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Sou um músico medieval?

Por André Drago
15 de fevereiro de 2026
Caravaggio - Os Músicos 1595

Caravaggio - Os Músicos 1595

O músico e a instabilidade histórica

Desde tempos medievais nós músicos sempre vivemos à margem da estabilidade econômica, sustentando-nos mais por reputação do que por contrato, nome ou salário. Muda o figurino, época e tecnologia, mas o lugar social do músico permanece instável, informal e facilmente descartável.
No Gradus ad Parnassum, no diálogo entre Aloysius e Josephus, isso aparece de forma cristalina: a música não é apresentada como um caminho para acúmulo de riqueza material. O valor está na proficiência e no bom nome. Ser músico não é promessa de fortuna — é compromisso com um saber.

Reconhecer que a música não está entre notas de dinheiro não significa aceitar exploração. E é aqui que o paralelo entre o músico medieval e o músico contemporâneo fica incômodo.
Na Idade Média, o músico não era um “profissional”. Ele era um dependente. Sem contrato, não havia direitos, não havia garantias. Se o mecenas morresse, perdesse poder ou mudasse de interesse, o músico simplesmente ficava sem trabalho.

Como hoje, não havia sindicato algum. Eram vistos como instáveis e pouco confiáveis. Isso ajuda a explicar a desunião da própria classe. Cada músico tenta sobreviver sozinho, competindo por migalhas, aceitando condições ruins para não “perder espaço”. O resultado é previsível: salários rebaixados e normalização da precariedade.

Nunca tivemos proteção real. Tratados como algo entre o artesanato supérfluo e o entretenedor descartável. Se na Idade Média a instabilidade vinha da dependência de senhores e igrejas, hoje ela vem da dependência de editais e prefeituras que pouco ou nada entendem do que fazem.

A precarização como regra

O músico contemporâneo também é contratado sem segurança contratual, quase sempre como prestador de serviço eventual. Não há direitos trabalhistas. A informalidade não é exceção: é a regra. Casas de show exploram artistas com cachês irrisórios sob o argumento de “visibilidade”. Festivais pagam mal e exigem estrutura cara. Produtores repassam o risco inteiro para o músico.
E, como na Idade Média, se o “senhor” cai — hoje chamado de patrocinador, gestor cultural ou casa de show —, o músico cai junto.

Quando o Estado entra em cena — hoje, por meio de subsídios e editais —, o problema não desaparece, apenas muda de forma. Os editais exigem uma burocracia incompatível com a realidade material do músico. Projetos demoram seis meses, um ano, às vezes mais para serem avaliados e pagos. Nesse intervalo, o artista precisa sobreviver como?

E quando o recurso chega, o valor que “parece alto” no papel se dissolve rapidamente: é dividido entre vários músicos, técnicos, produção, impostos, divulgação. O que sobra, no fim, muitas vezes equivale a um salário abaixo do esperado, quando não abaixo do mínimo. Somam-se a isso a inflação do período e a impossibilidade de ajustar o orçamento depois de aprovado — e temos propostas inviabilizadas não por incompetência artística, mas por rigidez administrativa. É a velha lógica medieval do trovador que anima a festa, mas não senta à mesa.

O poder público e a sobrevivência do artista

A prefeitura de Maringá — como tantas outras — opta por contratar atrações de fora, ridiculamente irrelevantes para a formação cultural da cidade, pagando cifras que vão de 20 mil a 420 mil reais. Enquanto isso, músicos e bandas locais, que constroem público, linguagem e identidade cultural ao longo de anos, quando muito, recebem cachês que beiram o insulto: 300 reais por músico.
Não é força de expressão. Eu já toquei nesses eventos.

O recado é claro: o músico local não é visto como agente cultural, mas como decoração barata. Serve para “preencher grade”, “aquecer público”, “valorizar o evento” — desde que não custe nada. O dinheiro de verdade vai para fora.

E aqui o paralelo com o músico medieval se fecha de maneira cruel: ontem como hoje, o músico é chamado a demonstrar humildade espiritual enquanto alguém, em outro lugar, administra o dinheiro. A diferença é que, na Idade Média, ao menos não havia o discurso cínico da “valorização da cultura local” estampado em banner institucional.

O status do músico nunca esteve no dinheiro. Mas a sobrevivência sempre esteve.
Dizer que a música não deve visar riqueza não autoriza o poder público a normalizar a precarização. Proficiência não paga aluguel. Bom nome não compra comida. Reputação não substitui política cultural séria.

Há, porém, um dado novo e importante no horizonte.

Na Irlanda, foi aprovado recentemente um programa de renda básica voltado a artistas, incluindo músicos. A premissa é simples: a sobrevivência do artista garante a sobrevivência da arte. Não é caridade. É política cultural inteligente. O Estado reconhece que não existe produção simbólica consistente sem estabilidade mínima de vida. Isso resolve o essencial: o músico deixa de ser refém absoluto da contingência. Dignidade material não é luxo, é condição de possibilidade.

Se a cidade não investe nos seus músicos, ela não está economizando: está abrindo mão de si mesma. Cultura não se importa de fora, se constrói com continuidade, respeito e dignidade mínima de trabalho. Fingimos que isso é normal — e chamamos de “mercado cultural”.

Tags: André Dragodireitos trabalhistasEstúdio Dragogradus ad parnassumj. j. fuxmúsicoprecarização do trabalhoPrefeitura de Maringá

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