Tina se sente deslocada no mundo, como se não coubesse nele. Tudo por causa de sua altura acima da média, na sua percepção. Ela deseja, todas as noites, se tornar minúscula. E isso se torna real (ou parece), mas também não será fácil para a personagem, protagonista do conto “Uma menina gigante”.
Trata-se de um dos dez textos selecionados na 11ª Coletânea Sesc de Contos Infantis, livro recém-lançado na 45ª Semana Literária Sesc e Feira do Livro, que ocorreu neste mês de agosto simultaneamente em 27 cidades paranaenses.
Em Maringá, a apresentação da coletânea se deu na sala de cinema do Sesc, com a presença de Mia Oliveira, autora maringaense que escreveu “Uma menina gigante”; e de Álvaro Posselt, que fez a curadoria do livro. A obra tem ilustrações de Adriano Catenzaro.
À reportagem, a escritora explicou que seu texto já estava em criação, porém o edital da coletânea ajudou a finalizar o material inédito. “A partir da lembrança da minha infância, eu usei a Catedral, com a questão da altura, de querer chegar lá em cima para tocar a cruz, casou super bem”, referindo-se a uma das passagens do conto.
Ligada ao meio artístico, principalmente por conta das artes cênicas, Mia revela que o texto selecionado no livro do Sesc (com versão impressa, digital e audiolivro) foi sua estreia para o grande público. “É a primeira vez que alguém vai ler algo que eu escrevi”.
Em relação à temática da inclusão, presente em “Uma menina gigante”, a escritora explica que é um assunto de bastante interesse em sua trajetória, ao abordar questões de neurodivergência, infâncias dissidentes e de crianças que não são se encaixam nos padrões. “É algo que eu já tinha em mim e via a necessidade de trazer para o conto”, destacando que todo mundo, com suas diferenças, tem espaço na sociedade. “É uma questão importante que precisa ser trabalhada com as crianças”.
Inclusive, é um campo temático que será explorado nos próximos textos de Mia Oliveira. Ela já iniciou seu próximo trabalho literário. Além de outros temas que atravessam o interesse da autora, como, por exemplo, o luto. “Muitas vezes, a gente não se atenta de conversar nas infâncias sobre esses assuntos mais sensíveis”.

Curadoria
A coletânea Sesc também tem a participação dos seguintes escritores: Adri Tortato, de Curitiba, com “A Chave Mágica do Bairro Portão”; Alice Santana, de Curitiba, com “A Descoberta de Ibyrá”; Claudia Zippin Ferri, de Dois Vizinhos, com “Aventura no Bondinho da XV”; Claudia Kanoni, com “Enecôema e o mistério da Gralha Azul”; Eliane Yanagui, de Almirante Tamandaré, com “Convite Especial”; Felipe Gustavo Trevisan, de Cascavel, com “De quem é o dedão?”; Mariselma Araújo, de Cascavel, com “Aurora e o Pequeno Amendoim”; Rosicler Atoniácomi, de Ponta Grossa, com “Ouro Verde, um Presente de Tupã”; e Sandra Sebastião, de Curitiba, com “Toth, a Múmia”.
A nova edição traz olhares de diferentes escritores de seis cidades paranaenses, compondo um mosaico de narrativas que refletem a riqueza criativa do Paraná.
Segundo o poeta curitibano Álvaro Posselt, responsável pela curadoria do material, foram avaliados mais de 150 contos para chegar até os selecionados na edição de 2026 da coletânea. “Fiquei impressionado com a quantidade de textos literários, da qualidade. Infelizmente, a gente teve de escolher dez. Mas a gente poderia ter muito mais”, em conversa com a reportagem, destacando que gosta desse tipo de antologia porque estimula os autores a tirarem seus textos da gaveta, dando seu próprio exemplo, quando escrevia minicontos. Aliás, Posselt revela que está saindo um pouco de sua seara, a poesia haicai, para enveredar na prosa.

Além de autores experientes, a coletânea do Sesc também abre espaço aos iniciantes, caso de Mia Oliveira. Ela foi elogiada pelo curador do livro, que destacou os aspectos estéticos de seu conto “Uma menina gigante”. “No texto dela e nos outros da coletânea, a gente deu prioridade ao valor literário, a forma de falar, a estética. Isso foi muito acentuado”, diz Posselt, frisando o valor poético da literatura, longe do didatismo e moralismo.
Nesse contexto, Posselt avalia que a ilustração não está na coletânea para funcionar como uma legenda dos contos. “É para interpretar o texto e ir além. As ilustrações do Adriano Catenzaro foram muito harmônicas e trabalharam sutilmente com os textos”.












