O cinema europeu está de luto com a morte da atriz franco-italiana Claudia Cardinale, referência do cinema dos anos 1960, estrela de clássicos como Era Uma Vez no Oeste (1968), obra de referência de Sérgio Leone. Ela morreu nesta terça-feira, 23, aos 87 anos, em Nemours, perto de Paris, onde morava, anunciou seu agente à AFP. Ela estava junto de seus filhos no momento.
Nascida em 1938 na Tunísia, filha de mãe francesa e pai italiano, Claudia Cardinale trabalhou com diretores como Luchino Visconti, Federico Fellini, Richard Brooks, Henri Verneuil e Sergio Leone. “Ela deixa o legado de uma mulher livre e cheia de inspiração tanto em sua trajetória de mulher quanto de artista”, declarou seu agente, Laurent Savry, em uma mensagem enviada à AFP.
Musa do cinema italiano, ao lado de Sophia Loren, Cardinale ascendeu à fama após ganhar um concurso de beleza em 1957, com 17 anos, cujo prêmio a levou para o Festival de Veneza e se desdobrou em contratos cinematográficos.
“Eu não queria me dedicar ao cinema. Era minha irmã que queria. Mas insistiram tanto (…) que meu pai cedeu”, confessou na France Inter.
A partir das décadas seguintes, tornou-se uma das estrelas italianas mais proeminentes do período, tendo atuado em obras clássicas como 8 1/2 (1963), O Leopardo (1963), dois filmes seminais que rodou ao mesmo tempo e exigiam dela talentos diferentes.
Em entrevista concedida ao jornal Le Monde em 2017, Cardinale recordou a experiência de atuar em 8 1/2 e O Leopardo ao mesmo tempo.
“Visconti era preciso e meticuloso, falava comigo em francês e queria que eu tivesse longos cabelos castanhos. Fellini era caótico e não tinha um roteiro, falava comigo em italiano, cortou o meu cabelo e tingiu de loiro. Esses foram os dois filmes mais importantes da minha vida.”
Claudia ficou conhecida nos Estados Unidos com seu papel em A Pantera Cor-de-Rosa (1963), de Blake Edwards, e passou a atuar no país nos anos seguintes, embora não sem alguma resistência. Em 1964, foi filha de Rita Hayworthem O Fabuloso Mundo do Circo. Em 1968, atuou em Era Uma Vez no Oeste (1968), obra de referência de Leone. No entanto, voltou para a Europa a partir da década de 1970.
Com quase 150 longas-metragens em seu currículo, Cardinale continuou trabalhando nas décadas seguintes, sobretudo com o diretor Pasquale Squitieri, seu companheiro por quase 30 anos, morto em 2017.
Ao longo de sua carreira, recebeu o Prêmio Pasinetti de Melhor Atriz em 1984 (em Veneza, por Claretta, de Squitieri), o Leão de Ouro em 1993 e o Urso de Ouro, em Berlim, em 2002.
Vítima de estupro
Claudia engravidou aos 19 anos após ser vítima de um estupro, e tornou-se mãe às escondidas. Seu filho mais velho, Patrick, foi criado pelos avós, e tratado como irmão de Claudia até completar sete anos. O mentor da atriz, o produtor Franco Crisaldi, adotou o rapaz, que recebeu seu sobrenome. Mais tarde, ela deu à luz Claudia Squitieri, fruto do casamento com Pasquale. No ano 2000, tornou-se Embaixadora da Boa Vontade da Unesco pela defesa do direito das mulheres.
Cláudia Cardinale com Milton Nascimento
Em 1982, Claudia Cardinale viveu um período de aventura na Amazônia, enquanto participava das filmagens de Fitzcarraldo, clássico do clássico do diretor Werner Herzog.

Estrelado pelo ator alemão Klaus Kinski, o filme conta a história de um explorador que tenta construir uma casa de ópera no coração da floresta Amazônica, se envolve com índios, peruanos e seringueiros. O filme é falado em inglês, espanhol, alemão, italiano, português e língua campa.
Na época, Claudia Cardinale conviveu com atores brasileiros como Grande Otelo, José Lewgoy e, principalmente, o cantor Milton Nascimento, que era ídolo dela e estava no filme a convite de Herzog, que era seu amigo pessoal.
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