Eu não sei pra onde vou, pode até não dar em nada. Realmente, quem é que sabe? Quem pode adicionar um dia ou retirar um dia da própria vida, assim por escolha própria? Quem pode hoje dizer com toda certeza: Faça “isso” e o resultado será exatamente “esse”? E pra falar bem a verdade, qual é o real problema de não dar em nada? Tá tão ruim assim que não possa continuar desse jeito? Perguntas que sempre me faço. Sempre que chego onde quero, vejo que ainda não estou lá. Estranho paradoxo. Minha vida segue o sol, no horizonte dessa estrada. Por que o sol nasce pra todos, justos e injustos, e o horizonte de cada um também se confunde com o horizonte da humanidade, o fim de uma vida inteira de expectativas, dores e amores. Sem necessidade de decidir qual o destino a perseguir, ele será sempre o mesmo para todos. O sol no horizonte indica o caminho do oeste, o caminho que simboliza o final dos ciclos. Não consigo imaginar alguém seguindo o sol no horizonte indo para o leste, você consegue?
Eu nem sei mesmo quem sou, nessa falta de carinho. Por que saber isso faz tanta diferença? Talvez não faça. Talvez eu possa medir a coerência entre a identidade que eu idealizo em mim e a que eu demonstro na prática justamente pelo carinho comigo mesmo e com o próximo. Não seria isso a tão sonhada integridade? Fazer ao próximo o que gostaria que fosse feito comigo é muito diferente de não fazer ao próximo o que eu não gostaria que fizessem comigo. Por que é tão difícil amar? Por não ter um grande amor, por ser tão difícil às vezes entender que amor é esse. E que tamanho é “grande”? E ainda mais, será que eu já vivi isso, mas achei que grande era “maior”? Talvez por não possuir outra escolha, talvez por fazer parte da vida como escola mesmo, eu aprendi a ser sozinho. Nascemos e morremos sozinhos. No instante em que se percebe que somos indivíduos é que realmente nos é dada a luz. O “parto”, na verdade, dura o tempo necessário para que cada ser se entenda como sendo a si. Em todos os momentos a partir daí nos encontramos sozinhos em nossa observação do mundo. Só existe um ponto de vista, o seu. Por isso existe tanto fascínio no outro. Alteridade também é utopia. Toda ação conforme o dever em direção ao próximo naturalmente me beneficia. É sempre tudo sobre mim, sem que eu deixe de saber que o outro também está tendo a mesma experiência. Acho que estar sozinho pode ajudar cada um a entender a solidão do outro. O que é muito difícil em uma casa cheia. As pessoas também adoecem por não terem solitude suficiente.
E onde o vento me levar, vou abrir meu coração. Logo logo não estarei por aqui. E nem você. É, isso acontece, mais um ano acaba, menos um ano pra graduação em música que eu tô fazendo, menos um ano para uma mudança não tão sutil e que direciona a vida para outro sentido. Esse estudo tem me dado muitas ganas de sair pelo mundo e ver o que tá acontecendo em outras esquinas, em outros horizontes. Abrir esse coração pra ser, existir, me permitir e abraçar o mundo. No fim o que muda é justamente a disposição desse coração, e pode ser que no caminho, num atalho ou num sorriso, aconteça uma paixão. Talvez assim eu me apaixone mais ainda pela vida, pela arte. Mas acima de tudo talvez eu encontre algo pelo qual já sou apaixonado e não saiba. São tantos “talvezes”… Acho que esta é sempre a esperança, e vou achar no toque do destino o brilho de um olhar para essa paixão pela experiência de viver sem medo de amar. É preciso aprender a se libertar do controle. Quem ama aceita. Quem toca a minha face é um vento que sopra onde quer, ninguém sabe de onde vem e nem pra onde vai. “Amores vêm e vão, são aves de verão”. Por isso o destino não é um inimigo, é uma libertação da tentativa de controle. A mente é a corrente, o destino é o machado, a arte o carrega, o algoz é o ego.
Não vou deixar de ser um sonhador. Eu nem sei se eu consigo. É curioso que usemos a mesma palavra para sonhos e “sonhos”. Eles acontecem no ambiente da fantasia subconsciente. São atributos distintos, um ocorre biologicamente enquanto dormimos, outro é fruto de todos os anseios do solitário ser e projeta-se enquanto tomamos ações em vigília. Ambos são utopias do subconsciente, sem garantia nenhuma de realização devido à simples estrutura da realidade. Contudo, é inimaginável um mundo em que não existam utopias. O sonho do amor perfeito, o sonho da paz mundial, o sonho das condições dignas a todos os seres humanos, o relacionamento perfeito, a conta bancária recheada. Quantos desses sonhos conseguiremos realizar…? No final, para mim, trata-se de realizar o sonho de ser, fazer, dar, receber, conhecer, se reconhecer, ser reconhecido, transformar e ser transformado, tudo no mesmo ato, entre notas da mesma canção. Faz parte da natureza unir tudo. Paixão talvez seja o ato de querer unir e o sonhador, a pessoa que pensa em união. Mesmo sabendo exatamente o que significa uma utopia, compensa tentar. Pois sei, vou encontrar no fundo dos meus sonhos o meu grande amor.
