Mulheres, música e as vozes que nos formam
Um silêncio histórico
Durante a maior parte da história ocidental, mulher cantar em público era associado à imoralidade. Em muitas sociedades, cantar profissionalmente significava automaticamente estar ligada a prostituição, teatro marginal ou vida boêmia. A mulher que subia ao palco era associada automaticamente a ambientes considerados degradantes. O palco, o teatro, a música pública — tudo isso era território masculino.
Ainda assim, as mulheres sempre estiveram lá.
Cantando, compondo, tocando, ensinando, sustentando artisticamente e emocionalmente muitos processos criativos que acabaram moldando a história da música. Em muitos casos, o talento feminino precisou atravessar séculos de repressão social até poder se expressar entre notas com alguma liberdade.
E mesmo quando os homens apareciam nos palcos, muitas vezes existia uma realidade silenciosa por trás.
É bem possivel que quando um homem está fazendo música tranquilo, uma mulher esteja fazendo o trabalho familiar por ele, cuidando de muitas outras coisas. Em todos os casos, historicamente, deve-se libertar a mulher para ser, fazer e cantar o que ela quiser, na hora que ela quiser.
E esse é um dos pontos mais delicados da nossa geração: todas as reparações históricas que precisamos reconhecer e colocar em prática.
Uma breve linha do tempo
Vamos direto à linha do tempo.
Antiguidade
Na Grécia Antiga, mulheres até podiam cantar em rituais religiosos, mas quase nunca em espaços públicos formais. O teatro e a música pública eram dominados por homens. Em muitos casos, homens interpretavam papéis femininos.
Na Roma Antiga, a situação era semelhante: mulheres artistas existiam, mas eram vistas socialmente como de baixo status.
Idade Média
Na Igreja Católica medieval, mulheres não podiam cantar na liturgia pública. O canto religioso institucional era masculino. Em muitas regiões, mulheres que cantavam fora de contextos domésticos eram associadas a entretenimento popular, tabernas ou cortejos — ambientes considerados moralmente suspeitos.
Renascimento e Barroco
Nos séculos XVI e XVII começa uma mudança lenta.
Aparecem cantoras profissionais nas cortes europeias e na ópera nascente. Um marco importante foi a criação da ópera na Itália.
Mas mesmo aí havia resistência. Em várias cidades italianas e também nos Estados papais, mulheres foram proibidas de cantar em palco. Isso levou a prática (de mutilação) dos castrati — homens castrados para manter voz aguda e interpretar papéis femininos.
Preferiam castrar meninos a deixar mulheres cantar.
No século XVII a ópera finalmente consolida a presença feminina.
Grandes cantoras começam a se tornar celebridades. Mesmo assim, a reputação social das cantoras era ambígua. Muitas eram vistas como mulheres “livres demais”, ligadas a nobres, mecenas (patrocinadores) ou escândalos.
A virada do século XX
No século XX há uma virada cultural.
Com a ascensão da burguesia e do concerto público, cantar se torna mais aceitável para mulheres — desde que dentro de certos limites.
A mulher podia cantar:
• no salão
• na ópera
• na igreja (em alguns contextos)
Mas ainda havia julgamento moral forte se ela fosse artista profissional independente.
O surgimento da gravação e o rádio mudam tudo.
A voz feminina invade o espaço público global. Cantoras passam a definir gêneros inteiros: jazz, blues, samba, rock, pop.
É aí que surgem figuras como Sister Rosetta, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Elis Regina e Aretha Franklin.
Nesse ponto, a ideia de que mulher cantar em público seria degradante começa a desaparecer — mas isso levou literalmente milênios.

Um detalhe técnico curioso
Existe também um detalhe técnico bem curioso que ajudou muito a voz feminina a ganhar espaço na música gravada.
É a faixa de frequência da voz.
A voz humana ocupa várias frequências, mas as vozes femininas geralmente ficam entre mais ou menos 200 Hz e 3.000 Hz, com harmônicos que sobem ainda mais. Essa região é exatamente a parte do espectro sonoro onde o ouvido humano é mais sensível.
E tem outro fator importante: rádio antigo e gravações antigas.
Os primeiros rádios e telefones transmitiam basicamente uma faixa de 300 Hz a 3.400 Hz. Ou seja, quase exatamente onde a articulação da voz humana acontece — principalmente as consoantes que dão clareza à fala e ao canto.
Resultado prático: vozes com mais brilho e presença nessa região atravessavam melhor o rádio.
Muitas vozes femininas naturalmente têm:
• mais clareza nas consoantes
• mais harmônicos agudos
• menos energia embolando nas frequências graves
Então no rádio antigo e nas primeiras gravações elas cortavam a mix com mais facilidade.
Isso não significa que homens não funcionem — claro que funcionam — mas na gravação analógica antiga algumas vozes masculinas muito graves ficavam mais difíceis de destacar.
Produtores perceberam isso rápido.
Por isso muitas cantoras começaram a soar muito fortes no rádio, especialmente nos anos 50 e 60.
Outro detalhe técnico: quando você coloca uma banda inteira tocando (baixo, bateria, guitarra, piano), boa parte desses instrumentos ocupa as regiões graves e médias-graves. A voz feminina, ficando um pouco acima disso, ganha espaço natural no arranjo.
Esse equilíbrio ajudou muito a consolidar a presença de grandes intérpretes na história da música popular.
Claro que depois a tecnologia de gravação evoluiu muito, mas esse pequeno detalhe acústico ajudou bastante na época em que rádio e discos eram o principal palco do mundo.
Quando a voz feminina domina o mercado
E existe também um ponto curioso dentro da própria história da música popular.
O momento em que a voz feminina passa a dominar a música popular mundial acontece principalmente entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1970.
Antes disso, os grandes ídolos da música popular eram majoritariamente homens: cantores de rádio, estrelas de jazz e os primeiros nomes do rock.
Mas algumas coisas mudam o jogo ao mesmo tempo.
Primeiro, a indústria fonográfica começa a crescer muito com o rádio e o disco. As gravadoras percebem que vozes femininas vendem muito porque alcançam públicos diferentes ao mesmo tempo: homens que se encantam pela cantora e mulheres que se identificam com ela.
Segundo, começa a surgir uma geração de intérpretes que são artistas completas.
Nos anos 60 aparecem nomes que redefinem o papel da mulher na música popular, como Janis Joplin, Joni Mitchell e Nina Simone.
Essas mulheres não estavam apenas cantando. Elas interpretavam com uma intensidade emocional enorme, compunham, opinavam politicamente e tinham presença artística muito forte.
Ao mesmo tempo, surgem grupos femininos que dominam as paradas, especialmente na gravadora Motown, com artistas como The Supremes lideradas por Diana Ross.
No Brasil acontece algo parecido na mesma época. Vozes como Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia mudam completamente o padrão de interpretação da música popular.
A partir dali acontece uma virada silenciosa: a indústria descobre que a voz feminina é protagonista.
E nos anos 80 e 90 isso explode de vez com artistas que passam a comandar o mercado global inteiro, como Madonna, Whitney Houston e Mariah Carey.
Hoje, em muitas áreas da música pop e da música vocal, as maiores audiências do planeta são lideradas por mulheres.
Depois de séculos tentando impedir que mulheres cantassem em público, a história deu uma volta curiosa.
A música popular acabou se tornando um dos lugares onde a voz feminina mais ganhou força no mundo inteiro.
As mulheres da minha vida
A música entrou na minha vida justamente através da minha mãe.
Era ela quem escutava vários estilos de Rock and Roll e até coisas como New Age dentro de casa.
Eu escutava junto com ela.
Foi ali que eu aprendi a escutar música.
Então existe uma gratidão muito profunda às mulheres da minha vida.
Porque muitas vezes se fala que por trás de um artista existe uma mulher. E isso é verdade em muitos sentidos.
No meu caso, além da minha mãe, existe também a minha irmã, que é uma grande confidente. Ela me dá muitas orientações muito positivas sobre vida pessoal, carreira e muitas decisões importantes. Eu provavelmente não estaria aqui onde estou se não fosse ela.
Mulheres da cena musical de Maringá
Essa presença feminina também atravessa toda a minha trajetória musical na cidade onde vivo.
Maringá tem muitas musicistas incríveis. Mulheres que são músicas de verdade, que amam o que fazem e fazem isso com coragem e com uma tenacidade que a gente precisa observar e aprender muito.
Mulheres que estão mandando a ver e fazendo a música acontecer na cidade.
E quando eu digo rock and roll, digo no sentido mais amplo possível: como resistência, como música, como voz e como palavra.
Minha admiração a todas essas mulheres que atravessaram a história musical aqui em Maringá.
Depois de mais de seis meses escrevendo semanalmente, comecei a pensar que também tenho um papel como comunicador. Então parei para pesquisar dentro de mim o que esse assunto realmente reverberava comigo.
E, sinceramente, são muitas coisas.
Tantas que eu nem consigo exprimir todas em um único texto. Mas quero deixar uma homenagem.
Uma homenagem às mulheres que estão batalhando por esse universo cultural — e principalmente às mulheres que fizeram parte da minha vida, e tudo que aprendi com elas.
Deixa eu contar sobre uma banda da cidade para aproveitar todo esse ensejo aberto.
Eu conheci a banda PANNDORA porque conheço a Adrismith há 21 anos.
Inclusive, o primeiro show grande de rock que eu fui na vida foi ela que organizou aqui em Maringá.
Era uma excursão para ver Aerosmith, com o Velvet Revolver abrindo.
Eu lembro muito bem de todo o cuidado, de todo o amor e da paixão pelo rock and roll em todo aquele rolê.
Foi algo muito importante para a minha vida.
Inclusive, a agência dela, chamada Wind of Fate, está voltando agora a organizar excursões para shows. Vale a pena o pessoal dar uma olhada.
Foi também através dessa convivência que eu conheci a banda PANNDORA.
Lembro de ver os shows delas no Tribos Bar, nos festivais de metal que aconteciam na cidade.
A gente acabou desenvolvendo amizade e, ao longo dos anos, as meninas sempre ensaiaram no estúdio, sempre gravaram materiais, inclusive durante a pandemia.
Sempre parceiras.
A PANNDORA é, sem dúvida, a banda de metal de Maringá que está há mais tempo em atividade e que alcançou uma projeção internacional mais consistente.
E isso não é pouca coisa.
Por isso, deixo aqui também minha gratidão à PANNDORA. Escutem o som delas nas plataformas, precisamos valorizar mais a cultura musical feminina da nossa cidade.
Gratidão
E também a minha gratidão às mulheres que cantam comigo, que fazem som comigo, que apoiam o trabalho, o estúdio e que sempre me auxiliaram na minha vida — não somente no trabalho do estúdio, mas na vida.
Tanto as que estão atualmente dividindo palcos e gravações, quanto as que não estão mais por perto mas que foram fundamentais na minha história.
Na área da comunicação, por exemplo, o Jornal Maringá é dirigido por uma família de mulheres, sou muito grato pelo espaço.
E é muito importante que a gente tenha essas referências femininas, porque são realmente as pessoas que estão fazendo o mundo evoluir.
O mundo enxergar de novas maneiras — que nem são tão novas assim.
Maneiras que já estão aí para a gente enxergar, para a gente poder acolher e também ser acolhido, por uma nova visão de sociedade, de igualdade e de sabedoria.


