Débora de Mello Sant’ Ana e Rodrigo Arantes Reis
Colaboração de Tamara Domiciano
Ao longo dos últimos meses, percorremos o Paraná para entender como a população enxerga a ciência, suas instituições e seus efeitos sobre a sociedade. O que encontramos revela um cenário ao mesmo tempo estimulante e desafiador, no qual, se por um lado a confiança na ciência e nas universidades públicas é amplamente majoritária, por outro, nem sempre se converte em engajamento, compreensão aprofundada ou participação em iniciativas de divulgação científica.
Esse contato com os paranaenses foi feito por meio da Pesquisa de Percepção Pública da Ciência no Paraná. Trata-se de uma ação do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação – NAPI Paraná Faz Ciência, um grupo de divulgadores científicos que atua em conjunto no estado e tem o apoio da Fundação Araucária, responsável pelo financiamento da ciência no Paraná.
Na pesquisa foram ouvidas 2.684 pessoas, em 88 municípios, amplitude que nos permitiu observar nuances regionais, geracionais e temáticas, mas também nos confrontou com contradições profundas que marcam a relação entre conhecimento científico e vida pública no século XXI.
Entre elas, o dado mais emblemático talvez seja o nível de confiança em cientistas de universidades públicas, com um índice de 0,93, entre os paranaenses. Esse índice, obtido por meio de análises estatísticas, mostra que o público confia mais na ciência produzida por essas instituições, do que em argumentações de outros atores como médicos, jornalistas e empresas privadas.Também é expressivo que 58% da população considere Ciência e Tecnologia uma área de interesse no consumo midiático, posicionando esse tema à frente de outros como esportes e religião.
Esse interesse se evidencia ainda mais quando analisamos o que a população considera relevante. Educação reúne 83,4% das menções como área de maior valor, seguida por medicina e saúde, com 80,6%, e por meio ambiente, com 70,1%. No movimento inverso, mais da metade dos entrevistados afirma não se interessar por política, chegando a 52,6%. Arte e Cultura aparecem com 47,2% de desinteresse e Esportes com 43,4%, o que revela um desequilíbrio significativo entre o que se busca e o que se rejeita no debate público.
No entanto, é justamente quando cruzamos confiança e interesse com compreensão científica que as tensões emergem. Embora 91,5% dos entrevistados afirmem saber que a Terra é redonda e 59% atribuam as mudanças climáticas principalmente às ações humanas, quase metade dos respondentes — 48% — não acredita na teoria da evolução. Esses dados evidenciam que a crença na ciência não necessariamente implica aceitação uniforme de seus conceitos fundamentais, mas é seletiva, atravessada por valores culturais, crenças religiosas e discursos desinformativos amplificados por fatores como as redes sociais.
O caso das mudanças climáticas, em especial, ajuda a ilustrar essa ambivalência, tendo em vista que, ainda que 86,8% da população reconheça que o aquecimento global é causado total ou majoritariamente pela ação humana, um percentual superior ao registrado na média nacional e em países com indicadores educacionais mais elevados, persiste um núcleo minoritário que atribui o fenômeno apenas a causas naturais (3,2%) ou o nega completamente (0,9%). Observamos também que a crença em causas exclusivamente naturais cresce com a idade, um indício de que esforços educativos precisam ser geracionais, não apenas temáticos.
A temática de vacinas, por sua vez, outra área sensível no debate público recente, apresenta um comportamento parecido. A ampla maioria (70,9%) considera os riscos inexistentes ou pequenos, e apenas 7,4% acreditam que os riscos são grandes. A diferença entre homens e mulheres é mínima, o que reforça a estabilidade dessa percepção. Ainda assim, a persistência de receios inflados pela desinformação aponta para a necessidade de aprofundar estratégias de comunicação que transcendam campanhas emergenciais e se tornem políticas permanentes de alfabetização científica.
Entre todos os números, talvez o mais revelador seja um que não diz respeito a crença ou descrença, mas ao desejo explícito de compreensão. 63% dos entrevistados afirmam que poderiam ser mais bem informados sobre ciência, tecnologia e inovação se os cientistas explicassem os conteúdos com mais detalhes. Para nós, que atuamos diariamente na interface entre pesquisa e sociedade, esse dado é um chamado claro. Não basta produzir ciência de qualidade, algo que as universidades paranaenses já fazem com excelência, é preciso também comunicá-la, contextualizá-la, torná-la inteligível sem perder seu rigor metodológico.
Esse cenário confirma que a crise contemporânea entre ciência e sociedade não se deve apenas à desinformação, mas também a um distanciamento histórico, no qual a linguagem técnica e o formato tradicional das instituições científicas se tornaram barreiras simbólicas. Superá-las exige esforço mútuo de pesquisadores dispostos a repensar estratégias comunicacionais e de políticas públicas que fortaleçam espaços de circulação do conhecimento, da escola básica aos museus, da imprensa regional aos ambientes digitais.
Nos dados que recolhemos, também identificamos que a maioria das pessoas não recorre à ciência para explicar problemas sociais complexos, como pobreza ou desigualdade. Esse ceticismo, que distancia a ciência de seu impacto político, indica maturidade, haja visto que 57,3% discordam que ciência e tecnologia eliminariam a pobreza, e 49,9% discordam que diminuiriam desigualdades sociais. Trata-se de uma percepção que rompe com o mito salvacionista da ciência, reconhecendo seus limites diante de desafios que também são econômicos, culturais e estruturais.
A conclusão que tiramos é que o Paraná não é um estado negacionista, ao contrário, demonstra níveis altos de confiança, interesse e apropriação do conhecimento científico. Ao mesmo tempo, é um estado que evidencia as contradições globais que marcam nosso tempo, como a dualidade da valorização da ciência e, ainda assim, o afastamento em relação à ela no cotidiano; o reconhecimento de sua importância, mas a hesitação diante de temas politizados; a busca por informação, mas nem sempre o alcance com clareza.
Por isso, entendemos que esta pesquisa, conduzida pelo NAPI Paraná Faz Ciência, não é apenas um diagnóstico, mas uma ferramenta estratégica para orientar políticas públicas, definir prioridades educacionais e repensar nossa presença no território digital. Só haverá ciência forte no Paraná se houver, também, uma sociedade que a compreenda, a questione e a incorpore como parte de sua vida cotidiana.
Veja o resumo do levantamento neste LINK
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