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Classe média, crise política e o debate sobre o golpismo no Brasil

Por Erick Matias
4 de outubro de 2023

A crise política brasileira que antecedeu o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, provocou uma intensa disputa de interpretações sobre o papel dos diferentes grupos sociais nas manifestações contra o governo. Entre essas análises está o artigo “Insurreição Política da Classe Média Brasileira: Golpismo e Corrupção”, publicado por Paulo Henrique Vieira em maio daquele ano.

O texto parte de uma interpretação crítica sobre a atuação de setores da classe média brasileira e relaciona as manifestações ocorridas entre 2013 e 2016 à ascensão de uma oposição cada vez mais direcionada contra o governo do Partido dos Trabalhadores.

Das manifestações de 2013 à crise política

Na avaliação apresentada pelo autor, as manifestações de junho de 2013 representaram um momento decisivo para a reorganização da oposição política no país.

Os protestos começaram tendo como uma de suas principais pautas a redução das tarifas de transporte público, especialmente a partir da mobilização do Movimento Passe Livre. Com a expansão das manifestações para diversas cidades, porém, a agenda se ampliou e passou a incluir temas como corrupção, serviços públicos e críticas ao governo federal.

Pesquisas realizadas durante os protestos identificaram forte presença de jovens e pessoas de classe média entre os manifestantes, embora a composição das manifestações tenha variado ao longo do período.

Para Vieira, setores da classe média teriam progressivamente incorporado as manifestações e deslocado parte do foco inicial para uma agenda de oposição ao governo federal.

Corrupção como bandeira política

O combate à corrupção tornou-se uma das principais bandeiras das manifestações contrárias ao governo Dilma Rousseff. O autor argumenta que esse discurso passou a funcionar também como instrumento de mobilização política.

Estudos posteriores sobre o período apontaram igualmente a importância do antipetismo na formação da nova direita brasileira. Pesquisadores Stuart Davis e Joe Straubhaar identificaram uma conexão entre as manifestações de 2013, redes sociais e a construção de uma mobilização política cada vez mais orientada contra o PT.

Ao mesmo tempo, análises acadêmicas sobre o conservadorismo de setores médios destacaram que a insatisfação com a corrupção foi uma das motivações declaradas mais importantes dos protestos contra os governos petistas, especialmente a partir do escândalo do mensalão.

O impeachment de Dilma Rousseff

A crise política se aprofundou após a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. A oposição passou a intensificar a pressão pelo afastamento da presidente, enquanto manifestações contra o governo se tornaram recorrentes.

O processo de impeachment ganhou força na Câmara dos Deputados durante a presidência de Eduardo Cunha. Em dezembro de 2015, Cunha aceitou um dos pedidos de impeachment apresentados contra Dilma, e o processo avançou para análise parlamentar.

Em maio de 2016, o Senado Federal aprovou a admissibilidade do processo e determinou o afastamento temporário da presidente. O julgamento terminou em agosto daquele ano, quando Dilma Rousseff perdeu definitivamente o mandato.

A relação com o golpe de 1964

Um dos principais argumentos do artigo é a comparação entre a mobilização de setores conservadores da classe média antes de 1964 e a participação de grupos sociais nas manifestações que antecederam o impeachment de 2016.

O texto recupera a chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade, movimento ocorrido em 1964 e associado à oposição ao governo João Goulart. Pesquisas históricas apontam que setores civis conservadores e parcelas da classe média participaram das mobilizações que contribuíram para criar apoio social à deposição de Goulart, embora o golpe tenha resultado de uma combinação mais ampla de fatores políticos, econômicos, militares e sociais.

A comparação, portanto, é apresentada pelo autor como uma interpretação política, e não como uma equivalência histórica automática entre os dois períodos.

Uma interpretação sobre a classe média

Vieira sustenta que determinados segmentos da classe média teriam reagido às mudanças sociais promovidas durante os governos petistas por enxergarem nelas uma ameaça às formas tradicionais de distinção social.

O argumento também relaciona políticas de aumento da renda, expansão do emprego e programas de transferência de renda à transformação da estrutura social brasileira. Na visão defendida no artigo, a ampliação do acesso ao consumo teria reduzido algumas das fronteiras simbólicas tradicionalmente associadas às classes sociais.

Essa interpretação, contudo, é objeto de debate acadêmico. Estudos sobre a nova direita brasileira mostram que o crescimento do antipetismo envolveu não apenas fatores econômicos ou de classe, mas também mudanças na comunicação política, nas redes sociais, na relação com os meios de comunicação e na mobilização de valores conservadores.

Corrupção e disputa pelo poder

Outro ponto central do artigo é a crítica ao uso seletivo do discurso anticorrupção. O autor questiona a distância entre a retórica moral utilizada por determinados grupos políticos e as denúncias de corrupção que atingiam parlamentares e partidos envolvidos no processo de impeachment.

A questão da corrupção, entretanto, ultrapassou a disputa entre governo e oposição. Ela se tornou um dos principais elementos da crise de confiança nas instituições brasileiras e passou a ocupar posição central no debate político nacional.

Pesquisas posteriores também identificaram o chamado lavajatismo como uma forma de mobilização política fortemente associada ao discurso de combate à corrupção e com significativa capacidade de influência entre setores médios.

Um retrato de um período de ruptura

Publicado em 2016, o artigo de Paulo Henrique Vieira registra uma interpretação específica sobre um dos períodos mais turbulentos da política brasileira recente. Seu argumento central é que a mobilização de setores da classe média, inicialmente associada a pautas diversas, teria contribuído para fortalecer uma agenda de oposição ao governo Dilma Rousseff e para criar condições políticas favoráveis ao impeachment.

A análise também procura estabelecer uma relação histórica entre mobilizações conservadoras de 1964 e as manifestações políticas ocorridas décadas depois.

Independentemente da concordância com as conclusões do autor, o texto ajuda a compreender uma das interpretações produzidas durante a crise política de 2016 e os debates sobre classe social, corrupção, conservadorismo, manifestações populares e democracia que marcaram aquele período.

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