Eu existo para fazer arte. Minha vida perde parte do sentido quando não estou perseguindo a próxima expressão — musical, fotográfica ou textual. O fluxo criativo chama e eu atendo. O preço é alto. O valor, nem sempre visível. O custo disso? Tudo. Das madrugadas em hiperfoco num tema técnico às produções intermináveis — minhas e dos clientes — de que preciso dar conta sozinho. A roda não para. São raros os momentos em que não sou convocado a sublimar algo em arte, quase sempre atravessado por filosofia e autoconhecimento.
O Preço
Embarcar periodicamente numa viagem interior pode ser saudável pra quem não vive no frenesi poético. Mas pra um artista que passa praticamente cem por cento do tempo absorvido em indagações existenciais — tentando formalizar esteticamente sutilezas intangíveis — a realidade às vezes ganha uma densidade absurda e me faz esquecer o quão lindo o dia está. Como hoje: escrevo isso ao meio-dia de uma quinta-feira de feriado, desses que chega a ser crime não sair de casa. Eu até imagino aproveitar lá fora, viver as cores do dia, mas esse impulso criativo me prega numa cadeira de madeira, numa mesa de vidro, na sacada de uma sobreloja, escrevendo e devorando outro maço de cigarros. E enquanto escrevo, penso no quanto quero transformar aquelas ideias musicais em obra autoral. Mas vai esperar. Antes vêm as filas de edições de áudio e vídeo dos clientes. O que me deixa ansioso não é escrever, não é editar, não é lidar com a ansiedade alheia. É sempre ter que colocar minha expressão autoral em último lugar, porque preciso gerar renda com as habilidades técnicas que domino.
Aí é que você pode dizer algo que já escutei muito; é uma questão de organização, é só usar uma agenda bem disciplinadamente que as coisas funcionam… Não é assim que funciona, eu gostaria muito que fosse, mas não é. A burocracia do calendário ajuda, e muito. Pra muita gente, faz a diferença entre avançar e patinar — patinação artística, termo genial, aliás. Mas tem dias em que 24 horas parecem uma piada. Porque pra certas atividades artísticas, rigor técnico e estudo teórico não são opcionais: são pré-requisitos. Conhecimento não é luxo, é obrigação. A produção por demanda segue um método mecânico, repetitivo, funcional. Resolve, entrega, segue o baile (quando o cliente não é tanto quanto ou mais “conceitual” do que o produtor). O problema da rotina esganiçada surge mesmo quando é necessário me preparar para a obra que eu vislumbro criar. Como artista eu quero chegar aos limites do que eu posso imaginar e realizar — e essa balança é cruel, pois não há limite para a imaginação humana, porém existem barreiras sólidas para a realização de certas tarefas: tempo, corpo, cérebro, dinheiro, circunstâncias — tudo tem parede.
Foi pensando nisso que decidi dedicar todo meu tempo à produção artística, pagando o preço alto de viver focado integralmente nisso. Quando não estou trabalhando, estou estudando música, filosofia, antropologia, literatura. Entrei na faculdade de composição musical pra me fortalecer e empoderar profissionalmente e criativamente. Meu tempo livre — que já é espremido entre atender clientes e compor — desaparece nisso. Resultado? Milhares de clientes atendidos, conhecimento acumulado às pencas e pouquíssimas obras autorais minhas disponíveis ao público… Então pra que eu componho, porca miséria?
O Valor
A resposta vem como vem a arte: em fragmentos. Minha arte é uma lição — e essa lição, antes de tudo, vem pra mim. Dizem que o significado de uma só obra tem residência tripla: no autor, na própria obra e no espectador. A sensação é de que a parte que deveria morar no espectador ainda é nômade pra mim. Talvez por eu não ver pra onde ela vai. Talvez porque, como dizem, o bem feito só quem recebe sabe. Ainda assim, tenho certeza de que meu trabalho chega nas pessoas, mesmo quando não chega em forma de obra publicada. Às vezes é num gesto, numa presença, numa estética que contamina sem anunciar.
Não é egoísmo, é um desabafo, pois no fundo, quem não se sente esmagado pela modernidade? Dentro da minha singularidade — que já é um caos organizado — eu abandono a necessidade de controle e lembro que a vida se faz um compasso por vez, às vezes uma nota de cada vez. Talvez eu só vá entender isso no final, quando a música acabar. Assim como não dá pra ouvir mais de um instante da música ao mesmo tempo, também não dá pra voltar e repetir o que não entendi direito. A vida não tem repeat. O que me resta é habitar esse mistério irresoluto e enxergar nisso meu valor: sou uma canção inacabada, por vezes dissonante, mas com uma harmonia que aponta para um futuro sempre maior que eu — mesmo que aparentemente através de acordes desconexos. Gil já avisou: a meta do poeta está além da obra. Não cabe na lata. É meta-fora. Depois de escancarar tudo isso aqui, me sinto bem melhor. E na verdade, vou dar uma volta de skate pela cidade… Sabendo que não vou conseguir mesmo deixar de observar tudo aquilo que amo traduzir entre notas.
