. A câmera que enxerga com profundidade sonora é a metáfora perfeita para o artista que responde ao mundo sem se deixar arrastar por ele.

A reação é um reflexo. A resposta é uma escolha.
E entre uma e outra existe o espaço onde nasce a consciência.

No budismo Vipassana — técnica de meditação que pratico há alguns anos — aprendemos que a libertação vem quando paramos de reagir automaticamente aos estímulos. Passamos a observar as sensações, compreender suas causas e deixá-las ir. É um treino radical de presença.
Mas foi ao longo desse processo que eu percebi uma tensão curiosa: se o artista não reage, o que ele faz?
Não é a arte uma reação ao mundo?

Demorei a perceber que eu estava usando a palavra errada.
O artista não precisa reagir. Ele precisa responder.

O som é o caminho

Lembro do Hermeto Pascoal transformando o som de uma chaleira em melodia. Lembro do Dr. Flávio Falcone misturando arte e medicina para curar feridas da alma. Lembro da Claudette King cantando blues como quem exorciza o tempo. Nenhum deles reagiu ao mundo — todos responderam a ele. Com delicadeza, com coragem, com som.

Essas reflexões têm atravessado as últimas semanas da coluna Entre Notas. Venho tentando entender o sentido da arte para o próprio artista — e não só para o público. A arte como instrumento de autoconhecimento, de elaboração, de sobrevivência.
Porque responder ao mundo, antes de ser um gesto criativo, é um gesto de saúde.

A reação nos prende àquilo que nos fere. A resposta nos liberta.
Reagir é repetir o padrão. Responder é criar outro.

A música, nesse contexto, se torna o exercício mais puro da resposta. O músico é aquele que aprende a transformar vibração em significado. Ele ouve antes de tocar, respira antes de cantar, sente antes de falar. Cada som que ele escolhe é uma resposta ao silêncio anterior — e o silêncio é sempre o mestre.

Ajustando a Mira

Monja Coen me disse que se adaptar a dar a resposta em vez de reagir é como ir treinando a mira até começarmos a acertar o alvo. Lembro de uma frase que minha mãe me dizia quando eu era criança:
“Se quiser acertar a lua, pelo menos mire na direção dela.”

Essa frase voltou agora com outro sentido. Porque mirar na direção da lua é exatamente isso: responder. Mesmo que você nunca a alcance, é o ato de mirar que te coloca no caminho certo. É o gesto consciente, a intenção madura.

A arte é o treino de mirar.
A cada música, a cada texto, a cada quadro, o artista realinha a própria mira — e com isso, ajuda o mundo a mirar também.

E assim como a Canon capta luz e profundidade, nós tentamos captar o instante antes que ele desapareça — não para reagir a ele, mas para responder com beleza.

A resposta é o ponto onde o silêncio e o som se encontram.
E talvez o papel do artista seja apenas esse:
Ficar nesse ponto, entre a pausa e o acorde, entre o ver e o ouvir, entre o mundo e a alma.

Entre notas.

 

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