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Da favela ao mundo: jovens treinadores de Jiu-Jitsu Brasileiro miram vida nova na China

Por Agência XINHUA
5 de outubro de 2026
O instrutor de Jiu-Jitsu Brasileiro Renan Vieira treina na academia BUSHIDO Gym, em Shanghai, leste da China, em 11 de setembro de 2026. (Xinhua/You Zhixin)

O instrutor de Jiu-Jitsu Brasileiro Renan Vieira treina na academia BUSHIDO Gym, em Shanghai, leste da China, em 11 de setembro de 2026. (Xinhua/You Zhixin)

A quase 40 quilômetros a nordeste do Rio de Janeiro, a chuva bate contra o teto de telha de zinco enferrujada de um pequeno barracão de dez metros quadrados numa favela em São Gonçalo, produzindo um barulho ensurdecedor em uma das maiores comunidades carentes do Brasil. Porém, dentro dele, o ar é denso, tomado pela umidade e suor — dezenas de crianças e jovens em quimonos desfiados fazem uma reverência em silêncio, guardam sua posição no solo e trocam golpes de finalização.

Do outro lado do planeta, numa sala ensolarada da academia BUSHIDO Gym, no centro de Shanghai, leste da China, Renan Vieira, 25 anos e natural de São Gonçalo, está experimentando uma vida diferente ensinando aos alunos chineses o mesmo esporte.

O passaporte que levou Renan da favela em São Gonçalo à Shanghai é o Jiu-jitsu Brasileiro (JJB).

O exemplo de Renan oferece uma inspiração inesperada para os jovens treinadores de JJB no barracão em São Gonçalo escaparem da pobreza e do crime das ruas. Mas a jornada não foi totalmente tranquila no começo.

Há quinze anos, Renan era um menino retraído de dez anos em São Gonçalo, calado pela dor da perda do pai. Sua mãe trabalhava em turnos ininterruptos.

“Eu iniciei o Jiu-jitsu logo depois que meu pai faleceu. Isso foi um momento muito difícil na minha vida e eu era uma criança que não me comunicava, não brincava com as outras crianças. E por indicação médica e de familiares, eu iniciei o esporte, o Jiu-jitsu, e através do Jiu-jitsu eu conheci o projeto social Vencedores em Cristo. Foi um projeto que me ajudou e ajudou muitas crianças naquela época. O Jiu-jitsu abriu muitas oportunidades na minha vida,” disse ele.

“No começo, a gente não tinha nem dinheiro para comprar um quimono, e três ou quatro crianças dividiam o mesmo,”relembra Renan. “Eu ia para o treino só para poder jantar no projeto e poupar minha mãe desse peso.”

O tatame se tornou seu santuário. Renan se dedicou de corpo e alma ao esporte, conquistando a faixa preta, três títulos de Campeão Brasileiro pela Confederação Brasileira de Jiu-jitsu e a medalha de prata no Campeonato Europeu da Federação Internacional de Jiu-jitsu Brasileiro. Há dois meses, mudou-se para Shanghai para treinar alunos em tempo integral na BUSHIDO Gym, de um empresário brasileiro chamado Saulo, que passou os últimos 14 anos construindo uma rede de 22 academias de Jiu-jitsu na China.

“Quando o Saulo me apresentou essa oportunidade de vir morar na China e vir trabalhar com Jiu-jitsu aqui, foi surreal. Fiquei muito animado. Eu acredito que hoje eu sou um incentivo para outras crianças, eu sou um exemplo. Eu sou muito grato pela oportunidade de estar morando aqui na China e isso é muito importante para o meu projeto, isso é muito importante. Eu falo meu projeto porque lá nós somos uma família e eu acredito que, estando aqui, eu sirvo de exemplo, eu sirvo de impulso para os outros jovens e as outras crianças”, disse Renan.

“Em São Gonçalo, a sociedade diz que você nunca vai ser nada, que o crime é a única saída, é uma cidade um pouco violenta, trabalhosa. Você vive com medo de morrer, você fica com medo de ser assaltado”, diz Renan, “Agora, posso andar pelas ruas de Shanghai à noite tranquilamente. Posso fazer o que amo todos os dias.”

Para Rogério Moura, de 48 anos, fundador do projeto “Vencedores em Cristo” e professor de Renan, o Jiu-jitsu foi uma tábua de salvação. Em 2008, Moura lançou o projeto, uma iniciativa social comunitária para tirar crianças vulneráveis das ruas.

“Hoje a gente está com três polos, e tem uma base de uns 300 alunos. Começa na faixa branca e vai se graduando até chegar a preta”, diz Moura. “Tinha muita criança na rua e algumas crianças no tráfico, aí eu comecei a ocupar a mente das crianças, tirar do tráfico e abrir o espaço do projeto para treinar o Jiu-jitsu. Primeiramente, eu quero que eles sejam cidadãos do bem e mostrar para eles que o Jiu-jitsu dá oportunidade de vida e pode ser uma ferramenta de trabalho.”

Enquanto muitos dos ex-alunos do projeto hoje dão aulas pelo Brasil e pelo mundo, um novo e notável caminho se abriu a dezenas de milhares de quilômetros de distância, no Oriente.

Impulsionado pela febre mundial do Ultimate Fighting Championship (UFC) e por estrelas locais como Zhang Weili, o Jiu-jitsu brasileiro explodiu como uma grande tendência de fitness nas megalópoles chinesas. Esse crescimento gerou uma escassez de instrutores faixa-preta qualificados.

É assim que Saulo viu uma oportunidade de conectar esses dois mundos. Nos últimos dois anos, ele recrutou sistematicamente os principais talentos do projeto de Moura.

“O Jiu-jitsu, quando você entra no tatame, você está ali para dividir o seu conhecimento, a sua técnica, a sua forma de se expressar”, destaca Saulo. “Nossos treinadores ensinam aos alunos chineses o valor da resiliência e, em troca, a China oferece a esses jovens atletas uma plataforma segura e digna para transformar uma década de garra em uma carreira.”

“A China é completamente diferente do que eu conhecia aqui. A educação das pessoas é surreal. Os lugares são lindos aqui, e dos pontos turísticos eu gostei demais. Eu gostei também de interagir com as pessoas aqui durante o treino. São pessoas ótimas. É um estilo de vida que eu achei que era impossível,” afirmou Renan.

Para Maxsuell, de 28 anos, que cresceu no projeto e hoje concilia um trabalho em tempo integral com o treino voluntário das crianças, a trajetória de Renan serve como um modelo claro. Preparando-se para se juntar a ele em Shanghai, Maxsuell vê a mudança mais como um propósito do que apenas como um passo na carreira. “Eu não quero ensinar somente o Jiu-jitsu,” diz ele, observando os jovens treinarem. “Quero ensiná-las a serem uma pessoa melhor, não só aqui dentro, mas lá fora, ter caráter e disciplina. O Jiu-jitsu é muito mais do que só a gente ser bom de Jiu-jitsu, ter uma posição boa, se qualificar em questão de ganhar faixa, Jiu-jitsu é muito mais do que ser uma faixa.”

O projeto também busca quebrar barreiras de gênero em um esporte tradicionalmente dominado por homens. Por anos, Kettly Viviane, de 23 anos, foi a única praticante feminina no tatame. Hoje, ela está cercada por jovens garotas que observam cada um de seus movimentos com olhares atentos.

“O meu desejo é ser professora, ver meus amigos chegarem à China dá a todas nós permissão para sonhar mais alto. E hoje eu vejo como sendo a minha mudança de vida, a minha porta de saída para um futuro melhor.”

Na opinião de Renan, o Jiu-jitsu pode ser uma ponte cultural entre o Brasil e a China.

“O JJB está crescendo. Está tendo uma demanda muito alta aqui na China e na Ásia … o esporte Jiu-jitsu está crescendo na Ásia como cresceu na Europa, no Oriente Médio. E é uma oportunidade muito boa para conhecer novas pessoas, novas culturas. As pessoas aqui são muito dedicadas a aprender, a se abrir a oportunidades novas. E isso é muito importante. Eu estou muito feliz em estar aqui, em estar podendo ensinar e aprendendo junto com meus alunos.

De volta à sala úmida em São Gonçalo, a chuva mantém um ritmo constante contra o teto de zinco. Uma nova fila de crianças amarra suas faixas desfiadas, faz reverência e bate as mãos. Na luz tênue, elas se ajoelham para manter a guarda, pressionando os nós dos dedos com firmeza contra o tatame, lutando por cada centímetro de alavancagem em um espaço que já não parece tão pequeno assim.

Treinadores e crianças posam para uma foto após treinarem em uma academia de Jiu-Jitsu Brasileiro em São Gonçalo, Brasil, 10 de setembro de 2026. (Xinhua/Zhou Yongsui)
Tags: Destaque

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