Preparação de um espetáculo
Na semana passada escrevi sobre o contexto em que surgiu Elvis Presley — a indústria cultural e o momento social que permitiu que aquele quadril atravessasse a televisão e entrasse nas salas de jantar da América.
Mas existe outra história que também merece ser contada: a de quem, décadas depois, volta a esse repertório e o encara de frente.
Tocar Elvis não é simples. Existe arquitetura musical — arranjos detalhados, orquestrações e dinâmicas muito específicas. Quem se dispõe a participar de um tributo precisa chegar preparado musicalmente e psicologicamente. A cobrança e o nível de detalhe são sérios.
Nas últimas semanas eu tive a alegria de viver esse processo por dentro.
No dia 20 de março apresentaremos um show especial dedicado a Elvis em Maringá, com apoio da Turbo Ideias Potentes e do MBP bar, local este em que o espetáculo será realizado. E eu tive a honra de participar do projeto como corista e também como preparador de algumas partes de arranjos vocais.
Para mim, pessoalmente, esse processo teve um significado especial. Foi uma oportunidade concreta de colocar em prática muito do que venho estudando no curso de música da Universidade Estadual de Maringá. Estudar música é uma coisa, colocar isso dentro de um palco — em um repertório complexo e cheio de tradição — é outra completamente diferente.
E o repertório de Elvis é riquíssimo.
Foram três meses de preparação. Ensaios semanais, encontros específicos para os backing vocals e outros dedicados à banda. Em muitos momentos foi necessário transcrever arranjos, reconstruir harmonias vocais e também criar soluções novas entre notas para adaptar o material ao nosso grupo.
Tivemos ainda o privilégio de trabalhar com técnico de som presente em praticamente todos os ensaios, algo raro em muitos projetos musicais. Isso permite ajustar o espetáculo desde o início, não apenas na hora do show.
Essa equipe conseguiu construir algo muito bonito.
A Banda
À frente, na interpretação de Elvis estará Waltinho (Walter Korneiczuk), cantor experiente que há anos interpreta Elvis em apresentações privadas e eventos. Agora, a convite do MPB Bar, ele organiza essa apresentação com banda completa e estrutura de espetáculo.
Nos vocais femininos de apoio contamos com Rebeca Rastelli, cantora e instrumentista respeitada e experiente em nossa região, e Bianca Cidade, jovem artista que vem ganhando destaque no teatro musical. No vocal masculino de apoio estou eu, André Drago.
A banda reúne músicos igualmente dedicados: Will Zambrota na guitarra, Edinho Gomes na bateria, Júnior Furlan no baixo e Matheus Lara nos teclados. Na parte técnica temos Ray Montoani responsável pela operação de áudio e luz.
Quando um projeto assim funciona, é porque existe uma rede trabalhando junto.
Quero dar um destaque ao trabalho de interpretar a voz de Elvis Presley. Uma voz especial. Um barítono amplo, quente e íntimo, e que em um instante podia preencher um teatro inteiro. Ele possuía também um senso rítmico natural que se expressava de maneira corporal: Elvis não cantava apenas, ele dançava junto com cada frase. Sua interpretação emocional transformava cada gesto musical em narrativa. E tudo isso atravessava estilos — gospel, rock, country, blues ou pop. Daí vemos o tamanho da dedicação empenhada em representar músicas deste ídolo, que Walter desempenha com tamanha paixão que nos contagia e impressiona.

Em entrevista a coluna entre notas Waltinho nos conta um pouco sobre sua trajetória e experiencia interpretando estes clássicos:
O que mais desafia em cantar Elvis?
– É sempre muito desafiador interpretar o Elvis. A sua energia, presença de palco e voz inconfudível são inigualáveis. Mas, quando se é muito fã de um artista e vc consegue e alguma forma trazer um pouco do que ele representou, é gratificante demais.
Existe algum momento do show que você considera o mais difícil ou emocionante?
– Boa parte das músicas que o Elvis gravou exige muita técnica, afinação, alcance vocal e emoção misturados. Ele vivia cada música como poucos. Acho que isso é a parte mais dificil. Em relação a emoção, sempre tem músicas quem mexem mais contigo como fã e intérprete e tenho algumas preferidas que me dão bastante prazer em cantar.
O que você acha que ainda faz Elvis mexer com tanta gente hoje?
– Ele foi uma combinação de fatores e seu legado é eterno. Ele conseguiu mexer com a música, as apresentações sempre vibrantes e com muita movimentação e entrega. Mudou a moda e mudou a forma como os cantores se apresentavam. Seu timbre de cantores negros, os diversos estilos que gravou (rock, blues, country e gospel) fez dele um artista versátil e amado por muita gente no mundo além de inspirar gerações de novos cantores. Não podemos negar que Elvis tinha uma beleza impar, o topete e as roupas marcantes também ajudaram muito. Mas, tem algo que poucos conhecem que é o grande coração e a humildade que ele tinha. Isso, pra grandeza que ele foi como artista, fizeram muita diferença.
Depois de tantos anos cantando esse repertório, o que ele mudou em você como artista?
– Elvis era extremamente dedicado e detalhista e seu trabalho é prova disso. Ele nunca compôs uma música sequer. Todo material dele foi interpretação de música de outros e quando você pega versões originais e compara com as versões gravadas por ele, você percebe isso. Por isso, como artista eu foco muito em dedicação. Sempre é possível fazer melhor seu repertório e isso exige muito, mas é absolutamente compensador.
O Repertório
E durante esse processo passamos por músicas que são impressionantes. Algumas fazem parte das minhas primeiras memórias. Outras redescobri agora durante os ensaios.
Canções como “Blue Suede Shoes”, “Teddy Bear”, “Hound Dog”, “Heartbreak Hotel” e “Love Me Tender” fazem parte do imaginário popular há décadas. Outras carregam uma força emocional muito grande, como “If I Can Dream”, “You Gave Me a Mountain”, “Welcome to My World”, “American Trilogy” e “Can’t Help Falling in Love”.
Músicas que escuto desde a infância e que voltaram a aparecer com força nesse processo de ensaio.
Redescobrir esse repertório por dentro foi uma experiência muito rica.
Legado
Na coluna anterior eu mencionei como Elvis surgiu dentro de um contexto histórico complexo e como a indústria cultural também soube utilizar seu talento para fins comerciais e ideológicos. Isso é verdade. Mas também é verdade que a indústria costuma fazer isso justamente com artistas que são excepcionalmente bons.
São esses artistas que conseguem mover multidões, e Elvis certamente foi um deles.
Décadas depois de sua morte, suas músicas despertam lembranças, afeto e curiosidade. Elas continuam circulando, reinterpretadas e redescobertas por novas gerações.
Nosso Convite
Fica aqui o nosso convite:
No dia 20 de março, no MPB Bar, apresentaremos esse espetáculo preparado ao longo de meses de trabalho. Os camarotes e mesas já estão esgotados, mas ainda existem ingressos disponíveis.
Quem quiser participar pode procurar os convites pelo Sympla, pelas páginas do MPB Bar, do Estúdio Drago ou pelos integrantes da banda.
Estamos muito felizes em compartilhar esse espetáculo com vocês! Depois de meses de ensaio, chegou a hora de devolver essas canções ao seu lugar natural: o palco.








