O ECO DA VIDA E DA MÚSICA

Dr. Flavio Falcone é conhecido como Dr. Palhaço na cracolândia.

VIDA É MÚSICA
Em uma manhã comum, há dois mil anos, um camponês de vida simples se levanta às cinco. Bebe um copo de água, lava suas frutas — maçãs e peras — e senta-se à varanda para tomar seu chá enquanto observa o sol nascer. Três mil anos depois, um descendente distante repete o mesmo ritual. Sem saber, todas as sensações e emoções que ele experimenta naquele momento estão enraizadas em seu DNA, transmitidas através de gerações. O mesmo cheiro de terra úmida, a mesma temperatura na palma da mão ao segurar as frutas.

E mais, quem sabe essas duas pessoas separadas por centenas de gerações compartilhem o mesmo tipo de olhar, caminhada, trejeitos ou semelhanças na entonação da voz. Eu fico pensando em algumas perguntas: o que ou quem somos nós? Como e do que somos feitos? E o mais pertinente para nossa conversa hoje: como é que essas perguntas e suas prováveis respostas, que parecem aleatórias, prestam algum serviço à nossa digressão musical?

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Esses dias conversando com um amigo, eu pensei em como seria a ideia de reencarnação sob a perspectiva puramente biológica. Essencialmente, a transmissão de traços, predisposições e comportamentos de antepassados que poderiam ser reativados. Como se pudéssemos continuar, de certa forma (geneticamente), o trabalho feito em uma vida anterior. Vou usar esse espaço para te levar em uma viagem hermética pelas oitavas universais. Vamos viajar?

Pois bem, cada célula carrega informações ancestrais que podem se manifestar ou permanecer adormecidas. A continuidade da vida depende de informação genética e padrões evolutivos que atravessam o tempo. Um traço de um ancestral distante pode emergir inesperadamente, seja um modo de andar, um gesto, uma inclinação para determinada atividade ou talento. Somos, nesse sentido, versões evoluídas de indivíduos que caminharam antes de nós, carregando um trabalho genético silencioso, moldado ao longo de séculos, que nos prepara para a vida atual.

A vida não é linear, mas um processo de reinvenção. Genes que permaneceram adormecidos podem ressurgir em formas novas, adaptadas ao contexto. Refletindo um trabalho acumulativo que conecta indivíduos a linhagens que atravessam séculos. Com continuidade e inovação, como se a própria vida estivesse em constante improviso, testando combinações até encontrar padrões funcionais que persistam.

 

MÚSICA É VIDA
O mesmo impulso de transmissão e perpetuação se manifesta na criação artística. O músico não cria do nada — ele remonta, mistura, se contradiz. A vida faz o mesmo. Cada ensaio ou improviso é uma exploração de combinações, buscando padrões que sobrevivam culturalmente, um laboratório de experimentação que ecoa a lógica evolutiva da vida. A música está para o ser humano assim como a vida está para o universo.

O improviso e a composição em música funcionam como processo evolutivo em microescala. O trabalho interno de um artista é silencioso e não tão preciso. Erros e acertos são testados. Padrões são mantidos, outros descartados. O músico não está apenas reproduzindo sons; está criando algo novo a partir do que foi absorvido. A repetição, a experimentação e a adaptação ao contexto social e cultural refletem a mesma lógica que rege a evolução biológica.

A educação e a mediação de mestres amplificam esse efeito. “Subir nos ombros de gigantes” é um mecanismo de ativação de capacidades latentes. A obra artística não surge isolada; ela possui uma genética estética — uma linhagem sensível. Atua como veículo de transmissão cultural e emocional que perpetua padrões de significado da mesma forma que os genes perpetuam a estrutura e a função biológica.

Cada nota, cada frase improvisada, é como a reencarnação de vozes passadas. Assim como o DNA carrega traços de ancestrais, a música carrega ecos de tradições, inspirações e experiências acumuladas. O artista conecta passado, presente e futuro, perpetuando padrões que foram testados, ajustados e refinados ao longo do tempo.

A arte permite que o impulso vital encontre expressão consciente. É uma forma de existir, de afirmar presença, de conectar gerações e contextos distintos. Cada criação artística compartilhada reflete a continuidade da vida em sentido mais amplo.

O impulso criativo é uma extensão da pulsão de vida. Essa pulsão aparece mesmo onde a vida parece mais ameaçada. Um exemplo interessante — e que me emociona pessoalmente — é a pesquisa do psiquiatra Flávio Falcone. Em São Paulo, sob o arquétipo do Palhaço Fanfarrone, leva por anos a fio um karaokê e outras atividades musicais à “Cracolândia”, para que pessoas em situação extrema possam cantar em seu show de talentos, improvisado em um carrinho de supermercado. O Dr. Palhaço, como é chamado pelos usuários, observa que a vontade de fazer arte é um indicador direto da energia vital que existe no indivíduo. Dr. Falcone, que também é artista e especialista em improvisação, percebeu que os que cantam, mesmo no limite da existência, ainda querem viver.

Dr. Flavio Falcone, ativista da redução de danos.

 

O ECO
O que acontece geneticamente — a repetição de padrões, o aprimoramento contínuo e a ativação de traços latentes com objetivo de preservação biológica — tem seu paralelo direto na criação artística. O músico, ao compor e improvisar, combinando influências, reproduz o mesmo processo que a natureza usa para perpetuar a vida.

Tudo o que ocorre no macro — no universo, na vida, na biologia — encontra eco no micro — no humano, entre notas musicais. Somos uma forma do universo escutar a si mesmo, enxergar-se e sentir-se. Criar é viver, fazer música é viver, transmitir padrões é preservar a própria existência.

A “reencarnação” genética e a musical são manifestações da mesma lei. O corpo e o som são veículos de uma única vontade — a de permanecer, evoluir e se reconhecer. O gene e o acorde são irmãos de linguagem: ambos transportam informação, ambos se adaptam, ambos buscam coerência dentro da mudança. Assim como a vida refina seus códigos genéticos, a música refina seus códigos estéticos. A correspondência é revelada, está presente em cada gesto: a vida e a música são variações do mesmo tema — a vontade do universo de permanecer em movimento. Possuem, portanto, o mesmo DNA.

 

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