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O peso da anilha da autoanálise

Por Redação O Maringá
30 de dezembro de 2025
Eduardo Xavier / Imagem: Arquivo Pessoal

Eduardo Xavier / Imagem: Arquivo Pessoal

COLUNA EPIFANIAS DO COTIDIANO

Eduardo Xavier

 

Alguns sons marcam minha rotina agora. Não é o barulho ensurdecedor do vazio que eu tentava preencher antes. É o clangor metálico das anilhas, o silvo da esteira, o gemido honesto de um músculo levado ao limite. A academia entrou na minha vida. E, com ela, veio um convidado inesperado para meu treino diário: um espelho. Não aquele da parede, da vaidade, que reflete um sujeito suado e um físico em transformação. Um espelho psíquico, cruel e revelador, que me obrigou a encarar uma pergunta capaz de derrubar qualquer ego num supino: Quanto de você existe naquilo que você odeia?

A frase é comumente atribuída a Sigmund Freud, embora não apareça literalmente em seus textos, segundo estudiosos da psicanálise. Que seja. Ela é, no mínimo, um hack psicológico, uma síntese do conceito de projeção da obra freudiana.

A psicanálise explica, com a delicadeza de um coice de cavalo, que temos um hábito patético: expulsamos de nós, com a força de um catapultamento, tudo aquilo que não suportamos enxergar no próprio reflexo. Atribuímos ao outro, ao colega de trabalho, ao familiar, ao estranho na rua, sentimentos, desejos e falhas que são nossos, mas que nos causam tanta repulsa que preferimos vê-los como um filme projetado na tela alheia.

Pare um segundo e reflita: você já se pegou odiando alguém? Não um desagrado leve, um incômodo passageiro. Falo daquele ódio que fermenta, que aquece o rosto, que ocupa espaço mental de graça, como um inquilino maleducado que não paga aluguel. Aquela repulsa intensa e desproporcional pelo jeito que fulano fala, pelo vício de cicrano, pela vaidade de beltrano. Onde está a intensidade exagerada? No objeto do seu desprezo… ou naquilo que ele espelha em você, algo que você trancou a sete chaves e jurou nunca deixar sair?

A teoria é: quanto mais inaceitável é um traço dentro de nós, mais violenta será a rejeição quando o encontrarmos com asas, solto por aí. A pessoa que esbraveja contra a “fraqueza” alheia pode estar, no fundo, aterrorizada com seu próprio medo de ser frágil. Aliás, a fragilidade é um dos traços mais bonitos do ser humano. Quem critica com fúria a “ignorância” do outro pode temer, secretamente, as lacunas do próprio conhecimento. É um jogo de espelhos tortos, onde apontamos o dedo para a imagem distorcida e gritamos: “Olha como você é feio!”

E eu tenho uma história pessoal para ilustrar isso. Anos atrás, no tormento da adicção ativa, quando eu usava substâncias psicoativas para anestesiar a existência, eu tinha um desprezo olímpico por quem frequentava academia. Eu, mestre da autossabotagem, olhava para aquelas pessoas suando no leg press com um misto de pena e desdém. “Perda de tempo”, “futilidade”, “neuróticos buscando um corpo impossível”: eram as frases que eu disparava, com a arrogância de quem achava que destruir o próprio templo era um ato de liberdade superior a cuidar dele. Eu projetava neles toda a minha incapacidade de cuidar de mim, o meu ódio pelo meu próprio corpo, que eu tratava como um depósito de químicas. Minha crítica era um grito abafado do que não admitia: eu tinha inveja da disciplina que eu não possuía, do cuidado que eu me negava, do futuro que eu estava incendiando.

A vida, meus amigos, tem um senso de humor tão ácido que deveria vir com aviso na embalagem.

Hoje, em recuperação, limpo e sóbrio, aquele mesmo lugar que eu desprezava se tornou meu endereço certo. Vou puxar ferro seis vezes por semana com a devoção de um monge. Faço dieta com orientação de uma nutricionista. Como ovo no café, tomo whey protein e creatina em busca de mais proteína para ganho de massa magra, recuperação muscular e definição. E, pasmem, perguntei ao dono da academia se abriria na véspera e no Natal e, às vezes, dá vontade de treinar duas vezes no mesmo dia.

Na linguagem das redes sociais, diria que estou me tornando quem eu mais temia. Contudo, observo certos comportamentos, como alguém olhando intensamente para grande espelho da academia – um olhar 43 para si –, com expressão de admiração, como Narciso na poça d’água, e julgo ser esquisito. Olha a projeção de novo.

Quem era eu, que havia passado anos fugindo do próprio reflexo porque não suportava o que via, para julgar alguém que, talvez, estivesse apenas se reconciliando com a própria imagem? Aquele “narcisismo” que eu criticava era, na verdade, o espantalho da minha própria dificuldade em me aceitar. Odiar a vaidade alheia era um truque sujo para não lidar com minha própria falta de autoestima.

Descobri que a academia, para mim, não é para ficar musculoso. Cada repetição é uma página riscada do manual de autodestruição. O supino não é para o peito, é para levantar o peso da culpa. A esteira não é para as pernas, é para correr em direção a um futuro do qual eu tinha desistido. A ciência explica: a atividade física libera endorfina, dopamina, serotonina, os mesmos “hormônios da felicidade” que eu buscava, de forma falsa e destrutiva, nas substâncias. A diferença é que aqui a recompensa é legítima, construída, merecida. É a neuroquímica da recuperação, não da fuga.

A atividade física é um pilar científico da reabilitação. Reforça a saúde mental, previne recaídas, reconecta mente e corpo. Cada fibra reparada é uma metáfora. Mas vou lhes contar o motor mais profundo, o mais visceral que me impulsiona para a esteira e para os halteres: é latente e transformador. O medo que foi plantado no fundo do poço e que agora rega minha disciplina. É o medo de, um dia, na velhice, depender de alguém para fazer algo básico sozinho, como urinar. Pode parecer grotesco, mas é verdade nua e crua.

A vida é irônica, sim. Ela pega o seu ódio mais visceral, amassa, transforma e devolve como sua própria salvação. O autoconhecimento, percebi, é igual ao treino de musculação: diário, dolorido às vezes, e absolutamente não negociável.

Portanto, eu te desafio. Da próxima vez que você sentir aquela repulsa intensa, aquele ódio desmedido por um hábito, uma característica ou uma pessoa, pare. Respire fundo. E vire o telescópio para dentro. Pergunte-se, com a coragem de quem encara um espelho sem filtro: “O que isso está mostrando sobre mim? Que parte minha, que eu tranquei e joguei no porão, está gritando através desse incômodo?”

O caminho para fora de nós mesmos sempre passa pelo corredor mais escuro. A academia me ensinou que os pesos mais difíceis de levantar não são os de ferro, mas os que carregamos na alma. E o maior músculo que você pode desenvolver não está no seu corpo. Está na sua coragem de encarar, no espelho do ódio alheio, o próprio reflexo que você ainda precisa aprender a amar.

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