Encontrar um caramujo desconhecido pela zoologia já seria uma grande surpresa para um cientista. Agora imagine identificar uma espécie que, além de nunca ter sido catalogada, não existe mais. Essa foi a descoberta dos pesquisadores Marcos de Vasconcellos Gernet, do Laboratório de Evolução e Diversidade Zoológica da Universidade Federal do Paraná (UFPR); Luiz Ricardo L. Simone, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP); e Fabiano Pinheiro, do Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais, também da UFPR.
Ao analisar um sambaqui (sítio arqueológico pré-colonial) de aproximadamente 3 mil anos, na Ilha do Teixeira, no litoral do Paraná, a equipe encontrou conchas de um caramujo terrestre pertencente ao gênero Thaumastus, que possui 38 espécies na América do Sul, sendo 18 delas registradas no Brasil. “Elas tinham entre 3 e 6 centímetros de comprimento, o que para um caramujo terrestre, é consideravelmente grande”, diz Gernet.
Mas os exemplares não correspondiam a nenhuma espécie já conhecida. A principal diferença estava na parte pontuda da concha, estrutura chamada de espira. Nos outros caracóis do mesmo grupo, essa ponta costuma ser mais longa. A superfície também tinha como diferenciais faixas marrom-avermelhadas e uma linha branca em espiral que os indivíduos do mesmo gênero não possuíam.
Após constatar a novidade, os pesquisadores passaram dois anos investigando a Ilha do Teixeira para localizar mais exemplares do caramujo identificado, e não encontraram. “Não achamos sequer conchas vazias, nem animais do gênero, mesmo no sambaqui ao lado”, diz o professor. “Nossa hipótese é de que eles viviam restritos ao mangue e dificilmente conseguiam acessar o continente”.
As 23 conchas encontradas no sambaqui foram limpas e depositadas no Museu de Zoologia da USP, e o artigo com a descrição do animal foi publicado no periódico Papéis Avulsos de Zoologia, da mesma instituição, no final de 2025. A espécie foi batizada como Thaumastus teixeirensis, em menção ao seu gênero e à ilha onde foi encontrada.
O que terá acontecido com Thaumastus teixeirensis?
Diante dos vestígios, uma das principais perguntas em aberto é: o que aconteceu com o teixeirensis? O desaparecimento pode estar ligado a uma rápida mudança no clima, marcada por um longo período de estiagem ou alterações no nível do mar, segundo o professor.
“Moluscos são sensíveis a mudanças climáticas. Quando o tempo está seco, eles se recolhem nas conchinhas até a umidade voltar para que eles possam se locomover e procurar alimento. Se o tempo úmido não volta, eles simplesmente não saem, e morrem”.
Uma ocupação mais intensa da ilha a partir do ano 1700 também pode ter contribuído com a extinção. “Possivelmente não seja a causa principal, mas pode ter ajudado, já que comunidades costumam comer caramujos terrestres”, argumenta.
Também não se sabe ainda como a espécie interagia com o ecossistema da Ilha do Teixeira e se o animal existiu em outros sambaquis ou áreas que ainda não foram escavadas ou estudadas.
Histórias que o sambaqui conta
A descoberta do Thaumastus teixeirensis reforça a importância dos sambaquis. A palavra, que deriva do tupi e significa monte de conchas, corresponde a sítios arqueológicos comuns em regiões costeiras, que foram construídos por grupos humanos vivendo no litoral brasileiro milhares de anos antes da colonização europeia.
“A presença de um sambaqui indica que ali havia populações que caçavam, pescavam e coletavam recursos da fauna e da flora locais”, explica Gernet. Assim, pesquisadores encontram desde restos de alimentos e esqueletos humanos até artefatos como anzóis, pontas de lança e outras ferramentas, que ajudam a reconstruir a história humana e da biodiversidade.

As conchas são importantes marcadores de um sambaqui porque resistem bem à ação do tempo e ajudam a preservar informações sobre o ambiente e os organismos que existiam na região. “Portanto, estudar os moluscos é fundamental para compreendermos nosso passado. A construção dos sambaquis dependia deles”.
Nesse sentido, o professor reforça a necessidade de proteger os sambaquis. As conchas que levaram à identificação da nova espécie, por exemplo, foram encontradas em uma área que estava sendo cimentada e se a intervenção tivesse avançado um pouco mais, os pesquisadores talvez nunca encontrassem os materiais que permitiram sua descrição. “É preciso preservar esses registros para que possamos entender como a biodiversidade mudou e ainda pode mudar”.
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