Um levantamento inédito da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados revelou que o debate sobre menstruação nas redes sociais brasileiras é mais amplo e engajador do que muitos imaginam. Entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, foram analisadas mais de 173 mil publicações sobre o tema, que juntas acumularam 12,4 milhões de interações. Embora a maioria das postagens trate a menstruação de forma mais leve, como memes ou relatos sobre cólicas e TPM, os conteúdos com enfoque social e político têm repercussão significativamente maior.
Segundo Ana Klarissa Leite e Aguiar, diretora de Inteligência de Dados da Nexus, as publicações com viés social e político, que abordam temas como pobreza menstrual, impacto na educação e trabalho, programas públicos de apoio e licenças menstruais, tiveram interação média 1,8 vez maior do que os demais conteúdos. “Quando falamos dessa temática com enfoque social e político, percebemos que as pessoas têm interesse e estão engajadas para ouvir e interagir com conteúdos que tratam de aspectos importantes para a questão menstrual”, afirma Ana Klarissa.
O levantamento identificou que o tema mais frequente nas redes continua sendo o relato de sintomas, como cólicas e dor menstrual, presente em 45% das publicações. Saúde feminina em geral aparece em 20% dos posts, seguida por TPM (17%) e alternativas de absorção, como coletores menstruais e calcinhas absorventes, com 12%. No entanto, os subtemas que despertam maior engajamento são aqueles relacionados a políticas públicas e situações extremas, como “menstruação em crises humanitárias” e “licença menstrual”, mesmo com baixo volume de postagens. O primeiro representou apenas 0,34% das publicações, mas teve a maior média de interações por post, 870,3, enquanto “licença menstrual” teve engajamento sete vezes maior que sua quantidade de postagens.
De acordo com Ana Klarissa, esses dados indicam que os debates com viés social e político possuem mais “poder de narrativa”. “As pessoas interagem mais com conteúdos que abordam dignidade, impacto na educação e no trabalho, do que com relatos do dia a dia sobre TPM ou cólicas. O engajamento indica que há interesse genuíno pelo tema, não apenas pela informação prática ou humor”, avalia.
No contexto da mobilização social, iniciativas como o Programa Dignidade Menstrual, do Governo Federal, que distribui absorventes a pessoas em situação de vulnerabilidade, têm reforçado o debate e ampliado o alcance das discussões. Projetos de lei, como a proposta de licença menstrual, também contribuem para gerar interesse e engajamento sobre direitos e equidade de gênero.
Entre as organizações que atuam para promover a dignidade menstrual, destaca-se a ONG Fluxo Sem Tabu, criada em 2020 por Luana Escamilla, então com apenas 16 anos. A organização já impactou mais de 28 mil mulheres em todo o Brasil e atua com voluntárias em projetos que vão além da distribuição de absorventes, promovendo educação e transformação de espaços físicos. Entre as iniciativas está o “Banheiro Fluxo”, que busca tornar banheiros mais seguros e acolhedores, com informações sobre saúde menstrual. Luana ressalta que a pobreza menstrual vai muito além da falta de absorventes, abrangendo também infraestrutura, acesso à informação e cuidados médicos.
A ONG também desenvolve campanhas educativas, como ações sobre menstruação e esporte, alcançando atletas em situação de vulnerabilidade. A meta da Fluxo Sem Tabu é impactar 50 milhões de pessoas até 2030, utilizando canais físicos e digitais para disseminar informações de qualidade sobre saúde menstrual e promover a equidade de gênero.
O levantamento da Nexus demonstra que o debate sobre menstruação nas redes sociais é muito mais do que uma discussão sobre sintomas ou produtos: trata-se de uma pauta de direitos humanos, educação, saúde e dignidade, capaz de mobilizar a sociedade e influenciar políticas públicas. A crescente participação do público digital mostra que há demanda por informação, conscientização e ações concretas, reforçando a importância de iniciativas como o Programa Dignidade Menstrual e projetos de organizações civis.
O estudo evidencia ainda que as redes sociais funcionam como uma forma de escuta social, revelando interesses e necessidades da população, enquanto fortalecem a visibilidade de temas que historicamente foram negligenciados. A integração entre engajamento digital e ações sociais concretas promete ampliar a conscientização e promover mudanças significativas para a vida de milhões de pessoas que menstruam no Brasil.
Agência Brasil