O verão no Brasil é marcado por altas temperaturas e um aumento considerável de fatores que podem desencadear doenças cardiovasculares, especialmente o acidente vascular cerebral (AVC). Segundo o neurocirurgião e neurorradiologista intervencionista do Hospital Quali Ipanema, no Rio de Janeiro, Dr. Orlando Maia, o risco de AVC tende a crescer nesse período devido a uma combinação de calor intenso, desidratação, hábitos de vida e fatores ambientais.
O AVC é uma das doenças cerebrovasculares mais comuns no mundo e pode ser classificado em dois tipos principais: hemorrágico e isquêmico. O hemorrágico, menos frequente, representa cerca de 20% dos casos e ocorre devido ao rompimento de um vaso cerebral. Já o isquêmico, que domina a estatística, é provocado por um coágulo que entope um vaso sanguíneo, comprometendo o fluxo de sangue ao cérebro.
Como o calor influencia o risco de AVC
Durante o verão, a exposição ao calor intenso provoca desidratação, tornando o sangue mais espesso e concentrado. Essa condição aumenta a tendência à coagulação, favorecendo a formação de trombos, que podem causar o AVC isquêmico. Dr. Orlando Maia explica:
“O calor gera uma desidratação natural das células que aumenta a possibilidade de coagulação do sangue. Isso tem um maior potencial de gerar AVC, porque o AVC está ligado a coágulo.”
Além disso, o calor provoca vasodilatação, fazendo com que a pressão arterial caia. Essa queda na pressão, embora pareça benigna, pode aumentar a chance de formação de coágulos e provocar arritmias, que são batimentos cardíacos irregulares. Quando o coração apresenta arritmia, há maior probabilidade de coágulos circularem e atingirem o cérebro, aumentando o risco de AVC.
Bebida alcoólica e negligência com saúde
O consumo de álcool no verão, muitas vezes impulsionado por férias e atividades sociais, contribui para a desidratação e eleva a chance de arritmias. Segundo o médico, o descuido com a medicação, alimentação inadequada e excesso de esforço físico durante os dias quentes podem agravar ainda mais os fatores de risco.
Tabagismo e doenças crônicas
O tabagismo é outro fator determinante para o desenvolvimento de AVC. A nicotina afeta diretamente a elasticidade dos vasos sanguíneos, favorecendo tanto o AVC hemorrágico quanto o isquêmico. O fumo contribui para inflamação vascular e formação de placas de colesterol, aumentando o risco de obstrução e rompimento dos vasos cerebrais.
Doenças crônicas não controladas, como hipertensão, diabetes e colesterol elevado, somadas a hábitos de vida pouco saudáveis, tornam cada vez mais comum o desenvolvimento de AVC em pessoas com menos de 45 anos.
Sintomas e prevenção
O AVC é extremamente incapacitante e uma das principais causas de morte no mundo. Além da mortalidade, a doença pode deixar sequelas graves, como paralisia de um lado do corpo, dificuldade de fala ou comprometimento da visão. Dr. Orlando Maia ressalta que a doença afeta não apenas o paciente, mas toda a família, que muitas vezes precisa assumir cuidados intensivos.
Os sintomas que indicam a ocorrência de AVC incluem:
Paralisia súbita de um lado do corpo
Dificuldade para falar ou fala enrolada
Perda súbita de visão em um dos olhos
Tontura intensa ou perda súbita de consciência
A prevenção é fundamental e envolve hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, controle da pressão arterial, adesão correta à medicação prescrita e abstinência do tabaco e álcool em excesso.
Tratamento emergencial
O tratamento do AVC é mais eficaz quanto mais rápido o paciente receber atendimento hospitalar. Atualmente, existem duas abordagens principais:
Infusão de medicamento trombolítico: administrado via veia, dissolve o coágulo e restaura a circulação sanguínea. O medicamento deve ser aplicado até 4 horas e meia após o início dos sintomas.
Cateterismo endovascular: um cateter é inserido na virilha e conduzido até o vaso afetado, onde realiza a aspiração do coágulo. Esse procedimento pode ser feito até 24 horas após o início dos sintomas, dependendo do caso.
Dr. Orlando Maia enfatiza que quanto mais rápido o paciente é atendido, maiores são as chances de recuperação completa e menores os riscos de sequelas permanentes.
Impacto do verão nos atendimentos
No Hospital Quali Ipanema, o volume de atendimentos por AVC dobra durante o verão, chegando a cerca de 30 pacientes por mês. O neurocirurgião alerta que a combinação de calor, desidratação, consumo de álcool, tabagismo e doenças crônicas faz com que o risco aumente significativamente nesse período.
Considerações finais
O AVC é uma doença grave e silenciosa, mas prevenível. A conscientização sobre fatores de risco, o reconhecimento precoce dos sintomas e a busca imediata por atendimento médico podem salvar vidas e reduzir sequelas. Manter hábitos de vida saudáveis, hidratação adequada e evitar excessos são medidas simples, mas essenciais, para proteger a saúde cardiovascular, especialmente nos dias mais quentes do ano.


