Banca de revista instalada há 69 anos é o único estabelecimento que restou do período mais efervescente da avenida
Hoje ela é Avenida Getúlio Vargas, mas quando o presidente do Brasil ainda estava vivo ela chamava Avenida Ypiranga, se bem que lá na prancheta do urbanista Jorge de Macedo Vieira ela nasceu com o nome de Eixo Monumental, termo atribuído ao engenheiro russo Vladimir Babkov. Foi planejada para ser a avenida mais importante de Maringá, começando em uma praça e terminando em outra, com a Catedral e a prefeitura de um lado, a Rodoviária e a Ferroviária na outra ponta.
O planejamento deu certo. Ainda na década de 1950, a poeirenta avenida de apenas três quarteirões, que dividia a cidade em Leste e Oeste, reunia oito agências bancárias, o cinema, a histórica Confeitaria Copacabana, a agência da VASP, o Cine Bar, o gigante Bar e Restaurante Colúmbia, o Foto Maringá, escritórios de contabilidade e outros estabelecimentos. Tinha o metro quadrado mais caro e os aluguéis condizentes à importância da avenida.
Na década de 1960 já com o nome de Getúlio Vargas, a avenida ganhou ainda mais importância com a pavimentação com pedras irregulares e a construção dos dois primeiros prédios altos da cidade, o Três Marias e o Maria Tereza, além do estiloso prédio da Biblioteca Municipal, na esquina com a Avenida XV de Novembro, projetado pelo arquiteto Luty Vicente Kasprowicz, embalado nas curvas do mestre Oscar Niemeyer.
Das 6 da manhã às 11 da noite
Foi no burburinho que a avenida vivia em 1957, quando os automóveis passavam levantando poeira e a frente dos estabelecimentos ainda não tinha calçada, que um comerciante, o Nicolau, conseguiu licença para montar uma banca de revista na esquina da Getúlio Vargas com a Rua Santos Dumont.

Nicolau tocou a Banca Central até 1965, quando vendeu-a a Toshinori Tsukada, um japonês pai de oito filhos que ganhou dinheiro com um caminhão transportando café em coco entre as fazendas da região e as máquinas de beneficiamento em Maringá.
Toshinori, que ainda tinha dificuldade para falar Português, deixava a banca a maior parte do tempo sob os cuidados dos filhos, principalmente Massao, de 13 anos, e Hiroshi, de 11.
Os meninos tinham jeito para a coisa, logo sabiam tudo sobre gibis e as revistas da moda, a clientela cresceu e em pouco tempo ninguém lembrava mais que aquela era a Banca Central. Só se referiam a ela como Banca do Massao.
A banca era tão pequena que o vendedor ficava do lado de fora a maior do tempo, mas vendia muito. Precisava ser aberta ainda de madrugada para atender quem ia para o trabalho, para vender os dois jornais diários da cidade, o O Jornal de Maringá e a Folha do Norte do Paraná, mais tarde chegavam em caminhões O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, a Folha de Londrina, o Estado do Paraná e a Gazeta do Povo. A quantidade era tão grande que as pilhas de jornais ficavam do lado de fora.

“A gente começava muito cedo e só fechava lá pelas 11 horas da noite”, lembra Hiroshi. Segundo ele, tinha que esperar o encerramento da 2ª Sessão do Cine Maringá. Além disso, os bares da avenida ficavam lotados até tarde.
Efeito Benjamin Button
Em mais de 60 anos no mesmo local, os irmãos Tsukada acompanharam o desenvolvimento da cidade e, ao mesmo tempo, a Avenida Getúlio Vargas seguir o caminho inverso. De todos os estabelecimentos do período efervescente da avenida, a Banca do Massao é o único que resta, já que o Foto Maringá não é mais o mesmo e o Bradesco também chegou depois.
O cinema virou igreja, dos bancos hoje há uma agência da Caixa onde era o Banco Nacional e outra do Bradesco, no lugar do Cine Bar há uma loja de roupas íntimas, outra loja onde era o Bar Colúmbia, não há mais restaurante e da Confeitaria Copacabana não sobrou nem as tábuas do assoalho. A Ótica Leonel foi para outro ponto. Até o Baianinho, o engraxate histórico da avenida, morreu aos 60 anos e ninguém assumiu o ponto.
“A avenida morre às 5 ou 6 horas da tarde, quando fecham as lojas e as duas lotéricas”, diz o radialista Rogério Rico, que há décadas é frequentador da Getúlio Vargas. “No sábado a avenida morre ao meio-dia e no domingo ela praticamente não existe”.
Segundo ele, aquela avenida tem a magia de promover encontros de amigos, ainda tem muito movimento de pedestres, mas tudo dura só até o fim da tarde. A noite, aquele trecho vira um deserto de dar medo de passar.
“Não tem mais engraxate, não tem vendedor de rua e quem quiser bater papo tem que ser em pé na calçada”, diz Rico, profetizando que a avenida pode ficar ainda mais morta quando for concretizado o projeto de mudar o Centro Cívico para a região do antigo aeroporto.
O fotógrafo Aldemir Moraes, o Pardal, que trabalha na esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Rua Santos Dumont, onde em um passado distante foi o escritório da VASP, diz que o setor imobiliário percebeu a morte da avenida há muito tempo, tanto que nos últimos 50 anos apenas dois prédios foram construídos em toda a extensão da avenida, enquanto em outras áreas, como o Novo Centro, Zona 7 e Vila Operária, as construtoras investiram pesado e para todo lado que se olha tem prédio novo ou prédio em construção.

“É o efeito Benjamin Button”, brinca Pardal, se referindo ao livro “O Curioso Caso De Benjamin Button”, do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, que virou filme de sucesso estrelado por Brad Pitt, que conta a história de um homem que nasceu velho e foi rejuvenescendo até virar bebê.
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