Conquista do prêmio Gralha Azul representa ‘furar a bolha’, avalia Danilo Furlan

Crédito: Vitor Dias

O prestigiado Troféu Gralha Azul, que tem 50 anos de história nas artes cênicas do Paraná e está em sua 41ª edição, premiou a arte oriunda de Maringá.

Na noite desta segunda-feira, 1º dezembro, o bonequeiro, escritor e contador de histórias Danilo Furlan venceu a categoria de Figurino com seu trabalho em “Historieta”.

Em conversa com a reportagem, Furlan conta que esse espetáculo foi um presente de Cleo Cavalcanti, um convite que trazia como base, referência, o trabalho do mundialmente conhecido cineasta Tim Burton. “Isso abriu as portas para uma pesquisa grande com a linguagem de Tim Burton, com os figurinos dos bonecos, filmes… enfim, eu mergulhei no universo do Burton para construir esse figurino”, diz Furlan, que é graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e diretor da Cia Manipulando Teatro de Animação.

Na avaliação do figurinista, ganhar um prêmio dessa dimensão, sendo do Interior do Estado, é furar uma bolha gigante. “A gente tem sim, cada vez mais, pessoas do Interior sendo premiadas no Gralha Azul. Mas ainda assim, é furar uma bolha muito gigante. É uma conquista que me deixa muito feliz, muito realizado. Às vezes, a gente não é visto e percebido pelo teatro paranaense como um todo”, avalia Furlan, acrescentando que conquistar esse prêmio é a prova de que os artistas estão no Interior fazendo arte, existindo e resistindo.

Inclusive, o Gralha Azul destacou em 2025 que consagrou a diversidade e a descentralização da cena teatral paranaense, premiando espetáculos e profissionais da Capital e de outros municípios do Paraná. Foram 63 espetáculos inscritos e 34 homologados e avaliados. Ao todo, a premiação contemplou 17 categorias, entre elas melhor Espetáculo, Direção, Atriz, Ator, Dramaturgia e Revelação, além das indicações especiais feitas pelo Centro Cultural Teatro Guaíra, com apoio do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Paraná (Sated/PR) e do Sindicato dos Empresários e Produtores em Espetáculos de Diversões no Estado do Paraná (Seped/PR).

Crédito: Arquivo Pessoal/Danilo Furlan

Premiados
“O Medo da Morte das Coisas”, da Companhia Súbita de Teatro, levou o prêmio de Melhor Espetáculo. A atriz Maíra Lour que escreveu e atua neste espetáculo recebeu também o troféu de Melhor Direção com “Deriva”. Emocionada, ela dedicou as conquistas à sua mãe, a atriz Fátima Ortiz, sua “grande mestra”, e à memória de seu pai, o ator Enéas Lour, morto em 2024.

“Estou muito feliz. Os prêmios no teatro são sempre reconhecimentos coletivos, de muito trabalho de muitas pessoas juntas para criar e me sinto muito honrada”, disse Maíra. “Meu prêmio do espetáculo ‘Deriva’ engloba muitas pessoas talentosas numa cena contemporânea, e esse prêmio do espetáculo ‘O Medo da Morte das Coisas’ é um prêmio muito importante que dedico ao meu pai, por ter escrito e ter atuado, é um espetáculo muito potente e muito forte”.

A atriz Cleo Cavalcante foi também uma das vencedoras da noite e levou três estatuetas com “Historieta”, da companhia da qual faz parte, a Tato Criação Cênica. Cleo levou o prêmio da categoria Melhor Atriz em espetáculo para crianças e, juntamente com a sua companhia, garantiu o prêmio de melhor espetáculo para crianças e de melhor figurino, recebido por Danilo Furlan.

Ela destacou a importância da diversidade e fez um discurso potente e emocionado, homenageando a trajetória de Odelair Rodrigues, pioneira e uma das gigantes do teatro paranaense. “Foi uma surpresa, porque recebemos tantas indicações na primeira vez que a gente se inscreve. Para mim ser indicada já era um prêmio, e estou voltando para casa com três passarinhos”, afirmou.

“Isso é um reconhecimento de toda uma trajetória, a gente fica muito feliz. Odelair amava tanto o teatro, não consigo nem imaginar receber este prêmio sem homenageá-la. Todas nós merecemos estar onde a gente sonha estar e eu sinto a presença de Odelair comigo, ela que nos abriu tantos caminhos”, disse.

Homenagens
Além das premiações por categorias escolhidas pelo júri, o Teatro Guaíra, em conjunto com a Comissão de Avaliação e o Sated/PR, também concedeu dois Prêmios Especiais destinados a reconhecer trajetórias de destaque. Em 2025, Gabriela Grigolom, multiartista, atriz, diretora teatral e lammer, recebeu o Prêmio Especial pela sua contribuição ao teatro surdo.

“Estou extremamente emocionada e agradecida como surda de estar aqui representando a minha comunidade. O Teatro Guaíra é centenário e importante e, quando era pequena, me apresentei aqui uma vez, ganhei vários aplausos e estou aqui novamente, com o sonho realizado de estar aqui como artista, me orgulhando e recebendo este prêmio, meu coração está repleto de alegria”, disse.

A outra profissional homenageada da noite foi Carol Vaccari, técnica de iluminação que recebeu o prêmio especial de Técnico do Ano. Carol ressaltou a importância da visibilidade para as mulheres em uma área técnica predominantemente masculina. “É significativo estar aqui representando outras mulheres. Ser uma mulher técnica, no Interior do Estado, estar aqui recebendo esse prêmio e essa homenagem, é uma honra e uma alegria muito grande”, disse.

Crédito: Vitor Dias

Premiação e os critérios
O Troféu Gralha Azul foi criado em 1974 pelos artistas Edson D’Ávila, Delcy D’Ávila, Yara Sarmento e Waldir Manfredini, e foi o primeiro troféu oficial dedicado a homenagear artistas e técnicos do teatro no Paraná, tornando-se um marco de reconhecimento na arte cênica paranaense. A premiação foi oficializada pela então Fundação Teatro Guaíra em 1983 e se firmou como a mais tradicional e relevante premiação do teatro paranaense e símbolo de excelência, reconhecendo o talento, a diversidade e a força criativa que movem a produção teatral profissional do Paraná. Neste ano, o prêmio Gralha Azul foi reformulado para atender as reivindicações da categoria que solicitou alterações no formato da premiação e critérios que garantissem a maior participação de grupos socialmente minorizados, incluindo mulheres, pessoas negras, indígenas, integrantes de comunidades tradicionais (como terreiro e quilombolas), pessoas com mais de 60 anos, populações nômades e povos ciganos, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência.

Os critérios foram aplicados tanto para profissionais nas categorias individuais quanto para espetáculos com mais da metade da equipe composta por membros desses grupos. A comprovação foi feita por meio de autodeclaração, documento obrigatório no processo.

Além das ações afirmativas, o edital trouxe outras mudanças para ampliar o acesso. Com o objetivo de reduzir as dificuldades de participação de companhias de outros municípios do Paraná, os jurados, que foram selecionados por meio de um chamamento público específico, puderam analisar trabalhos apresentados fora de Curitiba e de sua Região Metropolitana. O edital de 2025, tanto o do Prêmio Gralha Azul quanto o do credenciamento para a comissão julgadora, foram construídos através de conversas do Centro Cultural Teatro Guaíra com o Sindicato dos Artistas (Sated-PR), representantes da classe, políticos apoiadores da cultura e diversos agentes.

“Foram analisadas as mais diversas demandas, desde ações afirmativas até adequação do valor pago aos jurados. Os editais propostos foram disponibilizados em consulta pública para que todos pudessem participar e promover editais que atendessem democraticamente aos anseios da classe”, explicou Aldice Lopes, diretor artístico do Centro Cultural Teatro Guaíra.

Após todo o processo de consulta e adequação, os editais foram encaminhados à Procuradoria-Geral do Estado. “Foi uma construção coletiva e, pela primeira vez em 30 anos, o Centro Cultural Teatro Guaíra possibilitou que os jurados pudessem assistir aos espetáculos em outros municípios do Paraná para atender plenamente as diretrizes do edital”, disse.

Com informações do Centro Cultural Teatro Guaíra

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