O Pensador
Uma vez fui tocar em Cascavel, em um dia de muita chuva, e o avião do Gabriel O Pensador não pôde pousar, retornando a São Paulo. Neste dia iríamos nos conhecer, pois ficaríamos no mesmo camarim. Éramos três atrações: a minha banda e dois palestrantes, entre estes o Gabriel.
Me frustrei por não tê-lo conhecido, pois o admiro desde criança. É um daqueles artistas que marcaram a minha geração, mas que, diferente de alguns que já não estão mais aqui, permaneceu e evoluiu. O conteúdo de suas músicas, sua visão de mundo e o entendimento do Rap continuam se transformando.
Como este texto foi escrito durante a semana desta publicação, não arrisco a narrativa do pretérito perfeito (visto a apresentação de Cascavel), mas nossa virada cultural selecionou justamente este artista para abrilhantar o evento neste sábado dia 15 (ontem). Se tudo correr bem, ao momento em que você estiver lendo isso, o Gabriel recém realizou um show histórico em nossa vila olímpica.
Já escutou essa música?
“Tás a Ver?” é uma canção que nos reflete como um espelho. Como Sócrates, Gabriel não tenta ensinar; ele pergunta. E ao perguntar, desmonta a ilusão de que estamos realmente vendo o que vemos. Ele devolve a responsabilidade a quem escuta: “tás a ver mesmo, ou só olhando?”
Essa música parte da observação do mundo e volta pro interior. Gabriel usa a viagem como metáfora: o horizonte é uma linha que parece separar, mas na verdade liga. O mar é ponte. E quem atravessa descobre que, do outro lado, as diferenças são apenas superfície. As vidas são muito mais iguais do que parecem — muda a língua, o rosto, o deus, mas a lágrima, o medo e o riso continuam com o mesmo sabor humano.
Há sabedoria na forma como ele observa o cotidiano. Quando diz que “a vida é feita de pequenos nadas”, está denunciando o nosso olhar distraído. Esses “pequenos nadas” são, na verdade, as âncoras da vida real: um gesto de gentileza, uma criança nascendo, o sol se pondo. Gabriel recusa o espetáculo e reafirma o essencial: o simples.
A força da música está no paradoxo que ela carrega — reconhecer a impossibilidade de traduzir o mundo inteiro em versos e, ainda assim, tentar. Ele mesmo diz: “Não vou mentir pra mim mesmo acreditando que uma música é capaz de expressar tudo isso, mas eu preciso acreditar na comunicação.” É essa teimosia em comunicar, mesmo diante do inefável, que faz do artista um sobrevivente.
O Rap, pra Gabriel, nunca foi só um gênero musical. É um meio de atravessar fronteiras invisíveis — de classe, de cultura, de alma. Ele olha o Brasil e o mundo de dentro e de fora ao mesmo tempo, com o olhar de quem entende que a dor é coletiva e o consolo também.
No fim, “Tás a Ver?” não é sobre enxergar o outro — é sobre reaprender a ver a si mesmo. É um convite à percepção ampliada, à coragem de sentir e dividir. Porque, como ele diz, “não há melhor antídoto pra solidão” do que comunicar-se de verdade.
Gabriel mostra que a poesia é um ato de resistência emocional — o gesto de quem, sem saber tudo, canta ao questionar. Talvez o segredo de sua longevidade como artista esteja justamente aí: na recusa de responder e na sabedoria de continuar perguntando.
Leia mais sobre a reposta do artista no texto: “Monja Coen e a Arte da Resposta” publicado nesta mesma coluna
“Estou a ver?”
A música “Tás a Ver” surgiu na minha vida durante minha primeira sessão de ayahuasca. Eu já a havia escutado uma ou duas vezes, no máximo, mas nesse dia pude apreciá-la sob o efeito do enteógeno — o que me colocou de frente com a minha própria existência, com a essência da minha coragem em tocar e em ser tocado.
Desde esse dia, as músicas cantadas em língua portuguesa tomaram outro sentido pra mim. A experiência me conduziu através da música pra realidade do que eu sentia, e não apenas pros efeitos matemáticos das estruturas no ouvido biológico. A música, que já fazia sentido no meu pensamento e sentimento, também começou a habitar minha mente e emoção.
Trabalhei por mais de uma década com Rap em Maringá, sem sentir o quanto o Rap é a realidade do nosso povo. Um ano atrás, um amigo rapper de vulgo “Meio-Kilo” me mostrou músicas que havia gravado em casa e contou as histórias. Nesse dia, acho que justamente por não estar em trabalho, fui atingido de maneira distinta pela mensagem que eu já ouvia há muitos anos — mas pelo lado musical, não social.
Aí entra o tal do “Tás a Ver?”. Aconteceu o meu próprio. Eu, que trabalhava há treze anos com isso, ainda não havia sentido, na emoção, o que significa isso pra quem realmente veio do lugar de fala que o Rap ocupa.
Há tanto rap por aí que nunca teve a mínima pretensão de se tornar um hit, mas são faixas em que as pessoas estão contando a própria realidade — se comunicando, narrando suas emoções, aventuras, vacilos e glórias. O Rap, nesse sentido, é uma lente que revela o ser humano como ele é: único, digno, paradoxal. É esse o segredo da exemplar adaptação deste estilo aos sinais dos tempos.
A canção questiona: até onde eu realmente enxergo o que estou vendo? Pergunta que mantém vivo o artista — e o ser humano — que não quer apenas ouvir música, mas enxergar entre notas.
Ouça a música:


