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Diretor do novo ‘Acorda’, TH Fernandes defende responsabilidade social no cinema

Por Cristiano Monteiro Martinez
30 de junho de 2026
TH Fernandes participou de bate-papo sobre 'Acorda" no Cine UEM (Crédito: Cristiano Martinez)

TH Fernandes participou de bate-papo sobre 'Acorda" no Cine UEM (Crédito: Cristiano Martinez)

Funcionário do mês em seu trabalho, o jovem negro Eliéser guarda uma dor que ele tenta entender. Um sentimento que o atravessa. Um silêncio que o assola.

Em casa, o personagem sofre com a dureza do pai e tem o cuidado contido da mãe. No trabalho, a violência das palavras. Tudo é simples, mas ao mesmo tempo complexo. Eliéser está no limite. Na passagem tensa dos corpos.

Esse cenário de dor, medo, rejeição e esgotamento é o cerne de “Acorda” (15 min.), curta-metragem com direção de TH Fernandes (do longa “Maria do Ingá”), roteiro de Igor Alves e produção da Cosmos Filmes em Maringá. O filme estreou no projeto Cine UEM, em sessão aberta ao público no dia 22 de junho.

Em conversa com a reportagem, pouco antes do início da exibição, Fernandes comentou que, há algum tempo, Alves vinha falando sobre a importância de abordar temas delicados como a depressão e o suicídio. Assim, após ser contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), o filme foi rodado em meados de agosto de 2025, envolvendo muitos profissionais. A pré-produção, por exemplo, demandou bastante tempo de dedicação, haja visto todo o cuidado da direção de arte com a casa em que se passa boa parte da narrativa.

Aliás, um dos cômodos dessa habitação é o quarto de Eliéser, em um difícil momento de depressão. “Teve uma pintura de arte específica para o quarto”, diz o diretor, destacando também a dificuldade de lidar com a temática presente no roteiro original de Alves. Inclusive, quando Fernandes chegou ao set, muitas pessoas da produção vinham relatar suas impressões daquele cenário do curta-metragem, identificando-se com os elementos. “Você ouve histórias e vai te carregando. Realmente, é um tema delicado que precisa ser tratado com respeito”, observa o diretor.

Nesse sentido, o cineasta conta que conversou com o roteirista sobre como tratar o desfecho de “Acorda”, pois a informação não poderia ser simplesmente apresentada ao público, sem maiores consequências. “A gente não podia endossar um tipo de atitude. Tem de ter uma responsabilidade muito grande”, sem dar spoiler, mas ao mesmo tempo destacando que tudo foi pensado e planejado, tendo auxílio de especialistas, caso de psicólogo. Não por sinal, o filme tem classificação indicativa de 14 anos.

“Eu tinha tudo isso: essa carga carregando comigo para gravar, para dirigir esse material. E também a questão pessoal. Recentemente, eu passei por um episódio desses. Vinha à tona muita coisa. Muita gente que entrava na casa [do filme], chegava até a sair”, diz Fernandes, explicando que o cenário é importante para a estrutura da narrativa de “Acorda”.

A produção tomou cuidado para não ocorrer o chamado gatilho, que é qualquer estímulo (uma palavra, cheiro, som ou situação) que desperta uma resposta ou reação imediata. O diretor defende que o cinema não pode se resumir ao interesse comercial ao contar uma história. Não é só um negócio, precisa haver responsabilidade com o tema, com o público. “A gente tem de ter um respeito e um cuidado muito grande”, destacando que não é apenas um filme ou simplesmente entretenimento. “Eu vejo o cinema como algo mais profundo”.

Elenco
O principal núcleo de atuação em “Acorda” é formado por Luan Carvalho, Nanny Gonçalves e Ronaldo Pinheiro, que contracenam na casa em que os personagens habitam. Mas o curta-metragem também apresenta o local de trabalho do protagonista Eliéser, onde estão seus colegas em uma lanchonete.

Cena do trailer de “Acorda”, que terá mais sessões públicas (Crédito: Reprodução)

Cine UEM
Conhecedor e apreciador do trabalho do Cine UEM, TH Fernandes fez questão de promover a estreia de seu novo curta-metragem nesse espaço localizado no campus sede da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Porque eu curto demais a recepção do Rodrigo [Gontijo, professor e um dos coordenadores do projeto], do pessoal que cuida do cineclube aqui e também da discussão que tem depois. São sempre discussões respeitosas e acrescentam muito”, relata o diretor.

Após a sessão no dia 22 de junho, ocorreu o debate com parte da equipe do filme e público no Cine UEM.

Como contrapartida do projeto, “Acorda” precisa fazer, no total, dez exibições abertas ao público. A próxima será em 4 de julho, às 10h, no Cineflix do Shopping Maringá Park.

Projetos
Além do recente “Acorda”, TH Fernandes está envolvido em outros projetos. Um deles é uma série infantil que começará a ser gravada em breve. Outro é o documentário “Amana – A Vida Pede Passagem”, com gravações recentes em São Paulo.

E tem ainda o projeto em finalização sobre a história de Jovita Feitosa (“Sertões e Guerras de Jovita”), que foi uma mulher que vestiu de homem para lutar na Guerra do Paraguai em 1865. Segundo Fernandes, foram feitas muitas entrevistas para falar sobre esse assunto, desde maringaenses até pessoas do cenário nacional, caso de Erika Hilton e Adriana Negreiros. “Tem muitas mulheres importantes nesse projeto”, adianta o diretor maringaense.

Bate-papo no Cine UEM após a estreia do curta-metragem “Acorda” (Crédito: Cristiano Martinez)

Cidade polo
“Maringá é um polo audiovisual que está fervilhando”, diz Fernandes, citando o trabalho da Beleza Maravilha Filmes, que participou este ano do Festival Olhar de Cinema em Curitiba com “A Holandesinha” e tem selecionado o curta “Manequim” na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto neste final de junho. E ainda a Cosmos Filmes e a própria Blaché Audiovisual, só para ficar em algumas produtoras mencionadas pelo diretor. “Maringá tem produções o ano inteiro”, resume.

Nesse contexto, o diretor, que participa do Conselho de Cultura, avalia que os editais de fomento são fundamentais para manter em funcionamento essa engrenagem. Um dos mecanismos de incentivo é o Arranjos Regionais, que virá mais uma vez à Cidade Canção. E claro, os editais das leis Paulo Gustavo, PNAB e Rouanet, além do Fomento Aniceto Matti. “A gente sempre tenta fomentar o cenário audiovisual”, dizendo o quanto é importante profissionalizar o setor em Maringá.

Mostra maringaense
Em 2025, a Maringá CineFest – Mostra de Cinema Maringaense agitou a Cia Solagasta com a exibição de sete filmes ao longo de três dias. “Foi um sucesso”, recorda Fernandes, avisando em primeira mão que a segunda edição está confirmada para setembro de 2026. “A gente viu que as pessoas querem ver as produções”.

Essa mostra também serviu, na avaliação dele, para desmistificar, mostrando como é o nível profissional de produção da cena maringaense. “Você tira da pessoa de olhar apenas para os grandes centros, para as capitais. O interior está produzindo nesse padrão de qualidade, tanto técnico quanto artístico”.

Crédito: Reprodução

Fomento
“Acorda” é projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), Ministério da Cultura e Governo Federal.

Ficha técnica
Filme “Acorda”

Direção: TH Fernandes; Roteiro: Igor Alves; Produção executiva: Felipe Cosmos; Direção de fotografia: Anderson Craveiro; direção de arte: Laura Carvalho; Direção de produção: Vagner Valério; Figurino: Jo Serbai; Maquiagem: Eloise Gonçalves; Coordenador de produção: Junior Macedo; Script Doctoring: Glauber Filho; Preparadora de elenco: Vanessa Rodriguez; Assistente de direção: Beatriz Vida e Barbara Lopes; Som direto: Giovani Nori

Tags: "Acorda"AudiovisualCine UEMCosmos FilmesCurta-metragem

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