Em meio ao crescimento urbano de Aracaju, um grupo de mulheres mantém viva uma tradição centenária que também contribui para a preservação ambiental. As catadoras de mangaba da capital sergipana seguem mobilizadas para proteger as áreas de coleta do fruto nativo, ameaçadas pela expansão imobiliária e pela redução dos remanescentes de vegetação.
A atividade extrativista, responsável pelo sustento de dezenas de famílias, é desenvolvida em um território formado pela Reserva Extrativista Mangabeiras Missionário Uilson de Sá e por uma área da União destinada ao uso sustentável da comunidade. Juntas, essas áreas preservam não apenas as mangabeiras, mas também um importante patrimônio cultural e ambiental de Sergipe.
Recentemente, a comunidade celebrou duas conquistas importantes: o primeiro lugar no Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e o lançamento do Plano de Manejo Popular, elaborado coletivamente para orientar o uso sustentável da reserva e fortalecer a proteção do território diante da pressão urbana.
Segundo lideranças da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper, o documento representa uma ferramenta para garantir que as próprias famílias participem das decisões sobre o futuro da reserva, preservando seus conhecimentos tradicionais e seu modo de vida.
A relação das famílias com a mangaba atravessa gerações. Além da coleta do fruto, a comunidade produz diversos alimentos artesanais, como geleias, licores, bolos, biscoitos, vinagres, pães e até vinho, agregando valor à produção e complementando a renda familiar.
Especialistas que acompanham o trabalho das extrativistas destacam que as catadoras desempenham um papel essencial na conservação da biodiversidade. As áreas preservadas ajudam na manutenção da Mata Atlântica, contribuem para o equilíbrio climático urbano e garantem a sobrevivência de espécies responsáveis pela polinização das mangabeiras.
Entretanto, o avanço da urbanização preocupa a comunidade. As construções próximas às áreas de coleta alteram as condições ambientais, reduzem a presença de polinizadores e dificultam o desenvolvimento das árvores, impactando diretamente a produção do fruto.
Nos últimos anos, Sergipe perdeu protagonismo na produção nacional de mangaba. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o estado, que já liderou a produção extrativista da fruta no país, atualmente ocupa a quarta posição, reflexo da diminuição das áreas naturais destinadas ao extrativismo.
Para fortalecer a atividade, as catadoras defendem a criação da Casa da Mangaba, espaço destinado ao beneficiamento da produção, comercialização de derivados, instalação de um museu dedicado à cultura da mangaba e funcionamento da sede da associação.
Outro projeto em desenvolvimento prevê a expansão do turismo de base comunitária, permitindo que visitantes conheçam o trabalho das extrativistas, a culinária regional, a história da comunidade e a importância ecológica das mangabeiras. A iniciativa também pode gerar renda durante os períodos de menor produção do fruto.
As famílias também reivindicam maior participação em programas públicos de compra de alimentos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ampliando o mercado para os produtos derivados da mangaba e fortalecendo a economia local.
Em resposta às demandas da comunidade, a Prefeitura de Aracaju informou que apoia a construção da unidade de beneficiamento da mangaba, mantém ações de fiscalização ambiental na reserva e afirma respeitar a autonomia das catadoras na gestão do território. Enquanto aguardam novos avanços, as extrativistas seguem unindo tradição, geração de renda e conservação ambiental para garantir que a cultura da mangaba permaneça viva nas próximas gerações.






