Autor de mais de 20 livros de ficção, incluindo “O filho eterno” (2007), “O Fotógrafo” (2004), “O Professor” (2014) e o recente romance de memória “Visita ao pai” (2025/2026), Cristovão Tezza marcou presença na 45ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro, na noite desta terça-feira, 11 agosto, no teatro do Sesc Maringá.
O escritor participou do bate-papo “Ficções de si, escritas do mundo”, sob mediação de Beatriz Protazio, diante de um público interessado na obra e na trajetória de Tezza, que refletiu sobre o escritor contemporâneo no mundo digital e de sua própria família. Afinal, dois livros de sua lavra tocam em questões muito próximas, como seu filho e o pai.
“Ele [‘O filho eterno’] é brutalmente autobiográfico. É uma história pessoal que eu transformei num romance”, recordando que, durante mais de 20 anos, nunca havia escrito sobre esse tema. “Eu tinha certo preconceito com a ideia de escrever sobre o tema. Um preconceito literário: isso não vai dar boa literatura”. Porém, chegou um momento em que Tezza começou a enfrentar o tema, passando a ler livros com temas parecidos e vendo que era possível fazer boa literatura nessa seara.
Mas teria de fazer a frio, olhando de fora. “Porque no ato de escrever você não está simplesmente vivendo. Está representando uma situação, dando uma moldura. Com o olhar de longe”, dizendo que naquela época já tinha essa distância, pois seu filho, Felipe, não era problema.
Tezza também disse que a literatura é um espaço de reflexão, criando hipóteses de existência. “Você começa a se ver de longe. Você cria um personagem. Basta escrever uma frase, mesmo que sobre você, já está vendo alguém na sua frente que não é você”. Segundo ele, escrever é criar um narrador, ou seja, “alguém que vai contar histórias que não é exatamente você”. E assim nasceu “O filho eterno” em 2007, que se tornou sucesso, libertando seu autor para pedir demissão da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde era professor e pesquisador, e se dedicar ao fazer literário.
Aliás, esse romance venceu os principais prêmios literários do país e passou a ser traduzido.
Em 2026, Tezza recebeu o Prêmio Machado de Assis 2026, principal láurea da ABL, pelo conjunto de sua obra.

‘Visita ao pai’
Relato de dupla formação, “Visita ao pai” é uma investigação franca do passado familiar, da política do país ― e dos afetos que nos constituem.
João Batista Tezza, pouco letrado, começou a fazer anotações num caderno de capa dura em fevereiro de 1931, quando entrou no exército como soldado em Florianópolis, aos vinte anos. E manteve o hábito até a semana em que morreu, precocemente, já professor e advogado, em julho de 1959, em decorrência de um acidente de lambreta.
O escritor Cristovão Tezza sempre soube da existência dos cadernos de seu pai, mas nunca havia se interessado por eles até que, em 2021, durante a pandemia, o autor decidiu lê-los. Naquela espécie de buraco negro da memória familiar onde havia caído, Cristovão notou que o pai transcrevia obsessiva e sistematicamente cartas, telegramas, bilhetes, o conteúdo de documentos como certidões e atestados, dedicatórias de livros e fotografias, e basicamente tudo o que lhe acontecia.
Entremeando narrativa factual a reflexões sobre a formação do pai e sua própria trajetória, e colocando em cena dois momentos cruciais da vida social brasileira (um dominado pelo governo de Getúlio Vargas, o outro sob a ditadura militar), Visita ao pai é uma das experiências mais surpreendentes da nova literatura do país. Uma obra formalmente ousada de um dos mais importantes e premiados autores em atividade.

Aline Bei na noite de quarta-feira
Neste quarta-feira, 12 agosto, Aline Bei participa do bate-papo “Aos que existem sozinhos”, no teatro do Sesc Maringá, a partir de 20h. Entrada gratuita. Classificação: livre.
A frase “aos que existem sozinhos” é a dedicatória final que a escritora Aline Bei escolheu para o seu romance mais recente, Uma delicada coleção de ausências (2025). O tema reflete perfeitamente as discussões que suas obras propõem e que giram em torno da solidão, dos silêncios familiares e dos traumas invisíveis.
Neste bate-papo, abordaremos o conjunto de sua obra e como seus livros tocam no tema do isolamento e da perspectiva feminina a respeito das perdas, do abandono, da complexidade das relações familiares e afetivas, das memórias e das gerações.
Esta ação compõe a programação da 45ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro, que tem como tema central “Tudo cabe na palavra”. A participação é gratuita e livre para todas as idades.








