Um Coral Chamado Humanidade

Projeto é formado por 50 coralistas (Crédito: Cristiano Martinez)

Dezembro sempre concentra datas que revelam muito do modo como construímos nossa ideia de humanidade, e esta semana reúne algumas das mais emblemáticas: o Dia Internacional dos Direitos Humanos (10), o Dia Internacional da Dignidade das Vítimas de Genocídio (9), o Dia do Palhaço (10), o Dia Mundial do Canto Coral (segundo domingo de dezembro – muda todo ano) e o aniversário da morte de John Lennon (08). Cada uma dessas efemérides existe porque alguma ferida histórica exigiu ser lembrada. O Dia dos Direitos Humanos foi instituído em 1950 pela ONU, celebrando a adoção da Declaração Universal, ainda hoje o marco civilizatório mais importante do pós-guerra; já o Dia da Dignidade das Vítimas de Genocídio homenageia as memórias sufocadas pelos conflitos que persistem e que seguem exigindo vigilância ética. O Dia do Palhaço reconhece o papel social desses profissionais no cuidado humano, como lembrado na coluna de algumas semanas atrás: “O eco da vida e da música”, dedicada ao Doutor Palhaço (Dr. Flávio Falcone), que integra arte e saúde na cracolândia. E o dia que me estimulou a escrever o texto de hoje: o Dia Mundial do Canto Coral, criado em 1990 pela Federação Internacional de Música Coral, que nasceu da percepção de que cantar junto fortalece laços num mundo fragmentado. E vamos ver ainda como a lembrança da morte de John Lennon, em 8 de dezembro, reabre a discussão sobre responsabilidade artística diante da violência.

A ligação entre Lennon e os Direitos Humanos costuma recair sobre “Imagine”, que não é uma obra coral, mas se tornou símbolo de esperança coletiva (eu tenho comigo que uma das minhas primeiras memórias musicais é o clipe dessa música passando repetidamente de madrugada quando a programação cessava na televisão). Ao mesmo tempo, os Beatles se afirmaram como referência vocal do século XX, com harmonias que influenciaram gerações. O contraste entre essas harmonias e a brutalidade de seu assassinato evidencia como a arte convive com as contradições do mundo real. Lennon também dedicou parte de sua vida pós-Beatles à defesa da paz e à crítica à violência institucional, tornando-se figura que sintetiza a tensão entre ideal e realidade.

Essa reflexão reaparece no Dia Mundial do Canto Coral. A prática tem amplo respaldo científico: melhora funções respiratórias, reduz cortisol, sincroniza batimentos cardíacos e aumenta sensação de pertencimento. Mas, acima dos dados, o coral trabalha a escuta interna e externa. Desde 2021, participei do coro da graduação em Música da UEM, do Coro Escola-Universitário e do coro da UNATI, todos vinculados à Universidade Estadual de Maringá. Foram espaços fundamentais para meu desenvolvimento musical e pedagógico: aprendizado de repertório, prática de regência e amadurecimento auditivo. O ambiente coral transforma porque exige coordenação fina: cantar com o outro sem apagar o próprio timbre, ajustar-se sem desaparecer, sustentar o conjunto sem perder a própria linha. É metáfora concreta de convivência.

O contraste entre a tradição coral acadêmica e o canto coletivo popular, como o das escolas de samba, reforça a riqueza cultural brasileira. Não se trata de hierarquizar práticas por critérios eurocêntricos de contraponto entre notas; o samba-enredo é um dos maiores fenômenos de canto comunitário do país. Milhares de vozes no carnaval em uníssono constroem sonoridade que dispensa divisão por naipes para alcançar força estética. É um coral urbano que organiza memória, identidade e resistência. Incluo nessa homenagem o sambista Paquito, nascido em 9 de dezembro, cuja obra integra esse imaginário coletivo que transforma canto em território. Sua atuação no rádio e no samba urbano do século XX evidencia a potência do canto popular na construção de uma identidade compartilhada.

A aproximação com o Dia Internacional da Dignidade das Vítimas de Genocídio reforça a ideia de que a música pode funcionar como responsabilização. Grandes mobilizações artísticas, como “We Are the World”, recorreram ao formato coral para expressar solidariedade global. O gesto permanece atual: convivemos com guerras, perseguições étnicas e violações de direitos básicos. É nesse cenário que o canto coral — formal ou popular — ensina que nenhuma voz existe isolada. Direitos humanos não são teoria abstrata; são o mínimo para que qualquer grupo possa cantar junto.

Por isso, dezembro carrega sensação de balanço. Entre o encerramento de ciclos, a tradição natalina e a avaliação silenciosa do ano, surge o desejo de recuperar alguma forma de comunhão. O canto coral sintetiza esse movimento: oferece disciplina, escuta, paciência e a experiência concreta de estar com o outro. Se existe um fio que une todas as datas da semana (talvez do ano), é essa busca por dignidade compartilhada.

Nesse panorama, dezembro também funciona como uma espécie de espelho. Ele nos obriga a observar como usamos nossa voz ao longo do ano: se fomos capazes de sustentar a escuta, de defender dignidades ameaçadas, de apoiar quem tombou pelo caminho. É um convite para afinar a convivência antes dos próximos ciclos

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