Hoje é o solstício de inverno no Hemisfério Sul. Os dias começam a ficar maiores. Há mais luz. As iniciações do passado costumavam ocorrer nesta data. O símbolo é claro: daqui em diante, tudo será gradualmente revelado. A luz penetrará espaços que antes permaneceram frios.
O brilho da água é mais intenso sob a luz do sol. O céu nos lembra que toda escuridão é transitória e que a luz não surge de repente; ela retorna aos poucos.
Os ciclos nos atravessam. A natureza se organiza em ritmos: estações do ano, ciclos hormonais, marés, alternância entre dia e noite. A vida se move em espirais de transformação. Nos seres vivos, observamos a passagem do tempo. As árvores registram com precisão cada ciclo solar.
Os ouvidos mais próximos da nossa voz são os nossos. Assim, os olhos mais próximos das palavras que escrevo são os meus. As colunas que publico não são exceção. Venho escrevendo a respeito das experiências que vivo, perguntas que me atravessam e transformações em curso, esperando que o interesse comum encontre, entre notas de um artista, alguma utilidade.
A exemplo da natureza, vida e arte também seguem a sístole e diástole universal (contração e relaxamento do músculo cardíaco, guarde esta informação).
Existem exemplos concretos disso na música brasileira. Considerado um dos maiores percussionistas da história, Naná Vasconcelos foi vencedor de oito prêmios Grammy e desenvolveu, ao longo das décadas de 1960 e 1970, uma linguagem singular para o berimbau. Sua técnica não surgiu de um súbito lampejo criativo, mas de um período de intensa experimentação, deslocamentos e imersão entre Recife, Rio de Janeiro, Europa e Estados Unidos. O resultado desse processo pode ser ouvido em Africadeus, álbum de 1971 que expandiu as possibilidades sonoras do instrumento e transformou o berimbau em protagonista de uma nova paisagem musical.
Outro exemplo emblemático é o de João Gilberto. Antes de se tornar o principal nome da bossa nova, o músico atravessou um longo período de recolhimento artístico e pessoal. Entre o fim da década de 1940 e meados dos anos 1950, afastou-se dos grandes centros musicais e passou temporadas na casa de familiares, especialmente em Juazeiro, na Bahia. Foi nesse intervalo, longe dos palcos e da pressão da indústria fonográfica, que desenvolveu uma nova forma de tocar violão.
A partir de uma investigação obsessiva sobre ritmo, dinâmica e timbre, João criou uma batida que condensava a complexidade da percussão do samba em um único instrumento. Sua mão direita estabelecia uma relação inédita entre baixo, síncopa e harmonia, enquanto sua voz abandonava a impostação tradicional em favor de uma interpretação intimista e econômica.
O surgimento da bossa nova não foi um acontecimento repentino, mas o resultado de anos de escuta, repetição e refinamento silencioso. O recolhimento precedeu a expansão. Antes de transformar a música brasileira, João Gilberto precisou se afastar dela para ouvi-la de outra maneira.
Ney Matogrosso e Ronnie James Dio também alcançaram o ápice entre os 30 e 40 anos. Atravessaram longos períodos de uma preparação silenciosa que segue um curso natural e resulta de uma necessidade profundamente humana.
Nascemos em um mundo que primeiro precisamos compreender para, só então, começar a agir sobre ele. Precisamos encontrar maneiras de unir aquilo que fazemos com prazer àquilo que o mundo necessita, ao que pode nos trazer retorno financeiro e, consequentemente, sobrevivência.
Muitas vezes, a primeira metade da vida parece reservada para que possamos nos encontrar, nos entender, rascunhar, esboçar, aprender a compor e a lapidar essas composições, para que realmente traduzam o ser sensível que existe ali.
É como se a vida começasse na primavera e atravessasse uma fase leve no início, com sorte; atingisse um pico de energia insondável no começo da fase adulta; e, aos poucos, cedesse lugar a reflexões profundas e à necessidade de se situar, compreender qual é o próprio lugar no mundo.
Em uma sístole existencial, preparamos a diástole artística, expandimos novamente nossas cavidades, nossas capacidades. Devolvemos ao mundo tudo aquilo que absorvemos e conseguimos elaborar.
Esses períodos podem ser reconhecidos no intervalo de um único dia ou diversas vezes ao longo da vida. Também podem ser reconhecidos como um único grande movimento existencial. Nesse percurso, a trajetória de uma pessoa se inicia, encontra um ponto culminante de formação da personalidade e, a partir dele, com a segurança de uma identidade madura e bem desenvolvida — artística, musical, pessoal e social — caminhamos em direção à nossa humanidade e nos tornamos quem somos.
O período entre essas contrações e dilatações é um curioso estado liminar, em que já deixamos de ser quem éramos, mas ainda não nos tornamos quem seremos.
É exatamente assim que me sinto nesta última semana de outono: com o privilégio e a consciência de olhar para os meus próprios ciclos e reconhecer a chegada de uma aurora há muito esperada.
Um momento em que se preparar já não faz tanto sentido quanto colocar em prática aquilo que elaborei ao longo de todos esses anos.
Nos vemos nas próximas composições e colunas.








