Acordeon tem diferentes sotaques ao redor do Brasil, diz regente da Orquestra Sanfônica

Apresentação da Orquestra Sanfônica Convida Marcelo Jeneci, em Marialva (Crédito: Cristiano Martinez)

Sanfona, gaita, acordeon (ou acordeão, acordeom). Em diferentes partes do Brasil, esse instrumento de fole, palhetas livres e duas caixas harmônicas de madeira tem nomes e “sotaques” diferentes. Ou seja, jeitos de falar, de se expressar, carregando parte da cultura local.

No último sábado, 29 novembro, o público de Marialva, cidade localizada na Região Metropolitana de Maringá (RMM), pôde escutar e ver o acordeon tocado pela Orquestra Sanfônica de Pato Branco, que trouxe a sonoridade do Sudoeste do Paraná, muito influenciada pelo sotaque sulista e a fronteira argentina. Mas sempre com visão universal da música.

Com quase duas décadas de trabalho, a Orquestra está em turnê pelo Interior do Paraná com o cantor, compositor a instrumentista de renome nacional Marcelo Jeneci, passando com o projeto Sesi Música 2025 (do Sesi Cultura Paraná) por cidades como Planalto, Toledo e agora a Capital da Uva Fina, cujo espetáculo ocorreu no Cine Teatro Sônia Silvestre. Sempre com entrada gratuita.

Em entrevista à reportagem, após o show, o acordeonista e regente da Orquestra Diego Guerro explicou que o acordeon é um instrumento amplo, com diferentes sotaques e nomes ao redor do Brasil. “É essa mistura: o jeito de tocar do nordestino, que é mais ‘manso’, do sulista é um pouco mais ‘agressivo’, mais marcado, que tem a ligação com a fronteira argentina, um pouco de influência do tango, do chamamé. É o Brasil que respira através do fole, que respira e se expressa”, acrescentando que, na região de Pato Branco, os imigrantes italianos são maioria e o acordeon chegou ao Sul do Brasil por meio dos viajantes vindos da Itália.

Tocar o acordeon também é carregado de nostalgia, pois parte do público diz que esse instrumento o faz recordar avôs e tios que o tocaram em festas familiares. “A Orquestra Sanfônica é benquista lá [em Pato Branco]. É sempre com casa cheia, é uma festa”, diz Guerro, explicando que estão com grande expectativa de tocar no próximo dia 14 de dezembro na terra natal, com Jeneci nesse projeto do Sesi. Será no aniversário da cidade, na Praça Getúlio Vargas, ao ar livre.

A Orquestra conta com apoio de instrumentos de corda e percussão em suas apresentações.

Diego Guerro é acordeonista e regente da Orquestra Sanfônica de Pato Branco (Crédito: Cristiano Martinez)

Primeira vez em Marialva
Tanto a Orquestra Sanfônica quanto Marcelo Jeneci se apresentaram pela primeira vez na Capital da Uva Fina. Aliás, ambos elogiaram o teatro local, que foi inaugurado em 2018. Trata-se de um equipamento cultural público com capacidade para mais de 600 lugares, sendo palco para espetáculos, shows, exibições de filmes e eventos artísticos em geral. A casa fica na avenida Cristóvão Colombo, ao lado do Ginásio de Esportes José Gomes Colhado.

No concerto de sábado, a Orquestra protagonizou a primeira parte, apresentando suas influências sulistas e da fronteira argentina. Tudo de maneira instrumental. Mas rolou também um pedacinho de “Asa Branca”, clássico nordestino imortalizado na sanfona de Luiz Gonzaga. Já na metade final do espetáculo, Jeneci subiu ao palco para cantar seus sucessos junto com os integrantes de Pato Braco e tocar dois instrumentos simultaneamente, além também da sanfona.

Durante o show, o músico convidado contou que seu pai é um dos pioneiros da eletrificação da sanfona no país. Aliás, nomes lendários como Dominguinhos e Sivuca frequentaram a oficina e Jeneci os conheceu dessa maneira. Segundo informações oficiais, este ganhou sua sanfona de Dominguinhos e não a abandona, inserindo-a sanfona em um contexto contemporâneo, unindo-a a sintetizadores analógicos, beats programados, arranjos sinfônicos, melodias e letras marcantes.

“Acima de tudo, sou um grande fã do Marcelo. Mas a nossa convergência é justamente por conta das captações de acordeon que o pai dele faz. Através disso, eu o conheci”, explica o regente Diego Guerro. Inclusive, a sintonia com a Orquestra é por causa do trabalho de Jeneci em levar o acordeon para lugares pouco comuns ao instrumento, como é o caso do rock, misturando com o forró. “A Orquestra Sanfônica também é isso, tirando a música da essência regional para levar a um panorama mais universal, mais amplo”, completa Guerro.

Com o convite aprovado à época de formatação do projeto, a Orquestra começou a trabalhar no início de novembro nos arranjos (de Maycon Ananias) que seriam utilizados na turnê do Sesi. “Foi quase uma operação de guerra para ficar tudo pronto”, recorda o regente, explicando que Jeneci esteve com eles em Pato Branco para o ensaio, quando deu liga logo de cara, e já partiram para o primeiro show. Guerro diz que está bem contente com o resultado e a realização das ideias.

A cada apresentação, o trabalho conjunto ganha sintonia, se azeita e ganha novos arranjos. Por exemplo, em Marialva o hit do repertório de Jeneci, “Felicidade”, foi em ritmo de xote. “Ficou maravilhoso. A gente vai testando. A diversão é essa. A música da Orquestra também tem muito do improviso e o Marcelo gosta disso”, finaliza o regente.

Orquestra tem quase duas décadas de história (Crédito: Cristiano Martinez)

Trajetória da Orquestra
Segundo a Ag. Est. de Notícias, o projeto da Orquestra Sanfônica de Pato Branco começou em julho de 2006 e teve como mentora Divina Scopel Martins. Ela teve a ideia de reunir os gaiteiros ou sanfoneiros da cidade, como são popularmente chamados os acordeonistas. Naquela época, a proposta era simples: promover encontros entre os músicos e os apaixonados pela sanfona para tocar em ensaios aos finais de semana. Inicialmente participavam cerca de vinte pessoas.

De lá para cá, o grupo cresceu em tamanho e história, conquistando seu espaço. Quase 20 anos depois, mais de 100 músicos já passaram pela Orquestra Sanfônica de Pato Branco. Muitas pessoas que integraram o grupo acabaram se profissionalizando na música, outras têm a atividade como um hobby, uma paixão.

Em 2019, a Orquestra Sanfônica alcançou projeção internacional a partir de um convite para participação no Recanati Art Festival, na Itália. Na mesma viagem, os músicos tiveram passagem por outras cidades da Itália e também pela França.

A Orquestra Sanfônica de Pato Branco já foi declarada de Utilidade Pública Municipal e Estadual. O projeto foi contemplado em editais da Lei Aldir Blanc e conta com incentivo à cultura no âmbito federal. Participaram também do último edital do Profice nas categorias Música e Audiovisual.

Marcelo Jeneci tocou pela primeira vez em Marialva (Crédito: Cristiano Martinez)

Sesi Música
Desenvolvido pela Gerência de Cultura do Sesi e realizado pelo Sesi Cultura PR, o projeto Sesi Música promove apresentações com o objetivo de difundir a cultura musical, formar plateias e fomentar a produção artística no Paraná e no Brasil.

A iniciativa valoriza o encontro criativo entre artistas, aproximando o público de nomes consagrados nacional e internacionalmente e revelando intérpretes e compositores da cena musical paranaense.

Sair da versão mobile