Quando o médico americano Timothy Stephens chegou à província de Hainan, no sul da China, em 2013, não imaginava que os pacientes locais levariam mangas cultivadas em seus próprios jardins, peixes pescados pelos maridos ou bolos lunares preparados em casa como forma de agradecimento.
“É muito carinhoso”, afirmou o médico americano, de 46 anos. “Eles querem que eu participe da cultura local.”
Conhecido na China como Shen Yiyang, Stephens trabalha na Clínica Internacional do Hospital Popular de Haikou, capital da província. Ele deixou uma carreira confortável em Boston para ajudar a desenvolver o sistema de atenção primária de Hainan, que ainda estava em fase inicial.
“Vi uma oportunidade porque a China estava começando a desenvolver a atenção primária e, como médico de família, essa é minha especialidade”, recordou. “Eu poderia vir e compartilhar minha experiência nos Estados Unidos sobre como fazemos atenção primária e também ajudar na formação dos médicos locais.”
Falando quatro idiomas, Stephens se tornou uma referência para pacientes internacionais em Hainan. No entanto, é sua relação com as famílias locais que define grande parte de seu trabalho.
“Eu poderia dizer que simbolizo uma ponte entre os Estados Unidos e a China”, afirmou. “Ao vir para cá e participar da vida daqui, temos a oportunidade de estabelecer conexões que não aconteceriam se estivéssemos em países separados.”
A velocidade e a escala da China
Depois de mais de uma década vivendo e trabalhando em Hainan, Stephens continua impressionado com a eficiência dos hospitais locais. Segundo ele, os pacientes conseguem consultar um médico, realizar exames de sangue ou agendar uma tomografia computadorizada no mesmo dia.
“Os pacientes aqui conseguem ter acesso facilmente aos médicos”, disse. “Isso realmente muda a maneira como oferecemos atendimento, porque, nos Estados Unidos, na maioria das vezes, prestamos atendimento apenas mediante agendamento.”
O médico também destaca o papel da Zona-Piloto de Turismo Médico Internacional de Boao Lecheng, em Hainan, na introdução de novos diagnósticos e tratamentos.
A área médica especial, localizada dentro do Porto de Livre Comércio de Hainan, tornou-se um centro regional para fabricantes internacionais de equipamentos farmacêuticos e empresas inovadoras de pequeno e médio porte dos setores farmacêutico e médico.
A zona permite que pacientes tenham acesso a medicamentos e dispositivos médicos aprovados no exterior que ainda não estão disponíveis em outras regiões da China. Além disso, médicos chineses podem conhecer e explorar tecnologias médicas internacionais sem precisar deixar o país.
Em 2025, a zona registrou 865.300 atendimentos relacionados ao turismo médico, um aumento de 109% em relação ao ano anterior.
No início deste ano, Stephens ajudou um paciente de Hong Kong com câncer de pulmão a ter acesso a uma nova terapia-alvo chinesa. Os sintomas do paciente se estabilizaram e sua qualidade de vida apresentou uma melhora significativa.
Intercâmbio e cooperação na medicina
Stephens acredita que China e Estados Unidos podem aprender mutuamente na área da saúde.
Ao analisar a educação médica, ele observa que os Estados Unidos desenvolveram um sistema eficiente de treinamento padronizado e certificação profissional. Ao mesmo tempo, alerta para problemas atuais do sistema de saúde americano, como o aumento insustentável dos custos e lacunas na cobertura dos seguros.
Stephens também elogiou os esforços da China para ampliar a cobertura universal de saúde. Segundo ele, o governo chinês expandiu os seguros de saúde, os exames gratuitos para idosos e os programas de acompanhamento de doenças crônicas.
“Um dos grandes aspectos do desenvolvimento da saúde na China é que o governo está analisando as necessidades de toda a população”, afirmou.
O médico também destacou as transformações recentes em Hainan, que iniciou operações especiais de controle aduaneiro em toda a ilha no ano passado. De acordo com Stephens, novas políticas da província passaram a reconhecer as credenciais de médicos estrangeiros sem a necessidade de exames locais.
Ele acrescentou que o hospital de Haikou onde trabalha contratou recentemente um especialista em pediatria de Serra Leoa.
“A medicina é um campo internacional”, afirmou. “Quando conseguimos reunir equipes internacionais de profissionais de saúde trabalhando em conjunto, podemos construir uma estrutura muito melhor e mais sólida para compreender como atender às necessidades dos pacientes.”
O médico americano espera que os intercâmbios e a cooperação entre China e Estados Unidos aumentem nos próximos anos.
“Enquanto as pessoas muitas vezes querem enfatizar as diferenças, acredito que temos muito mais coisas em comum”, afirmou.
“Espero realmente que existam mais oportunidades para diálogo e visitas nos dois sentidos, nos campos científico, clínico e cultural, para que possamos aprender juntos e encontrar novas soluções que talvez não tivéssemos imaginado de outra maneira”, acrescentou.



