Cidade do México, 2 out (Xinhua) — Nos arredores de Tecoluca, no centro de El Salvador, alguns agricultores que perderam a primeira colheita estão plantando de novo, na esperança de que chuvas esparsas forneçam água suficiente para uma segunda safra.
A situação deles reflete um desafio mais amplo para a América Latina com a intensificação do El Niño: alterações nas chuvas e nas temperaturas ameaçam as colheitas, o abastecimento de água e os sistemas elétricos dos quais dependem os meios de subsistência.
Para a região, as consequências econômicas podem ir da escassez de alimentos nas famílias ao enfraquecimento das exportações, passando por pressão sobre a oferta de energia e maiores exigências sobre os recursos públicos.
PRESSÃO SOBRE ALIMENTOS E RENDA
No Corredor Seco da América Central, muitas famílias rurais dependem do milho e do feijão tanto para a alimentação quanto para a renda obtida com a venda de parte da colheita. El Salvador é um dos países desse corredor, uma das regiões mais vulneráveis do mundo à mudança climática.
O calor e a falta de água danificaram as culturas plantadas na primeira temporada de semeadura de El Salvador, normalmente entre abril e junho, disse Danilo Ramirez, meteorologista salvadorenho, acrescentando que alguns agricultores estão aproveitando breves períodos de chuva para plantar de novo, mas a irregularidade das chuvas torna o futuro incerto.
El Salvador emitiu um alerta vermelho nacional por causa da seca em agosto. Para agricultores que já enfrentam perdas, outra colheita ruim reduziria ainda mais sua capacidade de sustentar as famílias.
Patricio González, professor de climatologia agrícola da Universidade de Talca, no Chile, disse que os efeitos se propagam por vários canais. Colheitas menores deixam as famílias com menos alimento e menos produtos para vender. A oferta reduzida pode elevar os preços, enquanto fazendas em dificuldade podem contratar menos trabalhadores.
No Brasil, uma previsão oficial para o período de setembro a novembro aponta para chuvas abaixo da média no norte e no nordeste e em partes do centro e do sudeste do país, enquanto em algumas regiões do sul espera-se um clima mais chuvoso do que o habitual.
O meteorologista agrícola brasileiro Luiz Renato Lazinski afirmou que essas condições contrastantes deixam as principais culturas vulneráveis à seca em algumas áreas produtoras e ao excesso de chuvas em outras. As consequências podem afetar tanto o abastecimento interno quanto as exportações agrícolas do país.
RISCOS PARA ENERGIA E COMÉRCIO
A falta de água cria outra fonte de vulnerabilidade econômica: a eletricidade necessária para famílias, empresas e serviços públicos.
A Venezuela obtém cerca de 60% de sua eletricidade de usinas hidrelétricas no sul. O ecólogo Francisco Herrera alertou que uma seca severa combinada com altas temperaturas na região pode exercer forte pressão sobre o abastecimento de eletricidade no início do próximo ano.
Os efeitos da escassez de água também podem chegar ao comércio internacional. No Canal do Panamá, chuvas e medidas de economia de água melhoraram recentemente as condições de navegação, permitindo mais vagas de trânsito e um calado máximo permitido mais alto. A bacia hidrográfica do canal, no entanto, continua enfrentando escassez de água.
Para os exportadores, os riscos podem surgir tanto no ponto de produção quanto ao longo da rota até o mercado. Uma produção menor pode reduzir os embarques, enquanto restrições ao transporte podem complicar as entregas e aumentar os custos.
González disse que secas, inundações e calor prolongado podem afetar a economia em geral ao prejudicar a produção e desorganizar o abastecimento de água, transformando riscos climáticos em pressões sobre emprego, renda e preços.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU alertou que um evento extremo de El Niño pode causar perdas equivalentes a pelo menos 2% do PIB da América Latina e do Caribe e levar mais 4,8 milhões de pessoas à pobreza.
TRANSFORMAR AVISOS EM AÇÃO
Os governos latino-americanos enfrentam a tarefa de lidar com perdas que já ocorrem enquanto se preparam para condições que podem piorar nos próximos meses.
No Peru, as autoridades declararam em agosto estado de emergência de 60 dias em 607 distritos de 16 regiões por causa do risco de escassez de água. O governo forneceu ração para o gado, vacinas e instalações de água potável, além de estruturas de armazenamento de água e pequenas barragens para ajudar os agricultores a enfrentar a seca.
A Venezuela anunciou um plano de economia de eletricidade e determinou a adoção de medidas de contingência no setor agrícola. Herrera disse que usinas termelétricas podem ajudar a compensar a redução da geração hidrelétrica, embora isso exija mais uso de combustíveis fósseis e aumente as emissões de gases de efeito estufa.
No Brasil, os órgãos federais estão coordenando o monitoramento climático e hídrico para apoiar a preparação. Eles também estão incentivando os moradores a seguirem os alertas oficiais, identificarem as áreas de risco locais e conhecerem suas rotas de evacuação.
Celeste Saulo, secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, enfatizou que as previsões sazonais dão aos países uma janela valiosa para se prepararem, e que o conhecimento e as ferramentas existentes podem ajudar a proteger vidas e meios de subsistência antes que os perigos se tornem crises.
“El Niño não precisa ser uma receita para o desastre”, disse Saulo.







