Maringá acaba de ganhar uma nova área de convivência urbana no coração da cidade. Inaugurado no último dia 10 de dezembro, o Mercadão Fratello tem acessos pela Travessa Jorge Amado e pela Avenida Herval. O escritório responsável pelo projeto é o Verri e Galvão Arquitetos, que “desenvolve projetos de diferentes escalas, […] residenciais, comerciais, institucionais, desenho de mobiliário e retrofits” sendo este último, o caso do novo empreendimento. O novo espaço é um retrofit, técnica na arquitetura que visa a atualização e modernização de espaços existentes dentro da cidade. “As intervenções mantiveram a autenticidade do armazém, impregnado de história, mas registraram expressões arquitetônicas contemporâneas, potencializando o espaço com conforto e comprometida com nosso tempo” diz Anibal, responsável pelo escritório. O empreendimento conta com diferentes atividades, em área externa e interna, visando a “ocupação e vitalidade” desse espaço. Quando totalmente ocupado, serão 21 operações comerciais, 7 restaurantes e um espaço cultural distribuídos em aproximadamente 2.600m² construídos. “Desejamos para a cidade que esse modelo de ocupação seja disseminado, promovendo uma das características mais relevantes da urbanidade que é proporcionar o encontro entre as pessoas.” Confira agora na íntegra a entrevista com o arquiteto Anibal Verri Junior sobre o projeto.
Igor Mendes – Conte um pouco sobre o escritório Verri & Galvão? A quanto tempo estão no mercado, quais projetos realizam, etc…Anibal Verri – A Verri & Galvão é uma empresa de arquitetura fundada em 1996, dirigida por mim e que, simultaneamente ao ofício de arquiteto, mantenho a atividade acadêmica na UEM.Os projetos desenvolvidos no escritório são resultado da composição entre a interpretação do lugar, o atendimento às condicionantes, entendidas como desafios, e otimização da estrutura. Há no método, certa herança da arquitetura moderna em seu cerne, momento de expressiva produção nacional.O escritório desenvolve projetos de diferentes escalas, reunindo em sua história trabalhos residenciais, comerciais, institucionais, desenho de mobiliário e retrofits, atendendo às demandas privadas e públicas. Recentemente, a partir dos nossos projetos, foram concluídas as obras da igreja Cristo Ressuscitado, da Galeria Tuiuti – conjunto de lojas ancorado pelo McDonald’s vizinho a Rodoviária de Maringá, unidades da rede nacional de cinema CINEFLIX, a revitalização do Shopping Cidade e o Mercadão Fratello.O trabalho que desenvolvemos é pautado na associação das solicitações que vêm ao escritório com a postura crítica acerca da qualidade dos espaços.

IM – O projeto do Mercadão Fratello é um retrofit. Quais foram os desafios pra projetar, por ser um retrofit?AV – Projetar em espaços existentes é sempre um desafio, com camadas sobrepostas de ressignificações, sob o aspecto histórico, temporal e material. Na região, havia o antigo pátio de manobras da estrada de ferro, registrando os primórdios da cidade, e ainda se vê alguns armazéns dessa época, entre eles, o armazém do Mercadão de Maringá e o novíssimo Mercadão Fratello, ambos do mesmo empreendedor.No terreno que intervimos, encontra-se um armazém de 1963, com 1.000,0m² em alvenaria, e com uma cobertura metálica muito leve. Após a compreensão do lugar, propusemos a recuperação da cobertura e com uma lateral da metálica da cobertura estendida, desenhamos um shed, possibilitando a entrada de luz natural com a completa substituição das telhas, originalmente de fibrocimento por metálicas térmicas. As intervenções mantiveram a autenticidade do armazém, impregnado de história, mas registraram expressões arquitetônicas contemporâneas, potencializando o espaço com conforto e comprometida com nosso tempo.IM – Eu fiz uma visita ao empreendimento e percebi pelo menos três ambientes diferentes no espaço. Como foi o processo de setorização, usos e acessos ou fazer o projeto?AV – Gostaríamos de registrar que, ao iniciar o projeto, há uma condição indissociável de análise entre o edifício e a cidade, ou, entre a arquitetura e o urbanismo. Esse endereço é o coração de Maringá e, portanto, possui alto fluxo de pessoas, condição recorrente nos centros urbanos. Com a decisão da valorização do armazém existente, por meio do retrofit, uma característica vital para o empreendimento e para a cidade, é a liberdade dos fluxos, possibilitando seu acesso por duas vias: a travessa Jorge Amado, uma via peatonal pública e a avenida Herval.O projeto de arquitetura se desenvolveu na organização dos espaços, possibilitando a fruição urbana livre entre as vias. Na conexão do armazém com a Herval, propusemos um open mall, com oito metros de largura, numa continuação da cidade dentro do empreendimento, com lojas voltadas para a rua e com delicadas praças e largos, equipados com mobiliário urbano e exuberante paisagismo.No armazém foi proposta a Arena Fratello, um Espaço Cultural, objetivando acolher com a arquibancada e palco, uma diversidade de programas artístico-culturais, ações que vão complementar o empreendimento de vida, com seus bares e restaurantes, imprimindo plena ocupação e vitalidade no lugar. Ainda, complementando a atividade pulsante gastronômica do empreendimento, um – pergolado/avarandado – nas extensões dos restaurantes.

IM – Na visita também notei a utilização de elementos que remetem a biofilia na arquitetura, como água, pedras naturais e um cuidado com a vegetação na área externa. Essa foi uma das intenções do projeto? AV – Nosso método de projeto sempre busca a interrelação das soluções dos espaços com as matérias naturais: a pedra, a madeira, o verde, luz e vento, esses elementos vão compor nossos espaços. No Fratello não seria diferente! A conexão com a natureza é sensível e dessa forma, o projeto possibilitou que um conjunto de lojas estivesse aberto à rua interna, relacionando-se com o sol e chuva, com o vento, frio e calor, luz e sombra. O empreendimento assume feições distintas conforme as estações do ano, como um jardim, teremos a florada, o barulhinho bom da água em cascata, ou os espirros do chafariz, que faz a farra da criançada. Essas lojas voltadas à rua, contam com um beiral de proteção aos usuários.

IM – Notei que as divisórias entre os estandes são em drywall, e a estrutura externa em steelframe. Porque a escolha desses sistemas construtivos?AV – Esse sistema construtivo foi uma sugestão do projeto, desencadeando uma obra seca, racionalizada, e esses aspectos foram bem recebidos pelo empreendedor. O projeto assumiu o sistema construtivo sem veladuras e a obra teve sua montagem rápida e controlada com estrutura metálica. Os fechamentos/vedações, tanto na cobertura como nas paredes, são painéis metálicos térmicos pré-pintados, a divisão entre as operações comerciais em dry wall. Até mesmo a arquibancada, equipamento do espaço cultural, os mezaninos dos restaurantes são em estrutura metálica e piso wall. Conforme uma galeria comercial, cabe agora a cada lojista, a organização de sua operação.

IM- Qual o impacto que esse novo espaço traz para a cidade e para o local onde está inserido?AV – O trabalho do arquiteto deve contar com certa imprevisibilidade das relações, pois, uma coisa é planejar, outra, é ver a vida se desenvolvendo nos espaços.Nesse trabalho, temos recebido um ótimo retorno dos usuários, sabendo que as famílias passeiam com as crianças e com os pets, apropriando-se da transitoriedade desse espaço. É uma prazerosa sensação ver que o planejamento foi traduzido em vida em movimento! Desejamos para a cidade que esse modelo de ocupação seja disseminado, promovendo uma das características mais relevantes da urbanidade que é proporcionar o encontro entre as pessoas.








