IMPRESSO
Maringá
  • HomeM
  • Maringá
  • Economia
    • Mercado
    • Benefícios
    • Cartões
    • Investimentos
    • Contas Digitais
    • Cripto
  • Região
  • Esportes
  • Finanças
  • Colunas
  • Publicações Legais
Maringá
No Result
View All Result

O Quadril que Atravessou a Sala

Por André Drago
5 de março de 2026
Elvis Presley - divulgação site oficial

Elvis Presley - divulgação site oficial

Antes do mito

Eu conheci Elvis Presley pela cozinha. Pela voz da minha mãe cantando “Don’t Be Cruel” enquanto a panela chiava. Depois “It’s Now or Never”, que em casa também era “’O Sole Mio”. Italiano e inglês dividindo o mesmo espaço, junto com outros idiomas que ela amava. Antes de qualquer análise, era isso: som no ar. Música como atmosfera e não necessariamente reflexão.

Minha mãe não escutava para problematizar. Escutava porque era bom e fazia o corpo mexer. Talvez soubesse das camadas históricas e simplesmente escolhesse não transformar prazer em tribunal. Ela era inteira na escuta. E isso me moldou. Antes de virar músico, eu aprendi a ser ouvinte.

Só que o rock nunca foi inocente. Nunca foi só dança.

A linha racial

Quando se fala em Elvis, se ouve que o rock começa nele. Erro básico. Antes do “rei” houve a descarga elétrica de Sister Rosetta Tharpe nos anos 40, guitarra amplificada cuspindo fé com distorção. Mulher negra fazendo o gospel atravessar a rua e virar escândalo. Antes dele, Robert Johnson já tinha vendido a alma ao mito do blues. Depois vieram Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Chuck Berry, Little Richard, B.B. King. O rock já estava pronto — só ainda não tinha sido enlatado.

O sul dos Estados Unidos era segregação legal, linchamento moral e rádio atravessando cercas invisíveis. A música negra era desejo proibido circulando no escuro. A televisão branca precisava de um corpo aceitável para levar aquele som para dentro da sala de jantar sem que a América tivesse que admitir o que estava desejando.

Então surge Elvis.

Ele não brotou do nada. Cresceu em Memphis, frequentou igrejas negras, aprendeu ouvindo. Mistura real. Mas mistura não dissolve poder. A indústria percebeu rápido: um branco cantando com timbre negro podia monetizar a transgressão sem ameaçar a hierarquia. Era possível vender rebeldia com garantia de fábrica.

O quadril virou escândalo. Mas o escândalo não era só sexual. Era racial. Era um corpo branco performando códigos que tinham sido marginalizados quando estavam em corpos negros. Enquanto líderes negros eram perseguidos, espancados, assassinados, o desejo pelo ritmo negro entrava pela televisão com patrocínio.

O que estava sendo consumido? Música? Ou a fantasia de atravessar a linha sem pagar o preço?

Isso o condena? Não.
Isso o absolve? Também não.

Ele é o ponto onde talento individual encontra engrenagem estrutural. Ponte e filtro. Ruptura e vitrine.

Estado, mercado, espetáculo

Em 1958, no auge, ele veste a farda e vai servir na Alemanha. Em plena Guerra Fria. A mensagem era clara: o rebelde também é patriota. A rebeldia podia balançar o quadril, mas devia continência. O Estado não combateu o mito — incorporou o mito.

Depois vem Hollywood. Filme atrás de filme. Fórmula atrás de fórmula. A rebeldia vira roteiro previsível. O risco vira coreografia segura. O mercado faz isso com tudo que ameaça: transforma em estilo e vende em série.

Macacões brilhantes. Coral milimetricamente ensaiado. Orquestra e repetição. O excesso virou atração fixa e pacote turístico. O rock estava finalmente domesticado.

O corpo começou a cobrar. Inchaço. Medicamentos. Insônia. Respiração pesada. A voz ainda poderosa, mas cercada por um cansaço estrutural. O palco virou máquina de moer presença.

Ele morre aos 42 anos. Oficialmente, parada cardíaca. Extraoficialmente, a conta de um sistema que exige eternidade de corpos finitos.

O artista como ativo econômico é uma invenção cruel. O rock prometeu libertar o corpo — e o mercado respondeu vendendo essa libertação em ingressos numerados. A energia que nasce como ruptura aprende a posar para a televisão.

O que resta do incêndio

E eu volto para minha mãe.

Ela dançava sem precisar resolver contradições históricas. Ela queria um filho como Elvis. Eu virei músico. Virei roqueiro. Virei performer. Herdei a vibração. Só que eu não consigo ouvir sem pensar.

Talvez o verdadeiro gesto radical hoje não seja incendiar o palco. Seja não se deixar virar mercadoria sem perceber. Seja sustentar tensão sem implodir.

O rock não é só rebeldia juvenil. Ele é deslocamento histórico. Nasce da diáspora africana, atravessa escravidão, e originou estilos musicais diversos pelo mundo. Carrega trauma e transcendência nos mesmos acordes. Quando um garoto branco dança aquilo na televisão, a nação inteira é obrigada a negociar com a própria hipocrisia — mesmo que finja que não.

O quadril que escandalizou a América hoje não escandaliza ninguém. O que ainda incomoda é admitir que o sistema sabe domesticar o que o ameaça.

Falar de Elvis é falar da minha mãe cantando em outra língua sem pedir autorização cultural. É falar de um corpo que virou símbolo nacional. É falar de um país que precisava de um intermediário para permitir que o desejo atravessasse a sala entre notas musicais, sem derrubar as paredes.

 

Tags: anndré dragoElvis PresleyEntre NotasEstúdio Dragoindustria culturalRacismoRocksister rosseta tharpe

IMPRESSO

Outros Posts

A Parábola dos Cegos (1568) - Pieter Bruegel, o Velho
"Entre Notas"

Metacognição e Honestidade Epistêmica em Música

20 de março de 2026
Waltinho (centro) e Banda Memphis irão interpretar Elvis Presley sexta-feira dia 20 deste mês no MPB bar em Maringá
"Entre Notas"

Um Tributo ao Rei do Rock

16 de março de 2026
Sister Rosetta Tharpe - Mulher do Rock (fonte: divulgação)
"Entre Notas"

Mulher e Música

8 de março de 2026
Os Quebradores de Pedra. Gustav Coubert (1849)
"Entre Notas"

As Horas Invisíveis

27 de fevereiro de 2026
Legenda: Gravação da Música "The Bridge of Temptations" do compositor Jeff Rozas (guitarra), na bateria Chico Castro. Foto: Estúdio Drago
"Entre Notas"

Disciplina, Liberdade e a Responsabilidade do Som

27 de fevereiro de 2026
Bagunça na mente do brasileiro; Imagem: Divulgação
"Entre Notas"

A pedagogia dos afetos

15 de fevereiro de 2026
  • Impresso
  • Fale Conosco
  • Política de Privacidade
  • Publicações Legais
  • Quem Somos

Editora Dia a Dia – O Maringá

CNPJ: 31.722.654/0001-52
ENDEREÇO: Estácio de Sá, 1251,
Zona 2 CEP: 87005-120
(44) 3305-5461

© 2026 O Maringá - O Jornal a serviço de Maringá e região.

No Result
View All Result
  • Home
  • Maringá
  • Economia
  • Colunas
  • Jornal Impresso
  • Mercado
  • Cartões
  • Cripto
  • Investimentos
  • Contas Digitais
  • Finanças
  • Benefícios
  • Outros
    • Publicações Legais
    • Fale Conosco
    • Quem Somos

© 2026 O Maringá - Todos Os Direitos Reservados.

Esse website utiliza cookies. Ao continuar a utilizar este website está a dar consentimento à utilização de cookies. Visite nossa Política de Privacidade e Cookies.