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Tradição, fé e cuidados: o aumento da procura por banhos e ervas no fim de ano no Rio de Janeiro

Por Agência Brasil
1 de janeiro de 2026

No Rio de Janeiro, o aroma das ervas se mistura ao conhecimento popular nas feiras, bancas de rua e mercadões espalhados da zona norte à zona sul. Nesses pontos de venda, saberes transmitidos por gerações oferecem chás, xaropes, escalda-pés, banhos e outras preparações que, mesmo sem comprovação científica para tratar doenças, promovem bem-estar, principalmente no período de fim de ano, quando a procura por banhos energéticos e rituais cresce significativamente.

Na Rua da Carioca, no Centro, o erveiro José Adaílton de Souza Ferreira mostra seu carrinho de mão repleto de plantas como macassá, levante, manjericão, arruda, alfazema, alecrim e sálvia — ervas muito procuradas para banhos de descarrego ou energizantes, usados para afastar inveja, abrir caminhos e melhorar a disposição. Segundo ele, o uso é simples: cozinhar ou esfregar a planta e aplicar da cabeça aos pés, proporcionando alívio e sensação de renovação.

Além de rituais espirituais, algumas ervas também são usadas em cuidados caseiros de saúde. Espécies como saião, guaco e assa-peixe entram em xaropes caseiros, mas o foco maior dos erveiros continua sendo o uso religioso e energético. Nas religiões afro-brasileiras e indígenas, as folhas carregam o axé, a força vital que conecta o mundo espiritual ao físico, e cada tipo tem uma função específica, seja para oferendas, banhos ou purificação.

Para a Mãe Nilce de Iansã, do terreiro Ilê Omolu Oxum, na Baixada Fluminense, “Kò si ewé, kò si Orixá” — sem folha não há Orixá, porque o Orixá é a própria natureza. Segundo ela, o conhecimento ancestral dos ialorixás e babalorixás, responsáveis por prescrever o uso das ervas, garante que cada pessoa receba a orientação adequada, respeitando a finalidade de cada ritual.

Mesmo com a falta de comprovação científica sobre a eficácia desses banhos, estudos mostram que rituais e práticas religiosas podem trazer benefícios ao bem-estar. Aline Saavedra, doutora em biologia vegetal pela Uerj, explica que a sensação de proteção e energia positiva durante o ritual muda a química do cérebro, promovendo efeitos benéficos à saúde emocional.

No entanto, o uso das plantas exige precaução. Alguns chás podem causar toxicidade se usados por períodos prolongados, e folhas secas moídas podem ser confundidas com espécies semelhantes. Aline recomenda que o uso seguro seja feito com plantas conhecidas da culinária, como manjericão, orégano, sálvia e alecrim, sempre respeitando a dosagem adequada. Para orientação adicional, ela indica consultar ferramentas como o Horto Virtual da Universidade Federal de Santa Catarina, que fornece informações sobre origem, usos e possíveis efeitos adversos das plantas.

A identidade cultural também é parte importante desse trabalho. João*, erveiro do Bairro de Fátima, na região central do Rio, cultiva suas próprias ervas sem agrotóxicos e prefere não prescrever chás, vendendo apenas para clientes que sabem o que desejam. “As ervas de banho, de tempero, têm tudo a ver comigo, com minha religião, com minha origem e com minha identidade racial”, explica, exibindo mãos marcadas pelo cuidado com a terra e pelo contato constante com as plantas.

O aumento da procura por ervas e banhos energéticos no fim de ano reflete, assim, a conexão entre tradição, fé e bem-estar, enquanto especialistas alertam para os riscos e reforçam a importância do conhecimento correto para o uso seguro dessas práticas ancestrais.

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