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The Queen of the Night – De Mozart a Angra

Por André Drago
8 de maio de 2026
Diana Damrau - intérprete icônica da Rainha da Noite na ópera A Flauta Mágica

Diana Damrau - intérprete icônica da Rainha da Noite na ópera A Flauta Mágica

Uma melodia Antiga

Um dos temas mais emblemáticos da música mundial em todos os tempos é o clássico refrão da Ária da Rainha da Noite, presente na ópera A Flauta Mágica de Mozart. Eu me lembro que a primeira vez que ouvi esta melodia foi através de um comercial de carros dos anos 90. Neste comercial o contratenor Edson Cordeiro entoava a plenos pulmões a melodia icônica que é de extrema dificuldade até mesmo para as sopranos mais preparadas.

Anos mais tarde escutei a mesma passagem cantada pelo mesmo cantor presente na música de abertura do álbum acústico da Cássia Eller. Nesta faixa ela faz um mashup de I Can Get No Satisfaction dos Rolling Stones e a dita ária clássica de Mozart. Eu ainda não sabia a respeito do que se tratava a proposta, de início causa estranheza mas, instrumentado das referências, hoje vejo a genialidade da composição.

 

A Flauta Mágica

Quando entrei na faculdade comecei a estudar música com mais seriedade ainda – com acesso às principais referências históricas das quais eu carecia – em um dia comum de estudo me propus a assistir à aclamada ópera do compositor austríaco.

A Flauta Mágica é uma obra mística, que traz diversos simbolismos. É um espetáculo realmente catártico. Lá pela metade da ópera a cantora Diana Damrau – intérprete da personagem Rainha da Noite na versão que eu assistia – se entrega totalmente e realiza a passagem vocal mais memorável da música clássica. Essa mesma que eu ouvia desde criança e que me fascinava. No mesmo momento, sem bloqueio nenhum, eu me pus a chorar de emoção por haver encontrado a origem de tão importante melodia.

Após isso entrei em um hiperfoco a respeito de A Flauta Mágica, desvelei os significados da simbologia contida na cartilha da ópera. Muito me ajudou o conteúdo da professora Lucia Helena Galvão, do instituto Nova Acrópole.

Ligando os pontos

Faltava somente um ato para o elo se fechar na minha compreensão a respeito do que trago hoje nesta coluna: escutar mais uma vez um certo disco de uma certa banda.

Ora, este disco é o EP Freedom Call, da banda Angra. Um disco que foi resultado do processo de composição e produção da fase Holy Land, com músicas que não entraram diretamente no álbum homônimo. Neste disco existe uma música chamada The Queen Of The Night. Primeiro alerta de conexão. Ao revisitar a letra desta música percebo que ela inicia falando do sino de cristal, instrumento de um dos personagens da ópera.

O sino de cristal é um objeto concedido ao personagem Papageno, um caçador de pássaros, que juntamente com Tamino, um jovem iniciado, recebem o sino de prata e a flauta mágica (que é feita de ouro).E aí vale uma observação, o sino da Flauta Mágica, na verdade, é de prata e não de cristal. Mas essa não é uma dissonância que compromete a correspondência entre as alusões, pois o sino de cristal que acorda o personagem da música do Angra tem a mesma função do sino de prata que também desperta o personagem Papageno, e que o auxilia a abrir os caminhos materiais da trajetória dele durante a ópera. Assim como a flauta mágica é um item que auxilia o personagem protagonista, que é o Tamino, a abrir os caminhos através do mundo espiritual.

Feitas essas comparações, voltamos à análise da música. Queen of the Night do Angra também apresenta outro trecho muito importante que nos demonstra a correspondência com a ária da Rainha da Noite de Mozart. Essa correspondência está na ponte para o refrão em que ele fala “sonhos duram para sempre para a Imperatriz da Noite”. São todas alusões muito claras à personagem que está sendo descrita e destacada na música do Angra.

E aí vem a confirmação: Após eu sacar todas essas conexões, a hora que a música chega no refrão, o saudoso André Matos canta uma melodia que usa uma alternância rítmica entre notas na palavra “desires”. Quando ele canta a terceira frase do refrão. Nessa frase ele faz uma inflexão vocal que se assemelha muito à usada na melodia original da ópera, a qual eu destaquei desde o princípio do texto.

A técnica da variação

Juntando todas essas informações e o fato de músicos do Angra haverem estudado uma graduação em música – especificamente em composição musical –, é fácil imaginar que o contato que eles tiveram com a obra do Mozart influenciou direta ou indiretamente a composição da música The Queen of the Night.

À luz do texto das colunas anteriores a essa que foram publicadas neste veículo (na qual seguimos explorando o tema da composição musical através da técnica das variações). Em certa capacidade – por toda a inspiração certamente oriunda da música clássica – é perfeitamente plausível a hipótese da banda haver composto uma variação da Ária da Rainha da noite. Assim como certamente o fez em outras passagens de sua obra, trazendo sempre “na manga” uma variação de temas já há muito conhecidos (no mesmo álbum escutamos passagens de Hermeto Pascoal na música Carolina IV por exemplo).

Não existem mais dúvidas a respeito da seguinte constatação: Se chegamos até aqui, é por que subimos nos ombros de gigantes.

Tags: andre matosAngracomposição musicalluis mariuttiMozartrafael bittencourtshamanshamangra

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