A força das tradições populares marcou as ruas de Aracruz, no Espírito Santo, durante a 6ª edição da Teia Nacional dos Pontos de Cultura. Entre tambores, cantos e celebrações culturais, um dos destaques do evento foi a história de uma família que mantém viva, há décadas, a tradição do congo capixaba, patrimônio cultural que atravessa gerações.
Maju Santos, de 27 anos, cresceu cercada pela musicalidade do congo e hoje segue os passos da mãe e do avô na preservação da cultura popular do estado. Integrante da Banda de Congo Mestre Honório e do grupo Madalenas do Jucu, ela afirma que sua ligação com os tambores começou antes mesmo do nascimento.
“Minha mãe participava das fincadas de mastro comigo ainda na barriga. Acho que foi daí que nasceu essa conexão tão forte com o congo”, conta.
Fincada de Mastro mantém viva tradição centenária
A Fincada de Mastro é uma das celebrações mais tradicionais das bandas de congo no Espírito Santo. A festa mistura religiosidade, música e memória ancestral em homenagem a São Benedito e aos escravizados que, segundo a tradição popular, sobreviveram a um naufrágio agarrados ao mastro de um navio.
Durante o ritual, grupos de congo percorrem as ruas tocando tambores e realizando apresentações até o momento simbólico da instalação do mastro enfeitado em praça pública. O mastro permanece no local durante um mês, quando então acontece uma nova celebração para sua retirada.
A manifestação cultural reúne comunidades inteiras e preserva práticas transmitidas oralmente ao longo das gerações.
Cortejo reuniu grupos culturais e indígenas em Aracruz
O desfile cultural realizado em Aracruz integrou a programação da Teia Nacional dos Pontos de Cultura, evento que promove encontros entre manifestações populares de diversas regiões do país.
Além das bandas de congo, o cortejo contou com a participação de grupos tradicionais indígenas, como os Guerreiros Tupinikim, da aldeia Irajá, fortalecendo a diversidade cultural do Espírito Santo.
A apresentação chamou a atenção de moradores do distrito de Santa Cruz, que acompanharam o desfile pelas ruas, janelas e calçadas da cidade.
Mulheres conquistam espaço nas bandas de congo
Entre os destaques do cortejo esteve o grupo Madalenas do Jucu, criado para ampliar a presença feminina nas manifestações do congo capixaba.
A idealizadora do projeto é Beatriz dos Santos Rego, mãe de Maju e atual regente da Banda de Congo Mestre Honório. Ela participa das bandas de congo há cerca de 40 anos e transformou em realidade um antigo sonho do pai, Mestre Daniel.
“Era um desejo antigo criar um grupo formado apenas por mulheres. Depois de muitos anos, conseguimos tornar isso possível”, afirma.
Hoje, o grupo reúne mulheres de diferentes idades e fortalece a participação feminina em uma tradição historicamente marcada pela presença masculina.
Cultura passada de geração em geração
Maju aprendeu ainda criança a tocar todos os instrumentos da banda e atualmente atua como regente das Madalenas do Jucu.
Ela relembra que, aos quatro anos, já ajudava a mãe durante as festas tradicionais da comunidade.
“O instrumento que mais gosto é a caixa, porque ela conduz toda a roda de congo”, explica.
A ligação com a cultura popular também é mantida pelo avô, Mestre Daniel Vieira dos Santos, de 85 anos, considerado uma das referências do congo capixaba.
Mestre de 85 anos já produziu mais de 2,5 mil tambores
Responsável pela fabricação artesanal dos instrumentos utilizados pela Banda de Congo Mestre Honório, Mestre Daniel afirma ter produzido mais de 2.500 tambores ao longo da vida.
Ele conta que começou a tocar ainda na infância e nunca mais se afastou da tradição.
“Isso é alegria para mim. Cresci no congo e sigo vivendo essa cultura até hoje”, afirma.
Após a aposentadoria, assumiu a liderança da banda e continuou transmitindo os saberes culturais para filhos, netos e novas gerações.
Cultura popular resiste com apoio e mobilização
Beatriz destaca que a continuidade das manifestações tradicionais depende do fortalecimento de políticas públicas culturais, editais e incentivos que garantam a realização das festas e atividades comunitárias.
Segundo ela, a resistência do congo capixaba está diretamente ligada ao envolvimento das famílias e das comunidades locais.
“A banda de congo é o ar que eu respiro”, resume.
A presença de três gerações da mesma família no cortejo simboliza não apenas a preservação da cultura popular, mas também a força da memória coletiva e da identidade cultural do Espírito Santo.

