Uma estrada tomada pela neblina, um corpo que surge no caminho e um homem confrontado por lembranças que já não podem permanecer encobertas. Esse é o ponto de partida de “Neblina”, monólogo criado e protagonizado pelo ator Guilherme Veneral, que estreia nesta sexta-feira, 11 de setembro, no Teatro Barracão Paulo Mantovani, em Maringá.
Ao todo, serão seis apresentações gratuitas, nos dias 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de setembro, sempre às 20h.
O espetáculo reúne memórias pessoais do artista e relatos compartilhados por pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ para construir uma narrativa sobre identidade, preconceito, ansiedade, pertencimento e autonomia. O projeto foi contemplado no Edital de Fomento Aniceto Matti nº 051/2025, da política de incentivo à cultura de Maringá.
Codirigida por Mariela Lamberti e Victor Lovato, a montagem parte da autoficção para colocar em cena experiências que transitam entre lembrança, invenção e memória coletiva. No dia de seu aniversário, o personagem tem o percurso interrompido quando encontra um corpo no meio da estrada, durante uma intensa neblina. A partir desse acontecimento, episódios, sentimentos e vozes começam a emergir, revelando traumas, descobertas, violências e processos de reconhecimento.
Mais do que cenário ou circunstância narrativa, a neblina atravessa a própria dramaturgia como metáfora de um estado de incerteza e alerta. Para Veneral, a criação nasceu da tentativa de compreender de que maneira a opressão e o preconceito podem interferir na autonomia dos sujeitos e na percepção que cada pessoa constrói de si mesma.
“Por muitos anos eu sofri com a dificuldade de me identificar no mundo. Houve todo um processo para entender meus próprios sentimentos e não deixar que eles fossem definidos pelo pensamento das pessoas que viviam ao meu redor”, afirma o ator e dramaturgo.
A dimensão autobiográfica, porém, é apenas uma das camadas do espetáculo. O texto incorpora também histórias compartilhadas com Veneral por outras pessoas LGBTQIAPN+, criando uma dramaturgia em que experiências individuais encontram vivências coletivas.
“Eu sempre quis fazer um espetáculo que simulasse a mente humana e todas as mil coisas que acontecem nela ao mesmo tempo. Quando entendi os temas que gostaria de abordar, foi inevitável buscar a autoficção, porque são histórias que passaram por mim, assim como histórias que me foram compartilhadas”, explica.
Essa sobreposição aparece também na encenação: pensamentos, lembranças, associações e estados emocionais convivem e disputam espaço. Ao mesmo tempo em que aborda as marcas deixadas pelo preconceito e pela falta de autonomia, “Neblina” procura deslocar o olhar para a possibilidade de reconhecimento e aceitação.
“Somos atravessados pelo nosso entorno. Uma convivência afetuosa gera indivíduos afetuosos, da mesma forma que uma pessoa é transformada se vive em ambientes de privação e falta de autonomia”, observa Veneral.
Para o ator, o teatro ocupa um lugar fundamental nesse processo. “O teatro foi o lugar onde eu pude me encontrar e saber que, em cena, é possível dar luz para todo sofrimento, assim como é possível celebrar, dia após dia, quem eu sou hoje e sempre fui.”
Experiência pessoal vira matéria cênica
Em “Neblina”, a autoficção não aparece apenas como recurso dramatúrgico, mas como uma forma de aproximar experiências particulares de questões compartilhadas socialmente. A construção do espetáculo mistura memória, relato e invenção sem estabelecer fronteiras rígidas entre esses territórios.
“Neblina é uma metáfora cênica sobre um estado de alerta e um espetáculo que debate os malefícios de renunciar a si próprio, ao mesmo tempo em que abre espaço para mostrar o que acontece quando aceitamos quem somos”, resume Guilherme Veneral.
Serviço
Monólogo “Neblina”
Dias 11, 12, 13, 18, 19 e 20 de setembro
20h
Teatro Barracão – Praça Professora Nadir Cancian, sem número, na Zona 7, Maringá – PR
Entrada gratuita. Os ingressos serão distribuídos meia hora antes do espetáculo
Ficha técnica
Codireção: Mariela Lamberti e Victor Lovato
Coordenação de produção e produção executiva: Barbara Bittencourt
Texto e atuação: Guilherme Veneral
Direção musical: Nicholas Emmanuel
Trilha sonora: Nicholas Emmanuel, Chá di Lirian e Mateus Rossato
Sonoplastia: Nicholas Emmanuel
Iluminação: Victor Lovato
Figurino: Jo Serbai
Acessibilidade: Forféu — Renan Parma e Pedro Siena
Fotos e vídeos: Erick Costa Domingos
Comunicação: Madá Criativa
Designer e identidade visual: Naju Campos
Projeto contemplado no Edital de Fomento Aniceto Matti nº 051/2025, da política de incentivo à Cultura de Maringá.
Com assessoria








